Num piscar de olhos
Marco A. Domingues
Tempo. Um piscar de olhos, uma fração de segundos e nada mais está como antes, nenhuma partícula elementar permanece como estava. Tudo muda o tempo todo e, mesmo que às vezes não consigamos perceber, é exatamente isso que faz a vida, uma seqüência sutil de estados que se conectam de forma imperceptível uns nos outros.
Essa é a ilusão fundamental, o abandono da sensação da totalidade de uma de nossas dimensões em favor da ilusão de movimento, uma linha em um novelo em que cada ponto de sua extensão pudesse se perceber, um após o outro, de uma ponta à outra.
Imagine que, de repente, você não sente sua altura, que cada secção bidimensional sua ganhasse consciência de si e vivesse cada fração de milímetro por vez, da ponta de seu cabelo até a sola de seu pé, nascimento e morte criando a figura humana da forma que nos percebemos.
Para sentirmos algo, para vivermos, abandonamos a totalidade da dimensão em que somos mais extensos para viver em um eterno corte tridimensional. Esta fatia se percebe humana, pontualmente, sempre guardando pequenas informações de seu estado anterior, vivendo em um passado reconstruído no presente, uma forma de reconstruir de forma imperfeita a linha, nossa memória, retendo o que pode como estavam as fibras no momento anterior, tentando se fazer novamente instante após instante. E nós ainda vamos mais longe, aprendemos a gravar as coisas, estendendo nossos registros para fora de nosso corpo, e podemos movimentar fibras imaginárias e criar estados que nunca ocorreram, e registrar em desenhos, pinturas, palavras, em arte.
O filme não faz sentido quando olhamos para o rolo: o sentido vem quando olhamos, uma a um, os pequenos instantes que foram cuidadosamente alinhados para nos iludir.
Mas não é o que impressiona as pessoas quando falo sobre isso, o que vem não é espanto ou maravilha. As pessoas se chocam e argumentam sobre o paradeiro do livre arbítrio nesta teoria, outros ficam felizes, pois vêem aí uma possibilidade de encontrar uma prova para o destino, acreditando que sempre estivemos aqui enrolados nesse rolo de filme, e, a não ser que algum editor cósmico mude a forma como tudo está entrelaçado, no final das contas, a projeção é sempre a mesma. Apesar de se mover, tudo é estático e imóvel ali dentro do rolo, uma soma das trajetórias e estados passados e futuros, uma trama onde estariam tecidos cada momento de nossas vidas, bons ou ruins para sempre, um maravilhoso hiperlivro, no qual se lê uma quantidade assombrosa de coisas ao mesmo tempo, acontecimentos cuidadosamente registrados e que, no fim, através de nossa memória, de nossa ciência, arte ou religião, pode ser lido, entendido e interpretado de uma forma diferente cada vez que se olha para ele. E se houvesse algo lá fora que pudesse lê-lo, pudesse passar seus olhos por cada instante que vivemos, nunca morrreríamos ou deixaríamos de existir e o livro se fecha. Na verdade, nada estaria acabado, estaríamos apenas guardados, talvez entre outros tantos volumes, esperando o momento que a leitura recomece, e que o livro seja bom e que a leitura valha a pena…
Marco A. Domingues mora atualmente em Campinas. Passou quase uma década tentando entender a produção humana através do que chamou de livre discência, estudando Química, Física, Matemática, Filosofia, Lingüística e Letras, se formando no último. É principalmente um leitor, mas se arrisca na ficção de vez em quando. Mantém um blog.




