Amor Fractus: um querer de infinita complexidade
Raimundo Neto
Eu ainda não estava morto, mas podia sentir um pouco de pó acumular-se nas minhas narinas, construindo um mundo praticamente novo. Também ainda não havia sido enterrado e os olhos de toda aquela família, que não era só minha, não mais, forçavam-me uma morte lenta, barulhenta e ardilosa: decidi pelo fim de minha mulher em meu primeiro romance.
Henriqueta era mulher de muita esperança. Chegava a ser verde. Seu corpo contava pra mim, e pra quem mais quisesse ver, que sua bile estava a vazar, encharcando-a. Aquilo não era amor. Henriqueta estava a transformar-se em algum vegetal de sabor amargo, recheado de uma seiva morta. Se ela algum dia tivesse confirmado que aquilo não eram lágrimas, quando pensava em atirar-se dentro da panela de galinha caipira ao molho, mas, sim, seu prazeroso jeito de realizar fotossíntese, todos teriam se confortado.
O pó que aprendia a habitar meus conteúdos havia nascido não naquela sala. Talvez, e nada mais que isso, aquele acúmulo de seres, humanos, preocupados, com uma raiva crepitando tanto no peito quanto em seus olhos de monstros enigmáticos, aquele acúmulo de gente estava decompondo-se pelo inóspito caminho do ódio e suas justificativas, afinal, desde que, com rigor e arrebato de paixão, resolvi inventar “Historietas para Henriqueta”, nossa vida não mais foi a mesma: Henriqueta, minha esposa e filha-sobrinha-mãe-neta-cunhada-secretária deles, sumiu sem deixar vestígios ou bilhete ou grito de assombro. Fora engolida pelo meu impreciso e parco talento literário. Digo, então, que Henriqueta vive atualmente na página cento e sessenta e dois de um livro que possui quatrocentas e sessenta e cinco páginas, que jamais ocupará pódio algum. Claro que não. “Historietas para Henriqueta” é muito mais que dois Hs na mesma linha curta.
Na verdade, está longe de ser uma grande e descarada mentira: grande volume amalgamado de todas as minhas influências. Uma livre inspiração em Machado, Faulkner, Camus, Rott e Paulo Coelho. Isso mesmo: Paulo Coelho. Como eu escreveria uma passagem em que Henriqueta, possuída pelo espírito de uma piranha amazonense, joga-se no chão de qualquer mercadinho, imitando os caracídeos, fazendo de seus pés que calçam quarenta e dois uma calda coruscante e preparando um bote assustador quando ouve qualquer pessoa gritar para o vendedor “Se for piranha fresca, eu como de quatro!”, como eu escreveria tal belezura se o mestre, dos Magos, Coelho, não morasse nos desvãos abastecidos de bom gosto de meu interior com sua profundidade deflorada, seus feitiços opalescentes e seu sorriso alquímico?
Pela manhã, Henriqueta sentia um deserto caminhar em seu coração, percorrendo suas ruelas, intensificando suas miudezas, soterrando em quilos e quilos de areia grossa e invencível sua intimidade. Comia pão movendo a boca em diversas direções. Assustava-me suas contorções labiais e maxilares. Se cedo tivesse sido descoberta por algum circo de quinta, Henriqueta teria partido.
Voltemos aos dedos em riste, aos familiares de Henriqueta transformando-se em cinzas e à minha condenação. Melhor: antes do sumiço de Henriqueta, que para mim foi um achado, posto que minha magérrima e imprevisível esposa transformou-se, a pedido, numa anti-heroína macunaímica antes da metade do livro que termina com orgias esplendorosas, devastações e centenas de mulheres transformando-se em plantações de pequi e mousse de graviola.
Todos na sala vestiam algo parecido com um sentimento arrebatador imensamente oposto ao amor, e que os emprestava um tom sépia. Sempre estiveram insatisfeitos. Não aceitavam que Henriqueta vivesse tão entregue, lavando, passando, cozinhando seu futuro junto à mão de vaca no almoço, dividindo sua esperança amedrontada com um homem como eu. Eudes. Gordo, frustrado, amarelado, de ossos fracos, cardíaco, de um passado carente e um presente de ausências, escritor de diários. Narrador de um cotidiano repleto de mesmices e repetições: odiar do padeiro à empregada de meus pais; guardar rancor e papéis cheios de palavras que nunca dizem o que realmente eu quero dizer; e no final da rotina e começo da próxima, um livro roubado da biblioteca municipal. Quando chega o final do mês, tenho roubada uma média de vinte livros, que têm todas as páginas cinco, quinze e quarenta arrancadas, e todos os sentidos daqueles autores copiados em meu diário, reformulados, com acréscimos pobres e dissimulados, para que, no fim, eu me sinta não tão pequeno, ou mais importante que um post-it cheio de lembretes repetidos como: “NÃO ESQUECER OS SUPOSITÓRIOS. TAMANHO IDEAL: DEDO MÉDIO”.
Quando resolvia abandonar-se, vencer o deserto, incorporar miragens e aceitar sua aspereza, ela apenas não mais comia qualquer coisa. Concentrava-se em sua gastrite incurável. A gastrite, viva, vivíssima, concentrava-se em Henriqueta; e ambas se possuíam; entreolhavam-se, cada qual a seu modo, analisando quem desta vez cederia primeiro, qual delas se entregaria ao sofrimento: a mulher ou a coisa. Todas as aberturas no estômago de Henriqueta deixavam algum significado ali sobreviver. Suas derrotas picaretavam todas as suas paredes, abrindo caminho rumo ao desconhecimento, ao desentendimento. Sua vida interior abria-se em crateras enormes e inflamadas. O tédio as inflamava. Qualquer ato de honestidade consigo ou com o marido a fazia sentir-se condecorada, no entanto, ainda estimulada a render-se aos buracos inglórios de sua vida íntima, e uma vez perdida em qualquer profundeza, só lhe restava a entrega.
Um dia, antes de investir e me concentrar em meus “Era Uma Vez…”, Henriqueta me pediu outra vida. E me abraçou. Seus braços tornaram-se elásticos; com carinho vegetal envolveu-me de uma ternura plástica, mas verdadeira, e implorou, com a intensidade de uma flor de pelúcia, por um futuro. Queria Henriqueta apenas ser possuída por minha flacidez envergonhada em nosso colchão sem suportes, em nosso quarto sem aconchegos?
Não, idiota, Berrou Henriqueta, arremessando-se contra a parede com o intuito de morrer, ou chamar minha atenção. Ou apenas exagerando.
Queria verbos e sentir-se abastecida de minha literatura. Ser penetrada pelas palavras que guardo em minhas poucas gavetas, ter um orgasmo a cada parágrafo. Era isso. Um sentimento primordial. Henriqueta mostrava-se iluminada de literalidade e, se eu começasse logo, inspirasse e expirasse, rezando pela alma vendida de Mister Paulo Coelho, talvez, houvesse magia, e Henriqueta teria outra vida. E eu também. Ela teria sua auto-literatura, eu publicaria um romance autobiográfico. Seria possível?
Henriqueta é do tipo que some quando diz Eu Te Amo. Quando seus pais se aproximavam com aquele ar de quem está prestes a entrar em combustão emocional, ela farejava aquele amor inicial, aquele bem-querer corretíssimo, e, como ainda não dominava com destreza a etiqueta de desaparecer simplesmente, apenas reduzia-se a: um bicho que entrava e saia da via dos outros diminuído, frágil, rapidamente. Era o animal de pelúcia mais aflito de que já se ouvira falar.
Não pretendíamos salvar nossa união. Distantes, teríamos papéis definidos, ou, pelo menos, um de nós seria o criador, o outro, uma criatura escrita e inspirada. Caminhamos separados rumo a poucas constatações; entre nós apenas uma fantasia, o sangue verde correndo pelos conteúdos de Henriqueta e o desejo de sentir-se preenchida por qualquer literatura.
Ver-se, sentir-se ou pensar-se escrita, literalmente, ou aos pedaços, levaria Henriqueta à intensidade de quem colaborou de um modo ou de outro na reprodução de uma obra de arte. Fosse o que fosse. Ela queria ter sua alma presa nas entrelinhas, vendida em sebos ou entre outras almas, As Mais Vendidas. Queria inspirar outras vidas patéticas de esperanças e amores constrangidos, sem nenhum jeito para a conquista da vitória, viciadas em palavras alheias, descrições ardilosas, ambientes estranhos recriados laureamente, cenas fulgurantes. Desejava o toque de outros e outras em seu corpo apenas imaginado, sentir o prazer merecido de ter sua pele lida e soletrada entre dentes e às gargalhadas por leitores e leitoras comuns e sagrados. Como queria ser orientada pelo poder e talento do marido, cujo conforto reside nas próprias gavetas, com a juventude trancafiada com as tentativas de plágio e todas as reinvenções.
Aconteceu que Henriqueta abriu-se inteira e contou-me suas imundices. Derramou sua libido semi-analfabeta e pediu introduções. Cuspiu em mim suas obediências de infância, sua compenetração injustificada quando se dizia diferente. Estalava os dedos com uma força desnecessária, encarava os dedos dos pés numa entrega confiante, civilizada até, e ia mais fundo, mais fundo. Tanta verdade dita em vinte minutos que sua respiração começou a exigir mais da minha. Com olhos graves ela descobriu que o chão era um limite, e ela poderia escolher não mais lambuzar-se indignamente de subterrâneos.
Ainda na infância, seus interesses não comungando com os dos pais, e não alcançada a energia inexplicável necessária para sumir quando fosse ameaçada por algum tipo de profundidade sentimental, alguma faísca de amor, Henriqueta contentava-se em transmutar-se em bichos de pelúcia e copos de limonada. No entanto, viu-se forçada a desistir de tais ausências quando seus avós, pais de sua mãe, morreram ao se depararem, em menos de uma hora, com um espantalho de pelúcia com um guincho feroz estampado em suas faces aveludadas e, em seguida, não podendo conter o nervosismo, dividiram uma jarra de limonada envenenada de muito açúcar; e sem delícia algum caíram terminados e encolhidos, invadidos por moléstias que os uniam mais que o casamento e as rugas: diabetes e o medo de homens de palha.
A mãe de Henriqueta clamava por justiça; nossos filhos acusavam-me de: 1) plágio, 2) assassinato, 3) colecionador de supositórios; e seu pai derramava-se arfando na poltrona, pois “quem prepararia a sopa de maxixe?” Construíam um equipamento aterrorizante de vingança contra mim através de sua cólera insistente e crítica: queimariam todos os meus livros, página por página, se eu não revelasse em que livro havia guardado Henriqueta. Sim, porque aquela mulher, na página cento e sessenta e dois do “Historietas para Henriqueta”, dominadora, desonesta, notívaga, incompreensível, habitante depravada de uma vila nos arredores bucólicos de uma cidade chamada Putchara, que transforma-se numa gorila arruaceira quando transa com algum homem – Henriqueta teria o tamanho e a realidade peluda e feroz de um King Kong se eu tivesse acatado suas sugestões de transformá-la numa puta insaciável — não era a Henriqueta deles.
Foi bem assim: trancamo-nos no quarto que acolhia envelhecido meus livros roubados e carentes de páginas cinco, quinze e quarenta. Nossos olhos começaram a freqüentar profundidades, indo e vindo, buscando silêncios e alguma dor. Algo que fosse mesmo simpaticamente intolerável. Que nos fizesse refletir, e elevasse Henriqueta ao patamar de personagem, me submetendo aos sacrifícios de um escritor.
Mas nunca fui um escritor. Nem bom leitor. Apenas um gatuno comandado por compulsões. Talvez. Na escola fui dilacerado por vírgulas, penetrado por exclamações e reduzido a pontos-finais. Eu era meu próprio limite. E como poderia eu revelar à minha esposa minha inaptidão? Vê-la derreter-se sob minhas afirmações chuviscadas faria de mim muito pior que um mau escritor. Eu estaria abaixo de quem?
Henriqueta, então, optou por desistir de seu dom e aceitar o amor que lhe entregassem.
Uma mulher como ela, sempre com um exagero em seu centro, capaz de transformar-se nos temores alheios, poderia, sim, doar-se a alguém. O primeiro que aparecesse. Que sumisse num passe de magia e reaparecesse já dentro dela, na mesma forma e medida. Foi assim: Henriqueta esperou seu coração bater pela 30.361ª vez e arriscou o primeiro passo naquela madrugada. Dentro dela era sempre madrugada. Julgou que aquela escuridão típica, guardada do céu da boca às panturrilhas secas, deveria encontrar-se com o mundo habitado por homens e mulheres capazes de amá-la. Segurou firme no trinco do portão. Como um tornado-fêmea inspirou o ar das redondezas, tudinho, pequenos insetos, o verde dormido dos arbustos, o tungstênio e brilho das luzes, a fumaça animada do cigarro do homem que dormia na praça, a alguns passos de Henriqueta. Guardadas as partes que importavam, Henriqueta investiu rumo à rua. Atrás dela a casa, os pais, os remédios, maquiagem, uma geladeira entulhada de limonada de verdade e mousse de graviola. À frente, o amor.
A fantasia de Henriqueta era tão espirituosa, envolvente, que eu quis acreditar, mesmo perplexo e tendo diversos receios reservando cadeira cativa no show de meu interior. Peguei o lápis de sempre e, como nunca, dei-me a plagiar Meus Preferidos.
O mundo tornou-se outro quando escrevi a primeira linha.
Henriqueta era japonesa de cabelo crespo. Facilmente tragável pelas barbaridades cotidianas, ônibus lotado, amigos conversivos, amantes hipocondríacos, anões superdotados, supositórios vibradores, Henriqueta mordia a língua para evitar seu desespero. Ouvia dentro de si outras milhões de mulheres complexas e histéricas bradando por polidez, ou por um homem que as salvasse ao invés de simplesmente comê-las.
Eudes estava, talvez, no seu primeiro batimento cardíaco de meses. Sempre foi lento para ir adiante. Saiu para fumar um cigarro um pouco bêbado de uma mistura assassina. Não tirou o pijama enfeitado de estrelinhas azuis aparentemente obcecadas por algo que esbugalhava seus olhos animados. Parou na calçada, sem firmeza. E prostrou-se. Quando percebeu que a fumaça do cigarro fugia rapidamente para a esquerda, em direção à praça central. Seguia uniforme, dentro das possibilidades de uma fumaça. O que ele poderia fazer se não seguí-la? Era assim nos desenhos animados. E ele adorava desenhos animados. Eudes poderia ser um desenho animado; mais desenho que animado; ou uma composição fractal, infinitamente complexo, à espera de semelhantes.
Abriu seu diário. Antes, desorganizou todos os livros que se comportavam na estante. Fez do quarto seu segundo caos. O primeiro era o cabelo. Rasgou suas admirações e cuspiu em seus exemplos. Queria ser melhor. E sabendo escrever em cursiva, enformou suas letras em tinta preta e arriscou apenas um PUTAQUEPARIU. E jogou-se nas profundezas de sua ignorância; sua falta de tudo e nada a fazia sentir-se sem… Intimidade? Sem passado? Perspectiva? Descendência? Piedade? Neurônios?
O mundo parecia está sendo tragado por uma força obscura.
Eudes deparou-se assustado com a moça que morava em frente à praça. Magra, sem formas e de todas as cores, concentrando os objetos tragados ao redor de si. Ficaram cara a cara. Irradiando algum sentimento. E Eudes caiu a seus pés. Bêbado. Pensou, entorpecido, ter encontrado sua pintura fovista ideal.
Quando acordou, havia um copo de limonada na mesinha ao lado de sua cama e uma boneca inflável de pelúcia com uma frase impressa em inglês que podia significar: 1) Fovista é o caralho!”, 2) “Introduza aqui!”, 3) “Diga tudo, menos Eu Te Amo!”;
HENRIQUETA VIVEU ATÉ A PÁGINA CENTO E SESSENTA E DOIS. E AINDA PERSONAGEM, SEM CERTEZAS SOBRE QUE TIPO DE VOZ NARRAVA SEU DESCONCERTO, OPTOU POR TRANSFORMAR-SE EM UMA MANCHA DE ESPELHO.
Pelas bordas, um contorno, uma incerteza concentrada, e sempre, sempre impedindo alguém de enxergar sua realidade por inteiro.




