O “gozar sem entraves” e a tragédia egoísta


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João Barreto

Referência obrigatória para ler esta coluna é saber que em maio de 2008 completam-se 40 anos dos acontecimentos que tiveram lugar na França de 1968.

Uma das questões mais interessantes de nosso tempo talvez seja: por que será que a geração que mais desejou mudar radicalmente a qualidade do mundo é a mesma que dirige o mundo mais desumanizado, consumista e individualista do qual já se teve notícia? O Gilberto Gil, que canta com os Mutantes em sessenta e poucos, é a antítese do ministro da Cultura. O Cohn-Bendit, que ontem foi expulso da França por subversão e incitamento à desordem, é o arquinimigo do Cohn-Bendit que hoje é um deputado dos mais bem comportados (lembraste do Fernando Gabeira?). O Caetano Veloso dos sacos de lixo coloridos em sessenta e tantos é a antítese do Caetano-que-canta-para-os-baixinhos-da-Xuxa.

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No nosso século XXI, há ecos, mesmo que assombrosos, de 68. O é proibido proibir dos muros franceses, um manifesto inquestionável de liberdade, contém em si um equívoco contingente. A liberdade que o slogan insinua jamais compareceu verdadeiramente diante de nós. Liberdade não é sinônimo de ausência de proibição — essa síntese 68 não foi capaz de compreender. Pois saibam que eu quero saber é das proibições. Quero que o indivíduo seja proibido de, em prol do seu prazer particular, infligir sofrimento ao coletivo; e quero porque o não-proibir francês está na gênese da nossa época, que é a época do maior egoísmo social de todos os tempos. O Gerson (do “eu gosto de levar vantagem em tudo”) nasceu nos anos sessenta! Quero obter o máximo de prazer que puder, e o resto que se defenestre — esse é o jovem gente boa quarenta anos depois. Será coincidência que um outro slogan do 68 francês tenha sido justamente gozar sem entraves?

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Se o famoso maio francês foi a apoteose do desejo (desejava-se imaginação no poder, desejava-se correr do velho mundo o mais depressa), a conversão desse desejo mais puro e abstrato em orientação “prática” — outra inovação daquela transviada juventude — coincide com o nosso pós-modernismo de cada dia. Nele, o discurso está, sempre e cada vez mais, deslocado da dimensão concreta. Tenta-se fazer do discurso um significante puro de si mesmo. O desejo é invocado e seu invocador o pretende meio e fim de si próprio. Essa auto-suficiência do desejo, esse prescindir-do-grupo para ter acesso ao prazer é cada vez mais presente na era do pós-pós-tudo pós-68. Só o que há é o indivíduo com seu discurso, sua subjetividade indiscutível, suprema.

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Utiliza-se de expedientes conceitualistas (o não-artista fazendo não-arte em galerias de arte é um dos mais comuns) e fragmentados para camuflar ausência de conteúdo, de propostas, de debate. O não-discurso é precisamente o discurso mais repetido da contemporaneidade. O Tudo é relativo tornou-se absolutista, na medida que não permite relativização alguma sobre ser tudo relativo.

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Disse-nos[1] Affonso Romano de Sant’Anna: “Com efeito, se olharmos a história da arte e do pensamento do século XX teremos, de certa forma, uma lúgubre imagem. Aí se falou exaustivamente da ‘morte da arte’, da ‘morte da poesia’, da ‘morte do romance’, da ‘morte do homem’, da ‘morte do sujeito’, da ‘morte da história’, da ‘morte de Deus’. Enfim, essa seqüência de mortes nos convence que o século XX é um cemitério, um vasto cemitério.” Exumem-no, então. Exumem-no! Há de ter uma explicação sobre por que a geração mais feliz e irreverente que já houve nos legou somente essa melancolia, esse suspiro, esse desencanto, essa obediência ao caos.

Referência

[1] 4x Brasil: Itinerários da cultura brasileira. Organização de Gunter Axt e Fernando Schuler, ed. Artes e Ofícios (Brasil), 2005.

João Barreto é jovem, é confuso e é de Porto Alegre. Às vezes é inconstante — mas nem sempre. Mantém um blog chamado Vejo tudo e não morro. Com doze anos assistiu Sociedade dos Poetas Mortos e ficou maravilhado. Hoje já não acha mais grande coisa.

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6 comentários  


  1. [...] se diz aqui nos pagos — tá tri boa a edição #9! O único defeito da Renata é me destinar uma coluna. Mas um dia ela aprende . E não deixe de ler essa revista que anda cada vez mais luso-brasileira. [...]

  2. Se o famoso maio francês foi a apoteose do desejo (desejava-se imaginação no poder, desejava-se correr do velho mundo o mais depressa), a conversão desse desejo mais puro e abstrato em orientação “prática” — outra inovação daquela transviada juventude — coincide com o nosso pós-modernismo de cada dia.

    Tá aí um trecho que daria uma bela discussão (se eu tivesse mais “bagagem” na área, como dizem).

    Renata Miloni - 20/06/08
  3. Penso no “Maio de 68″ como um dos acontecimentos que marca o nascimento da pós-modernidade. Foucault, Deleuze, Guatarri, intelectuais que focam o estudo da mente, da subjetividade, apropriados por intelectuais que dizem, a grosso modo, que cada indivíduo faz a sua realidade.

    Penso, ainda, que a pós-modernidade foi gerada entre a década de 20 e 50, com os estudos de Wilhelm Reich, Hanna Arendt, intelectuais da escola de Frankfurt, entre outros, que foram apropriados pelos intelectuais de então para dizerem as bobagens que dizem.

    O Tudo é relativo tornou-se absolutista, na medida que não permite relativização alguma sobre ser tudo relativo.” Concordo plenamente, e resume muito bem a intelectualidade pós-moderna. São intolerantes no discurso a favor da tolerância.

    Rodrigo Santiago - 24/06/08
  4. [...] uma certa implicância, digamos, com os pós-modernistas. (Talvez perceba-se melhor isso lendo minha última coluna puclicada lá na Malagueta.) Esse pós-pós-tudo não pagam imposto para cometer ridicularidades. A [...]

  5. (shame on me, só hoje vim ler o texto)

    João, até entendo de certa forma o que vc quer dizer, mas eu não sei bem com o quê concordo ou não…

    Por exemplo, a proibição de certas coisas por uma liberdade de fato não pode acabar resultando em outras proibições “politicamente corretas”, que vão desencadeando em outras, e outras, até que voltemos ao nosso Estado?

    A questão do discurso foi a que mais me indagou… como é possível que o discurso de 68 seja a fonte da imaginação fértil da política? A parte do “tudo é relativo” até faz sentido pra mim, pois estou cansado da cautela que essa frase leva às pessoas.

    Já ouvi várias críticas sobre a liberação das drogas na época, entre outras coisas, mas isso agora é novidade. Não faço aqui uma crítica negativa, não, é que estou mesmo curioso sobre tudo o que vc disse. Porque, no fundo, eu percebo que faz algum sentido… mas não sei encontrar qual. Ajud’aê! Tem alguma indicação de leitura, ou whatever?

    abs,

    Pablo Pamplona - 09/07/08
  6. Pablo, saludos!

    Creio que sou “tão perdido” quanto tu nesse debate sobre a relação entre os acontecimentos de 68 e a gênese dessa época que nos é contemporânea. Vou só te contar sobre algumas reflexões que fiz/faço, mas tu vais ver que elas não ajudam muito, hehe.

    A questão proibição VS. liberdade remete, na verdade, a uma discussão chamada de “paradoxo da liberdade VS. igualdade” — uma discussão bem antiga. Trata-se do seguinte: para sermos todos realmente iguais em matéria de “direitos”, têm-se, necessariamente, de restringir um pouco a liberdade de todos, pois eu tenho de ser impedido de “levar vantagem” sobre o outro. E o contrário também se dá. Para sermos radicalmente livres, ninguém pode impedir que, no exercício de meu livre-arbítrio, eu “atropele” a vontade de outro. A solução?? Não sei. Essa discussão se arrasta ao longo dos séculos; inclusive, já foi pano de fundo dos embates entre liberais e comunistas.

    Esse paradoxo é uma dimensão do que escrevi porque enxergo, no tempo presente, um enorme egoísmo social (altos níveis de agressividade e competitividade intra-individual); e esse egoísmo contrasta radicalmente com o discurso libertário da geração 68. E essa geração 68 está gênese da contemporaneidade — são os nossos pais! Foi esse o caminho que tentei seguir no texto. Não sou contra a revolução sexual ou o novo tratamento às drogas, “frutos” do 68 — muito pelo contrário. O que tento (sem sucesso até agora) é compreender a relação desses acontecimentos com os valores sócio-culturais que hoje são dominantes.

    Sobre leituras: li várias coisas ao longo do tempo que estão implícitas, de uma forma ou de outra, no que escrevi. Além do ensaio do Affonso Romano de Sant’Anna citado, recomendaria:

    * 1968 o ano das muitas primaveras
    Robert Ponge (organizador)
    Porto Alegre: UE, 1998.

    * As ilusões do pós-modernismo
    Terry Eagleton
    Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2002.

    * Depois da teoria : um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo
    Terry Eagleton
    Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

    * Condição pós-moderna : uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural
    David Harvey
    São Paulo: Loyola, 2006.

    * Utopias e distopias: 30 anos do maio de 68
    Vários autores
    Santa Maria: Editora da UFSM, 1998.

    Não concordo com tudo o que dizem esses autores. Por vezes, até discordo frontalmente. Mas são leituras que ajudam a refletir sobre o que essa engronha pós-pós-pós de que é moda falar nos “meios intelectuais”. ;-)

    Abraços!!

    João Barreto - 11/07/08


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