Fuga
Antônio Xerxenesky
Meu tempo já passou, triste verdade. Rendi-me. Não tento mais.
Já fui rico. Tá bom, rico não. Classe média-baixa. Bom, tinha uma casa, pelo menos. Já fui jovem, também. É, parece difícil de acreditar, quem me vê não é capaz de me imaginar com vinte, trinta anos. Não são as rugas, são os meus gestos. Quando tomo algo de canudinho, ajo de maneira tão desajeitada que se percebe na hora que sou de outra época. Quase um enviado do passado. Mas olha aqui. Tá vendo? Sempre carrego essa foto comigo no bolso. Tá meio amassada, mas dá para ver que sou eu, ó. Tem até a mesma mancha marrom no pescoço.
Não, isso é uma cicatriz. A mancha é essa, ó.
Como eu consegui a cicatriz? É feia, né? Mas aguarda que eu já te conto. Antes, deixa eu falar do ano que tiraram essa foto. Nesse ano foi quando tentei, pela primeira vez, andar de avião. Não era coisa simples como hoje em dia, que aparece até na tevê um monte de comerciais dizendo que todo mundo pode voar, que se tornou barato, popular. Mas eu tinha dinheiro. Comprei minha passagem e aguardei com ansiedade. Dia 3 de outubro, para ser bem detalhista, tomei um bonde até o aeroporto de Porto Alegre. Era comprido e assustador o aeroporto. Acho que agora vocês têm um novo, né? Deve ser maior ainda. Deve ser cheio de escadas rolantes. Na minha época, anunciavam as coisas por um sistema de alto-falantes com um som tão ruim, que parecia que os locutores ‘tavam com batatas na boca. Ou um pano na frente. A mulher dos alto-falantes que deu a má notícia. Problemas na aeronave, vôo adiado indefinidamente. Ou como eu escutei, “Prffoblemas na aerojnave numfro frinta e kjatro”. No caixa, me deram um papelzinho e ficaram de me avisar quando seria o próximo vôo. O local de destino não era dos mais comuns, podia demorar. Enfim, a nova oportunidade apareceu e, de novo, eu arrumei as malas, pesadas e grandalhonas que eram, tomei um chá para relaxar e me aprontei para ir ao aeroporto. Já ‘tava fechando a porta quando soou o telefone dos demônios. Minha mãe, a Dona Estela, falecera. Ataque cardíaco. Tão jovem! E minha viagem foi esquecida. Como a mulher do alto-falante disse, “indefffinidamentche”.
Com a morte da minha mãe, pintaram uma dúzia de outros problemas. Financeiros. Fui caindo de classe social do mesmo jeito que um velho caquético despenca de uma escadaria. Meses depois, eu já ‘tava no degrau mais baixo, olhando pro topo com espanto e raiva. A viagem de avião seria minha chance de sair desse país verde-amarelo de merda. Eu não suportava mais permanecer aqui, por isso tinha comprado a passagem para o lugar mais longe possível. Quase o ponto antípoda no mapa.
Minhas expectativas foram obrigadas a baixar. Esquecer o muito distante, e planejar o não-tão-longe. Melhor que nada, né? A pena é que minha conta de banco estava quase zerada. O que fiz? Bom… Os amigos são coisas fenomenais, sabia? Tu, que ainda é jovem, deve ter isso em mente. Pois bem. O Dias era meu primo e amigo íntimo. Não tínhamos pudores, contávamos tudo um para o outro. O moço tinha ganhado um carro lindão logo que entrou na faculdade de Medicina. ‘Tava meio capenga já, mas ele chegou para mim um belo dia e disse: “Carlos, teu aniversário se aproxima. Façamos o seguinte: vamos pegar a estrada. E viajar. Fugir dessa cidade da qual tu já tá de saco cheio.” Ah, ainda tinha fresco em minha memória as poucas vezes que saí de Porto Alegre, fui para Buenos Aires e respirei um ar menos contaminado pelas árvores do Bom Fim. Aquelas palmeiras têm um odor muito particular, enjoativo. Vocês jovens nem notam, de tanta poluição, morando na Oswaldo. Todas as árvores da cidade têm um cheiro ruim. No Bom Fim, no Menino Deus, no Petrópolis. É o cheiro do já visto, quase um ranço, sim, um ranço. Os anos de conservadorismo e tradição, essas são as raízes das árvores. Têm cheiro de gaúcho bairrista. Fico cogitando que de repente a poluição é melhor. Pelo menos ela existe em todo o globo.
Tá com pressa, é? Tu realmente é menos simpático que os que vieram antes. Se tu vai trabalhar com velhacos como eu, tem que aprender a ser mais paciente, guri. Eu gosto de contar as coisas do meu jeito, no meu ritmo.
Não precisa pedir desculpa. Prossigamos, então.
Dias, eu e suas duas filhas, Mariane e Marta, montamos no carro e fomos para aquela maravilha com linha tracejada no meio. Fiquei no banco de trás do DKW, da onde podia contemplar Porto Alegre se afastando… que sonho! Ela era quase bonita de longe. Dias deleitava-se com um cigarro aceso, mirando o horizonte à frente. Tinha uma atmosfera de delírio dentro do carro. Mas espécie alguma de nostalgia nas nossas cabeças.
E então? É uma pena. Essa parte da história me dói. É uma pena que ele atingiu a ponta de um caminhão que atravessava um cruzamento no sinal fechado. Cena hedionda. O carro capotou uma, duas vezes, caiu de volta na posição normal. Quando recuperei a consciência, tudo era sangue e vidro e metal. Dias ficara sem queixo, acredita? Marta eu não pude localizar. Depois soube que decolou vôo e parou só uns cinco metros à frente. E a Mariane. Tão bonita. Seria Miss Brasil, eu juro. Pouca coisa restou do rosto dela.
O plano de escapar de carro fracassou, então. Por que não juntei grana e peguei um ônibus, algo assim, tu deve se perguntar. Oras! Não seja tão ingênuo. Se tu tivesses presenciado aquele genocídio automobilístico… Também terias desenvolvido um trauma.
Acho que foi um sinal, sabe? Foi nosso Senhor falando: renda-se. Não vencerás. Nem por terra, nem por ar. Por água não iria longe, Porto Alegre não é no litoral. Fracassado e frustrado, “demente” seria o teu diagnóstico, decidi viver na rua. Uma vida humilhante. Mas eu, covarde, não tinha colhões pra pôr um fim a ela. Sabe o que é perambular pela Andradas, comendo às custas de esmolas da classe-média formada por idiotas porto-alegrenses? Sabe o que é implorar por uma moedinha dessa gente asquerosa? Não, tu não sabe. Tu é um deles. Deve ter até adesivo do nosso estado na traseira do teu carro. Aposto que tu acha que tudo que é nosso é melhor. Como se orgulho estivesse no sangue gaúcho. Como se ter orgulho fosse algo bom. No caso do Rio Grande do Sul, é pior, é delírio esquizofrênico, isso sim.
Nem o “ser gaúcho” está no sangue, somos apenas seres humanos que sofreram o infortúnio de nascer por essas bandas.
Não, este não é o fim da minha história. Quer saber como eu cheguei aqui?
Só depois de muito tempo percebi que tinha um meio ainda não tentado. Por baixo da terra. Como o governo, esse que tu tanto defende, ainda não ofereceu ao cidadão um sistema de metrô, comecei a cavá-lo por conta própria. Um túnel que passaria por baixo desse infame estado até a liberdade. Roubei uma pá de uma construção e cravei-a na terra. Bem no centro de Porto Alegre. Minha obra foi iniciada durante a noite e, somente pela manhã, resolveram me prender e me levar para esse hospício. Pelo menos fiz um estrago na rua. Machuquei Porto Alegre. Mas tu me entende, né, Doutor? Eu não sou tão doido assim. Só queria sair dessa cidade medonha.
Deus tem um senso de humor feroz e cruel. Ele não escreve por linhas tortas, o desgraçado é sarcástico mesmo. Vim parar num lugar com janelas. Daqui posso agonizar até a morte, “admirando” esse inferno. Mas acho que fui uma boa pessoa, Doutor. Quando morrer, São Pedro vai me levar para o Paraíso.
Onde é o Paraíso? O lugar mais longe possível de Porto Alegre.
Antônio Xerxenesky nasceu em Porto Alegre no fim de 84. Publicou um livro de contos chamado Entre (Ed. Movimento/Fumproarte) e outras narrativas curtas em revistas e antologias. Uma delas foi adaptada para a TV por Fernando Mantelli. Em 2008, finalmente lançou seu romance de estréia, Areia nos dentes (Não Editora). Renega a maior parte dos seus escritos, mas por enquanto ainda se orgulha de seu romance.




