Babel sem teto


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Renata Miloni

Em algum lugar muito distante daqui (que não chega a ser uma galáxia), meu amigo vai trabalhar e, no horário de almoço, visita sua biblioteca preferida da cidade. É como se fosse um paraíso, os bibliófilos podem compreender melhor. Lá, meu amigo olha para os lados e encontra praticamente o mundo inteiro. Ele aponta o dedo, estica os braços e alcança um pouco até desse meu país perdido por cinqüenta centavos (de dólares), às vezes vinte e cinco. Ele conseguia esse quase milagre porque lá eram vendidos livros usados em inúmeras línguas. Aliás, aquela era a biblioteca com maior acervo de outras línguas e ficava na cidade de maior diversidade cultural do mundo.

Foram anos passeando pelos corredores, se erguendo ante prateleiras, sempre ansioso por novas palavras — ou então pelas mesmas: ajuda a memorizar as sílabas de uma língua tão distinta. A fome de meu amigo foi interrompida por uma notícia com certa parcela de tragédia: a biblioteca, uma das maiores da cidade, hoje fecha suas portas. Sim, por todos os motivos comuns da área: o prédio precisa de uma reforma completa, o aluguel provavelmente é alto demais (e muitas dívidas surgiram com o tempo) e, como não podia faltar, o lugar foi vendido para que seja construído um hotel de alto nível com onze andares. Quando a questão envolve milhões e as dívidas atingem quase os mesmos dígitos, talvez seja a atitude mais sensata: “vamos vender, não temos escolha”.

A tragédia se estende ainda mais: muitos dos funcionários não sabiam da venda do prédio. A negociação começou há mais de um ano e a notícia foi pouco divulgada, por isso tamanha surpresa. Sei que é normal o trabalhador ser o último a saber que perderá o emprego, mas o que leva a fazerem isso se tudo, neste caso, será visto por quem quer que passe pela rua? A construção de um hotel se vê e se ouve, como esconder? Meu amigo também não entende o motivo de manterem essa triste notícia em segredo. Talvez, ele diz, tenha sido para evitar reclamações. E como ficam as pessoas que agora não sabem se vão encontrar um novo emprego tão cedo?

A literatura é a arte da desconsideração, às vezes me parece. E digo isso por estar mais próxima dela, por saber — mesmo que não muito porque resolvi me distanciar um pouco — o que acontece quando as portas são fechadas. O tamanho da desconsideração? Essa biblioteca não só abrigava a maior coleção de livros em outras línguas: lá também ficava a coleção de livros infantis mais procurada da cidade. Sem contar com espaços dedicados a outros assuntos, um auditório para palestras e debates, etc.

Meu amigo chega em casa inconsolável. E eu só consigo entender a gravidade disso ao lembrar que, num mundo onde o superficialismo impera soberano, o interesse de poucas pessoas pela palavra (ainda mais a estrangeira) pouco vale diante de tanto poder. Só entendo quão triste é perder talvez o único espaço que recebia meu querido amigo e outras pessoas com o mundo de fora e tantos mundos de dentro, porque sei bem o que é ter arrancado das mãos algo que antes era pura motivação.

Poderia existir uma metáfora, mas agora o que garantem aos freqüentadores dessa biblioteca é que ela terá dois andares no futuro prédio, sendo um deles o subsolo. Provavelmente não haverá lugares para todas as coleções lá disponibilizadas. E provavelmente metade dos funcionários não poderá ter seu emprego de volta. Não sei se é minha tendência ao pessimismo em casos assim, mas (e volto aos milhões) quando se trata de tanto dinheiro, quanto vale essa garantia?

Renata Miloni é revisora e preparadora de textos. Escreve quinzenalmente para a seção Palavra do Le Monde Diplomatique Brasil e participou como jurada da primeira Copa de Literatura Brasileira. É editora e colunista da Revista Malagueta e também escreve em seu blog.

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2 comentários  


  1. É das coisas mais tristes presenciar uma morte desse tipo. Entristecedor, mesmo.

    Aqui em Porto Alegre existia a Livraria Globo (fundada muitas décadas antes do canal de tevê). Uma das mais antigas da cidade. Tradicionalíssima. Erico Verissimo trabalhou lá, e etc. Haviam poltronas para tu sentares e ler à vontade. Era só catar uma obra que estivesse à venda e sentar — nenhum vendedor te importunava, nunca. Tinha uns 16 anos quando começei a trabalhar por perto e, conseqüentemente, frequentava-a todos os dias, na hora do almoço. Li três livros inteiros e trechos de muitos outros ali; sem nunca desembolsar um centavo. O tempo passou, e a Globo começou a desandar. Os materiais de escritório e congêneres ocuparam uma parte da loja. Essa ocupação foi crescendo. Logo, papéis, canetas e clips foram para a vitrine. A outrora grandiosa Globo, estava resumindo-se numa papelaria qualquer. Mais algum tempo passou. E a Globo fechou de vez. A dor dessa perda é difícil de precisar.

    João Barreto - 21/05/08
  2. João, eu só consigo entender um pouco essa dor por acompanhar a história do meu amigo com essa biblioteca. Não consigo imaginar a imensidão da tua perda. Uma tragédia pior do que a outra.

    E sobre a biblioteca em questão no texto, as novidades não são nada boas: parece que as coleções correm o risco de se desfazerem e tudo indica que não haverá nem lugar pra biblioteca se instalar enquanto o hotel estiver sendo construído, muito menos o espaço garantido lá quando estiver pronto. Ou seja, o fim é certo. Esses fins são dos piores.

    Obrigada pelo comentário, por compartilhar esse pedaço da tua história.

    Renata Miloni - 21/05/08


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