Sem dimensões


A+  A-  C  F   P

Renata Miloni

Poderia, primeiramente, desejar um fim. Que acabasse com tudo isso, que fosse embora o que aperta. O delicado pulso já não agüenta mais ser segurado com tamanha força. A paz, por Deus, a paz que outrora tomava o corpo, e somente, não se sustentou a caminho da alma, do espírito, de algum lugar no poço da carne. Sustentar. Eu mesma não me sustento em pé, não me suporto deitada, não me firmo voando. Agora, luto para desejar um fim. Que cortem a delicadeza do pulso que dói, que me tranquem no ar, que pulem por cima de mim e me deixem cair do outro lado. Livrem-me do direito de querer. Meus desejos sempre foram grandes como um pesadelo. Meus anseios, minhas vergonhas. É tudo o que tenho. Se ao menos o conforto houvesse me deixado, mas não.

É como uma mão de aço disfarçada de madeira, me enganando com perfume. Suportados por espinhos, meus pés caminham gravemente. Se ao menos me aceitasse e desse um porquê para ficar. Há muita permanência em cada lado. E em cada degrau há um nó. Se não desatar cada um deles, deixará de ter sentido. Mas aquele fim se deve aos nós, eu preciso deles aqui, pois não vivo sem algo que me prenda e não encontro o fim se me desprender.

Depois que tivesse a certeza do caminho, poderia sorrir aos que passassem, confirmando minha vitória e sua derrota. Como quem nunca houvesse desprezado alguém e visse beleza. Pegar os lenços, cercar, correr em volta e gargalhar de puro gosto, vitoriosa, dançando com um vestido vermelho, vinho e rosa claro, ao vento, cheio de babados, cabelos soltos e leves. Tudo para aumentar o desprezo. Porque a paz do fim é humilhante para quem não sabe como chegar até ela. E pela humilhação ser tão intensa, não se percebe minha fraqueza e eu venço, sim!, venço de novo porque não canso do que conheço e não sabia que tinha. O inatingível é logo ali.

Almas indefinidas vêm ao meu encontro, em minha escada, e começam a tropeçar nos nós como se fossem antigos, como se fossem delas. Elas vêm e são muitas. São tantas que perco o controle dos degraus e sou empurrada, levada. Para ficar, me jogo. Mergulho no chão que sobe e é reto. E faço um buraco naquela multidão de indefinição. Vejo que algumas seguram facas e pulsos, os pulsos nas facas, não enxergo direito. E agora eu sei que, sim, me livraram do direito de querer. Agora, eu não sei se consigo querer. Pensava que estaria e seria tudo sozinha. Que a solidão permaneceria. Não quero que queiram meus nós, que desejem o fim daquela delicadeza da fraqueza dos pulsos. Talvez, eu queira apenas que me soltem. E, então, quando levanto e olho ao redor, não vejo mais nada. Tudo volta como antes era. Trancaram-me no ar. É uma passagem programada.

Mas não luto contra nada. O que eu quero é somente a favor de mim e da vida que acabei criando. Quase que me desarmo do que posso ferir com. E não me dizem o que é. Não sei se é fogo, se é vento, não sei se é uma palavra — parecida com as que, em todo esse desatar, minha mente inventou.

Elas foram embora e me deixaram tudo. Havia o lado, os nós, a escada, a reta, os pulsos. Hão. Será que acabou? E o fim é assim? Estou presa ou pendurada no nada, grito e me jogo por medo da coragem. Tenho asas de beija-flor. Mas o fim me dá direito a elas? Será que agora me entrego ao não-fim, me engano? Minha parte humana tenta ser solidária. Quero o pior por isso.

Quero perder o norte, me guiar sem orientação, perder a bússola para uma abelha. Quero seguir o fim, entrar nele e sê-lo, se preciso, para tê-lo. E que me deixem fora de meus olhos para cegar o que de mim perco.

Torno-me tão fugaz que, em certos intervalos involuntários, acabo preferindo que apenas desabe. Não que chegue o abismo, mas que faça um recomeço obrigatório, pois se não conseguir o fim, sonharei o pior para o meu mundo. Porque quis.

Na verdade, se me saboto ou elucido a verdade, eu não sei. Mas chegar a ele desprezando o pouco caso da vida, implicando a favor do sim para que acabe logo, simplesmente me realiza e transcende. É o fim que quero. Estou cansada da beleza do que sempre tentaram dizer ser vida. Quero mesmo andar em espinhos e por eles. Não me despeço de nada, me deixando cair quando pulam por cima de mim. Os nós também existem nos pulsos.

Renata Miloni é revisora e preparadora de textos. Escreve quinzenalmente para a seção Palavra do Le Monde Diplomatique Brasil e participou como jurada da primeira Copa de Literatura Brasileira. É editora e colunista da Revista Malagueta e também escreve em seu blog.

A+  A-  C  F   P   T




Comente





Antes de comentar, leia atentamente as regras de uso do site.

Fechar
Envie por e-mail