A estreia


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Andreia Areias

Estava quase a conseguir. Os dedos, esguios, finos e alvos, já se moviam com desenvoltura sobre as teclas do piano pardacento, todos faziam mira ao piano preto e elegante e à música que dele brotava como se fosse uma fonte, e ela a fizesse nascer e renascer. Podia sentir todos os olhares, cravados na sua nuca, ou nas suas mãos, ou em si. Estava a ser invadida. Mas tinha de continuar, o mestre assim o aconselhara, a mãe assim o mandara, e o pai nada dissera, mas o seu olhar severo e rígido foi o menos indulgente de todos, quase ditatorial aquela expressão. Engraçado, como a mãe não parava de palrar durante um segundo, sobre os modos a ter durante a actuação, que aquela seria a sua prova que iria mostrar a todos que sabia tocar piano como ninguém, que até, porventura, algum rapaz de boas famílias a achasse digna de ser a sua esposa. Estava em jogo a sua vida, e o futuro. Era como se todo o destino da humanidade dependesse da sua actuação no anfiteatro mais pomposo e rococó do país, que a enjoava profundamente com as suas florinhas a cobrirem tudo e todos, até podia ver no lugar das caras das pessoas essas flores sem graça nem cheiro.

Mas lá estava ela, a tocar a peça da sua autoria, simples, mas com toques inovadores, sublime e calma, como uma canção de embalar. Tal como era esperado duma dama da sua classe. O espartilho magoava-a quando se inclinava para poder tocar, apertava-a, esmagava-a. Como era estúpido aquele trapo que a limitava. Simultaneamente, enquanto estes pensamentos percorriam a sua mente velozes, ela ostentava um sorriso, ou pelo menos tentava, ao público, enquanto tocava.

Lá na plateia, conseguia perscrutar os rostos ávidos do mestre e da mãe, e o sempre rosto sério do pai. Ainda não tinha chegado a meio, mas sentia um torpor a percorrer-lhe o corpo. Estava farta daquele lugar, daquelas pessoas sorrisos hipócritas, abanando ostensivamente leques enramados, com mais flores!, e passando a mão sapuda e gorda à frente da boca para bisbilhotar com o vizinho do lado.

Viu passar uma mulher nos bastidores. Era vulgar. Corpo trigueiro, cabelos negros como azeviche, roupa bastante simples e modesta composta por uma saia e uma blusa verdes, e nada de espartilhos. Levava uma cesta de maçãs vermelhas, luzidias e, aparentemente, deliciosas nos braços. Devia ser uma empregada de um senhor rico, velho, com a pele encarquilhada, que provavelmente teria de pagar uma boa soma de dinheiro para poder ter uma mulher ao seu lado na cama. Que visão mais estranha, aquela mulher ali, a passar na parte lateral dos bastidores, onde só ela a podia ver.

Invejou-a. Por não usar espartilho, pelo seu corpo solto, e natural envolto nos tecidos verdes já um pouco gastos, pelo seu cabelo enorme negro, pelas maçãs que transportava, pelos pés confortavelmente calços numas sandálias castanhas.

Invejou-a. Ela que era bela, tinha a pele branca e alva, os cabelos castanhos da cor das folhas perenes de Outono, e os olhos da mesma cor. Ela que tocava num anfiteatro. Num dos mais importantes. Ela que sabia tocar piano, e a mulher, provavelmente, o seu melhor ofício seria fazer um belo queijo de vaca, pelo que ia tirar-lhe o leite pela manhã, quando as gotas de orvalho pendem nas plantas verdejantes.

Invejou-a. E depois? Gostaria de não ter mais preocupação nenhuma que levar um cesto de maçãs escarlates nas mãos, e fazer queijos.

Aproximava-se uma parte crucial na peça, era a mais difícil. Errou uma nota, mas ninguém para além do seu mestre notou o pequeno deslize. Conseguiu ver a sua expressão aterrorizada e desaprovadora. Um misto de medo e repreensão bailava nos seus olhos, como que a ordenar-lhe que tocasse tudo bem.

Continuou a tocar bem, só que com mais intensidade. O olhar mantinha-se. E mais alguns se juntaram, as pessoas começaram a agitar-se pela demasiada importância que a música estava a ganhar. Afinal, estavam ali só para se divertir um pouco. As suas mãos percorriam freneticamente o teclado, obtendo notas ao acaso, e um horrível som, cada vez mais intenso. Sentiu que fazia música, como nunca antes o tinha feito. Soltou uma gargalhada descomunal, que ecoou por todo o anfiteatro, e ressaltou nas flores foleiras presas nas paredes, nos vestidos, até nos chapéus, em tudo.

Feito isto, levantou-se, fez uma vénia e saiu. Antes, deu uma mirada rápida pelo público, estavam todos pasmos, a boca aberta de indignação ou seria de espanto? Não interessava, tinha de sair dali. Queria encontrar a mulher. Queria saber como era ser ela. Mesmo que depois descobrisse que afinal a prostituta do velho impotente era ela, ou mesmo que nada passara de uma ilusão provocada pelo cérebro sem oxigénio, por estrangulação do espartilho. Iria tentá-lo. E foi.

A mãe e o mestre, em conjunto com todos ficaram consternados com tal saída. Foram procurá-la. O pai permaneceu impavidamente sentado.

Andreia Areias é portuguesa e vive nos Açores, terras de basalto e hortênsias. Nasceu no ano de 1990 e, neste momento, tem dezoito anos. Ainda precoce, é certo, mas tem em si uma motivação para escrever, ainda que não de forma adequada. Frequenta a escola e irá ingressar no ensino superior este ano. É aluna de Ciências, mas sempre se interessou pela literatura e pela escrita, pelo que lê regularmente e escreve há cerca de um ano, publicando esses escritos em seu blog.

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