Sobre o que não é novidade e só piora


A+  A-  C  F   P

Renata Miloni

Ainda não posso me afirmar como uma boa leitora porque não dedico ao ato de ler atenção, tempo, disciplina e entrega que sei ser bem capaz de ter. Mas não por isso deixo de observar os leitores que se manifestam em blogs e outros sites, e aqueles com quem converso e convivo (quase sempre há uma boa diferença). Ultimamente uma forte decepção tem tomado conta de mim, muito mais com quem lê do que com quem escreve, devo dizer. A tendência natural do ser humano é evoluir, mas alguns leitores não parecem acompanhar o mesmo ritmo. Parece até que quero dizer o óbvio e que todos têm conhecimento dessa evolução, mas, para que os clichês me façam companhia, o óbvio cega.

Não posso confirmar a veracidade do que me fez concluir tal opinião, pois, bom, é somente minha opinião e não significa que esteja certa só porque assim quero. Minha intenção não é induzir pensamentos, não existe uma necessidade de aprovação — como vejo muitos críticos literários (e leitores) demonstrarem por aí. Aliás, para essenciais apresentações: eu não sou crítica literária, resenhista ou escritora. Bom, eu escrevo, mas sou muito menos capaz de me dizer escritora do que boa leitora. Como costumam dizer: tenho muito chão pela frente. E, então, o leitor deste singelo texto se pergunta: de onde ela tirou tamanha pretensão, já que nem escritora é? Minha pretensão gigantesca, cara pessoa, é falar de livros, de literaura, ainda que eu não tenha lido muito e não conheça tanto como gostaria do assunto. Mas confesso que, na estréia desta coluna, o foco é justo nos leitores. Ou seja, assumo uma pretensão de caminhar num território cheio de riscos (inofensivos, talvez).

Ricardo Piglia, em seu já tão citado por mim livro O último leitor, resgata o significado do verdadeiro leitor, aquele que lê porque é uma urgência contínua.

Primeira questão: a leitura é uma arte da microscopia, da perspectiva e do espaço (não só os pintores se ocupam dessas coisas).
(pág. 20)

Não é novidade: as pessoas tendem a julgar tudo pelo que lhes “parece”. Dificilmente vejo alguém falar de um livro e se jogar dentro da história, procurar nas palavras qualquer vida que falte no instante; ler e reler até que, por um momento, o livro fique seco, mas que deixe a vontade de futuramente extrair mais e mais. O que está escrito num livro vai além do que somos capazes de enxergar num primeiro momento, vai muito mais distante do que nossa mente poderia esperar ao iniciarmos a leitura. Ali está um novo mundo, repleto de falhas até, que nunca é possível descobrir inteiramente. E, por isso, me pergunto: leitor que não descansa, aquele que cria uma insônia consciente, que faz promessas àquela história — esse leitor ainda existe?

Temos na internet a maior prova de como se comportam uma parte dos leitores hoje em dia. Os blogs, por exemplo, são repletos de pessoas que se interessam intensamente por literatura e, intencionadas inicialmente, querem compartilhar suas opiniões sobre as leituras — o que considero extremamente saudável. O espaço que existe para a discussão, para que os comentários sejam livremente publicados, é indiscutivelmente útil. Sem entrar na questão do anonimato, faz parte daquela evolução natural da qual falei.

Mas como o ser humano não se contenta com o que lhe é dado, rapidamente transforma qualquer ferramenta em algum tipo de arma ofensiva — ou defensiva, dependendo do caso. Não é de hoje que a prática publicação de textos se transformou na maneira mais fácil de exorcizar os demônios literários que nas pessoas habitam. A violência proposital com a qual comentam sobre as opiniões alheias e livros dos quais (não leram e) não gostam às vezes me assusta. O que demonstram está longe de ser amor pela literatura: está mais para afirmação do ego ou efemeridades similares.

Opiniões. Não saberia responder se alguém me perguntasse onde é possível encontrar opiniões sobre literatura na internet. O que as pessoas fazem não é opinar, é impor — e imposição de idéias geralmente tem outro nome. Mas, levando em consideração que o que esses leitores fazem é realmente opinar, a impressão que passam é a de quererem mudar alguma coisa na literatura. Mas desde quando é somente o leitor que define os rumos da literatura? O que seria da literatura se ela fosse definida por pessoas de opiniões irrefutáveis sobre todos os livros lançados até hoje? É assim que agem, é isso que os move para mais uma discussão. Talvez falte aquele pingo de personalidade, algo que impeça a inevitável coceira de se provarem certos. E mesmo se houvesse o que provar, a violência (de qualquer espécie) acrescenta o quê? Discussão e crítica. Duas palavras cujos sugnificados são diariamente deturpados.

Na literatura, aquele que lê está longe de ser uma figura normalizada e pacífica (não fosse assim, não haveria narração); antes, aparece como um leitor extremo, sempre apaixonado e compulsivo.
(pág. 21, O último leitor, Ricardo Piglia)

O essencial: “sempre apaixonado”. Na minha opinião, Piglia se refere ao contestador. Um leitor contestador e apaixonado. Ainda se fosse o caso dos comentaristas dos quais falo neste texto, o trecho acima poderia ser uma justificativa. Mas suas palavras não dão indício desse sentimento mencionado por Piglia.

Em junho deste ano, presenciei um debate interessante entre Adriana Lunardi, Luiz Ruffato e Marco Lucchesi. No final, a mediadora Marisa Lajolo pediu que cada um desse um conselho aos aspirantes a escritores. O de Lucchesi cabe perfeitamente nos leitores também. Ele disse algo assim: “não seja arrogante, trabalhe com a doce ignorância”. E me atrevo a completar: pois de nada serve querer provar inteligência e sabedoria, ainda mais com agressividade, se até você duvida que elas existam.

Renata Miloni é revisora e preparadora de textos. Escreve quinzenalmente para a seção Palavra do Le Monde Diplomatique Brasil e participou como jurada da primeira Copa de Literatura Brasileira. É editora e colunista da Revista Malagueta e também escreve em seu blog.

A+  A-  C  F   P   T


4 comentários  


  1. “Mas desde quando é somente o leitor que define os rumos da literatura?” - que eu saiba, os leitores só dão o rumo da literatura quando ela já está livre dos editores interesseiros, ou seja, quando a obra supera o autor.
    contudo, DEVERIA ser o leitor a definir a literatura, afinal, ele é o alvo de qualquer escritor.

    mão branca - 14/11/07
  2. É uma pergunta retórica, na verdade.
    Mas se fosse dever dos leitores definir a literatura, então eles que deveriam receber o pagamento pelos livros? Não importa se é o alvo do escritor. Cada um tem sua função e uma não existe sem a outra, simples assim.

    Renata Miloni - 15/11/07
  3. “A violência proposital com a qual comentam sobre as opiniões alheias e livros dos quais (não leram e) não gostam às vezes me assusta.” - Considero alguém comentar sobre um livro que não leu igual a falar sobre alguém com quem nunca conversou, ou contar um filme que não viu, ou cantarolar uma música que não ouviu: simplesmente vago, impreciso e inútil.

    Muitas vezes sou chamado de radical por muitos que lêem minhas resenhas. Que sou do contra: critico o que todos gostam e elogio o pouco lido. Talvez o seja, talvez não. Mas quando escrevo algo, procuro mostrar exatamente o que EU senti ao ler aquele livro, a minha opinião, o meu ponto de vista, quem podem mudar em uma segunda leitura, é claro, assim como mudamos nosso conceito sobre alguém que passamos a conhecer melhor.

    O interessante é que mesmo que eu seja assim, ainda estimulo os outros a lerem o que eu li e comentei, seja o criticado ou o elogiado. E gosto de saber das opiniões de quem lê de verdade, não aquelas que são mera repetição, ou que são uma máscara do politicamente correto, mas aquelas que gostaria de ouvir numa conversa de botequim quando o assunto fosse livros.

    1 abraço.

    Jefferson Luiz - 21/11/07
  4. “Mas quando escrevo algo, procuro mostrar exatamente o que EU senti ao ler aquele livro, a minha opinião, o meu ponto de vista”

    Eu acho que é exatamente isso que deveria motivar todos os críticos e resenhistas quando escrevem sobre os livros que lêem. Não vejo muito isso por aí, mas que bom que mais alguém pensa assim.

    Renata Miloni - 21/11/07


Comente





Antes de comentar, leia atentamente as regras de uso do site.

Fechar
Envie por e-mail