Quantum
Bárbara Petri
Era o retorno. Sentia que sua memória ainda funcionava quando acertava, sem olhar para o mapa, o local onde deveria entrar ou virar à direita. O carro empoeirado trazia mais histórias em suas rodas do que a quilometragem apontava, o mesmo poderia dizer sobre si. Como seria chegar? Por que sentia que nunca retornaria ao seu ponto de partida? Placas o avisavam da proximidade de um bar e pensava se deveria parar estando tão perto de ter respostas às suas perguntas. Não sabia o motivo que o fazia adiar, mas parou o carro no estacionamento e ao tirar os óculos escuros notou que já estivera ali alguns outonos atrás. Sim, essa era uma mudança definitiva: não contava o tempo. Não mais. “Não se deve contar ilusões”, ele argumentaria se não estivesse com tanta fome.
O bar estava mais para um cenário de filme sobre invasões alienígenas do que para a bucólica lembrança do seu último almoço na estrada. Pessoas que só existiriam na imaginação de Stan Lee circulavam entre as mesas azuis, com enfeites de neon e copos de água pela metade. Sentou diante do balcão e pediu à atendente que lhe desse o que de engarrafado ela tivesse. Cerveja? Não, estava dirigindo. Aprendera a ser cuidadoso após atropelar um cervo e passar um mês prestando serviços comunitários numa cidade perdida entre as montanhas do norte. Bela cidade, é verdade. Belas mulheres, homens armados. Dera sorte de escapar dali sem nenhum furo no traseiro. Viver perigosamente dava um pouco de trabalho. Engoliu sem muita certeza toda a estranha bebida colorida que lhe serviram e pra comer, algo que só identificaria quando o estômago avisasse estar estragado ou não.
De volta à estrada, achou que seria interessante virar para a esquerda dessa vez e se enfiou em um caminho de terra tão empoeirado que mal conseguia enxergar as curvas se aproximarem. Como última surpresa, um vilarejo encravado no meio do nada o aguardava. Adorava pensar em si mesmo como o primeiro desbravador daquele país revirado ao avesso. E pensava no que ainda sentia pelas pessoas que havia deixado anos antes. Imaginava se os seus amigos haviam casado, filhos nascidos, o que teria mudado em suas relações… Seus pensamentos relutavam em aceitar que já não se encontravam para beber e rir das próprias desgraças. Haveria alguém para recebê-lo ou seria um turista em seu antigo universo?
O vilarejo era formado por não mais do que 10 quarteirões e sua curiosidade sobre os moradores não era menor que a despertada por ele ao passar lentamente com seu carro entre as ruas de pedra. Mulheres pendurando roupa, crianças em seus uniformes voltando da escola, alguns homens conversando em frente ao que ele apelidara de faroeste-lunch, uma mistura de restaurante com um pub das estórias de faroeste que ele costumava ler quando era moleque. Mais a frente, uma casa que o faria parar. Muitas vezes durante a viagem havia sonhado com aquela casa. A cerca de heras, o caminho de calêndulas levando do portão aos degraus que antecipavam a varanda, a árvore de flores com duas cores, os pés de lavanda, os dois cães dormindo sob a escada. Começava a achar que havia algo comprometedor no lanche que comera momentos atrás, estava delirando, obviamente. Estacionou o carro e foi passo a passo aproximando-se da entrada, sem saber se tocaria a campainha ou se sairia correndo assim que alguém abrisse a porta. Ficou alguns minutos parado decidindo o que fazer, divagando sobre quem viveria ali, se estariam dispostos a vender aquela casa pela qual ele se apaixonara ainda no primeiro sonho.
A voz que veio da parte de trás da casa era de uma afetuosidade a qual ele desacostumara depois de ser um estranho em todos os cantos por onde passara. Foi convidado para entrar e, sem ponderar se aquele era um convite de uma doce psicopata que o comeria vivo no jantar, caminhou confortavelmente até o quintal. Tudo lhe era familiar. Nem mesmo os imensos cães que o acompanhavam lhe provocavam medo. No meio de um herbanário, estava a dona da voz. Ela era pequena, olhos vivos, grandes e castanhos, como as tempestades que enfrentara ao viajar pelo sudeste do país. Sua pele clara contrastava perfeitamente com o tom escuro dos cabelos desarrumados pelo vento e não conseguia distinguir o que sentia quando a via sorrir como se o conhecesse desde sempre.
“Seja bem vindo!”, ele jurava ter ouvido essas palavras saírem da sua boca avermelhada. Pegando-o pela mão, ela o conduziu até a porta da cozinha, onde tudo era exatamente como havia sonhado. “Seus livros sentiram saudades de você… assim como eu.”, estava prestes a cometer uma loucura e carregá-la no colo, jogando-a contra a parede para beijar os lábios daquela maluca que o recebia como se o esperasse. Seu peito arfava como se acabasse de despertar para a vida real, mas seus pensamentos, mestres em tudo quadricular, o sacudiam para o absurdo daquela situação. “Ela é louca e eu sou um otário se não correr daqui.”, sua mente gritava. Mas tudo era tão seu! As coisas estavam disposta da maneira como ele teria arrumado, os aromas que povoavam a casa eram aqueles que ele escolheria, os discos eram de suas músicas preferidas, até os doces que estavam dispostos na pequena estante de madeira clara eram os seus preferidos! E o que era aquele sentimento que ela conseguia despertar nele? O que era aquela vontade irresistível de tê-la no colo? “Clara”, ela dissera. “Clara Lua”, ele pensara. Como ele sabia o nome de alguém que nunca vira antes? Estava cansado demais para tentar responder àquelas perguntas e sem pedir ajuda para encontrar o caminho, foi até o quarto e deitou, precisava dormir antes que acordasse outra vez.
Bárbara Petri, 27 anos. Integrante-moderadora de um conjunto com 29 personalidades, já foi de números, hoje é de Lua. Pensa escrever, enquanto ocupa as iniciais V.B. e devora quilos de Chambinho. Tem mania de erguer a sobrancelha direita, é viciada em música e acredita ser uma X-Men. Escreve em seu blog.




