Daniel Galera e Milton Hatoum
A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. As próximas serão nos dias 28 e 30 deste mês. No último dia, serão publicadas as respostas de três escritores.
Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.
Daniel Galera e Milton Hatoum
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Daniel Galera: Não entendi bem o que seria uma “visão de literatura”, mas concordo com o que diz a Zadie no sentido de que escrever exige muito mais do que técnica. A técnica, na verdade, é instrumento para satisfazer uma necessidade de expressão que se resolve numa combinação meio paradoxal de egoísmo e compaixão. Bons escritores sempre me dão a impressão de terem partido de uma necessidade egoísta para chegar num texto compassivo, que estende os braços ao leitor, busca sua participação e reconhecimento. Se tomarmos esse impulso contraditório como um traço de caráter, a frase da Zadie faz sentido. Por trás da boa literatura parece sempre haver a voz de alguém que recusa-se a estar sozinho, uma certa revolta contra as prisões da subjetividade. Acredito que esse impulso importa mais do que a técnica.
Milton Hatoum: Escrever bem exige talento e muito esforço. Quem escreve é movido pelo desejo, pela uma inquietação. Mas escrever bem não basta. O desafio é transformar o texto em boa ficção. Um texto bem escrito tem que dar um passo adiante e dizer ao leitor: isso não é jornalismo, e sim literatura.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
DG: Seguindo o raciocínio da resposta anterior, escreve-se para agradar E satisfazer-se. Se um livro faz apenas uma das duas coisas, carece de algo vital. É crucial saber por que se escreve um determinado livro ou texto, ou pelo menos realizar essa investigação enquanto se cria o texto, mas acho desnecessário, como autor, ficar me perguntando por que escrevo como um todo, ou seja, porque no fim das contas exerço essa atividade que chamamos escrever, que me torna um escritor. Isso não me preocupa. Nunca acordei de manhã me perguntando “por que diabos faço isso?”, mas já acordei inúmeras manhãs tentando entender de onde veio uma idéia ou por que motivo ela me assombra e pede para ser elaborada e escrita.
MH: Não penso em agradar. A mão do afago não é a mesma que escreve. Demoro muito tempo para escrever um livro porque espero os personagens e a trama se manifestarem. O desejo de escrever faz o resto, ou seja, quase tudo. Não miro um leitor, não sei a quem se destina o que escrevo. O leitor é o maior mistério da literatura. No entanto, não existe literatura sem leitor. É o leitor exigente que faz a literatura.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
DG: Gosto desse raciocínio da Zadie. O texto dela trata de um fracasso relativo. Um livro sempre será um fracasso no sentido de que o objetivo maior de um romance, que, na visão da autora do artigo em questão, é promover o compartilhamento de uma visão de mundo particular por meio de uma obra de arte e sacudir um pouco o barquinho da subjetividade, jamais será atingido por completo, pois é impossível experimentar o mundo do ponto de vista de outra pessoa. Chegar o mais próximo possível desse ideal é o desafio de todo escritor, e nesse sentido o que ele busca é fracassar o melhor possível. Como autor, sempre experimento essa espécie de fracasso no sentido de que o texto final, por mais trabalhado que seja, nunca dá conta de tudo que se pretendia expressar. Mas mesmo essa insuficiência é assombrosamente mais poderosa do que o tipo de comunicação que se alcança nas relações pessoais cotidianas. O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum. Nesse caso a alteração se dá pela combinação de camaradagem e álcool. Quando se escreve um livro, busca-se algo análogo por meio de uma elaboração paciente de idéias, um tremendo esforço de imaginação e exploração da linguagem cujo efeito final, além de prazer estético, preenche um espaço que parecia condenado ao silêncio.
MH: Já joguei fora muitas páginas. Aliás, mais páginas do que as que foram publicadas. E tenho palavras guardadas, escondidas, que só eu li. Mário de Andrade dizia que guardar manuscritos é também um ato de vaidade. Publico coisas de que gosto. As duvidosas permanecem no caderno. Mas não sei o que Zadie Smith quer dizer com “superficialidade necessária do crítico”. Será que ela confunde impressão de leitura com análise crítica? Acho que não, pois estudou literatura inglesa em Cambridge e leu os manuscritos de White teeth aos amigos da universidade. A impressão de leitura é uma intervenção do momento. Há uma diferença entre o comentário e a crítica. Uma análise crítica bem argumentada não é superficial. Como autor, não posso nem devo julgar meu trabalho. Como primeiro leitor dos meus manuscritos, tenho liberdade de publicá-los ou não. Depois da publicação, a última palavra é do leitor-crítico.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
DG: Há algo que se costuma chamar de voz literária. É a forma particular que cada autor tem de escrever, não apenas em termos de estilo, mas também de temas, de efeitos, etc. A voz literária é injustificável. Temos ou não temos. Se temos, ela é o que é. Faz parte de uma personalidade. Seria preciso nascer de novo para alterá-la. Outra coisa são estilos consagrados, fórmulas estéticas que um escritor pode explorar por opção. Isso pode ser questionado e discutido, é claro. Às vezes me parece que escritores, críticos e leitores passam por cima dessa distinção na hora de escrever ou julgar um texto. Um escritor pode defender uma escolha de estilo, mas é ridículo que se espere dele que justifique a sua voz (o que não impede que a voz seja julgada, é claro — podemos concluir que a voz de um determinado autor é enfadonha ou equivocada, que não merece atenção alguma, mas tratá-la como se dependesse de escolhas do autor é uma distorção crítica).
MH: Não defendo nada do que escrevi, nem tenho paciência ou pendor para polêmica. Octavio Paz dizia que as polêmicas exarcebadas passam, e o que conta é a obra, o tempo da leitura, que faz parte da história de um livro. O estilo não deve ser justificado. Não pelo autor. Cada texto pede um ritmo, um modo de narrar. Às vezes você erra o tom, resvala aqui e ali, entra numa pista inadequada. Mas a vida não é assim? A história do romance enquanto gênero literário é a história de um fracasso, de uma perda ou frustração. Isso pode ocorrrer com a própria escrita. A liberdade de criação é uma escolha do narrador. Mesmo um texto de fato inovador, como o Grande sertão: veredas, mantém um grau razoável de comunicabilidade com o leitor.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
DG: Não, não é essencial. Ninguém foge de si mesmo para fazer nada, e a escrita não é exceção. Há escritores que disfarçam isso em diferentes graus, de propósito ou naturalmente, mas os disfarces em nada alteram a verdade.
MH: Toda linguagem ficcional é uma construção, um artifício. Ela pode ser mais ou menos autobiográfica, e é muito difícil saber até que ponto a vida ou a personalidade do autor foi falseada, inventada. Até o relato autobiográfico é uma grande mentira. Muitos leitores vêem traços da minha vida nos dois primeiros romances, mas Cinzas do Norte é o meu romance mais “autobiográfico”. Na ficção você despista e engana a si mesmo, e às vezes o leitor acredita nesse engano. “O nosso modo de processar o mundo” não depende apenas de nós mesmos. É a nossa relação com os outros seres humanos e com a sociedade que nos estimula a inventar situações, conflitos, personagens. O Outro da literatura é um desdobramento complexo de uma persona: a pessoa e suas máscaras. Ou seja, o escritor na sociedade, na história, no tempo em que vive.
Os autores que, como Smith escreveu, fazem parte da geração pós-moderna foram criados para pensar que autenticidade é algo insignificante. O que faz um escritor ser autêntico hoje em dia? A recorrência ao clichê pode ser considerada parte de um possível fracasso? Por que?
DG: Não se deve confundir autenticidade com originalidade. Originalidade tem mais a ver com ineditismo, enquanto autenticidade tem mais a ver com honestidade. Originalidade, a meu ver, é uma qualidade muito bem-vinda num texto. Autenticidade é necessária. Mesmo entre os pós-modernos mais porraloucas encontra-se autenticidade: são textos que falam com o leitor em vez de contentarem-se com pirotecnia formal, combinações temáticas esdrúxulas e fragmentação sem limites (me vêm à mente um conto famoso do Donald Barthelme, “The Balloon”, que é um momento antológico do pós-modernismo literário norte-americano, um conto pós-moderno com efeito emocional devastador. David Foster Wallace já disse que começou a escrever após lê-lo). E é possível usar clichês com autenticidade. Um clichê bem usado é um recurso poderoso.
MH: Penso que o pós-moderno é mais uma terminologia do nosso tempo, mais um excesso terminológico. Lyotard não acreditava mais nas grandes narrativas, mas ele estava errado, porque elas existem, continuam a ser escritas. A recorrência ao clichê traduz a ausência de uma experiência. É uma capitulação precipitada e talvez preguiçosa diante da experiência histórica, pessoal e coletiva, e também da experiência de leitura. A paródia e o pastiche podem enriquecer a linguagem do escritor, e a prosa contemporânea fez bom uso desses recursos. Mas os clichês são repetições do que já existe, não lançam mão de uma energia inventiva.
No ensaio, a autora diz: “No mercado da ficção contemporânea, o escritor precisa entreter e ser reconhecível, menos que isso é visto como fracasso e rejeição dos leitores”. Que tipo de leitor você tem em mente quando escreve? O objetivo do escritor contemporâneo é apenas entreter quem lê seus livros? Por que?
DG: Não, nada a ver. Não sinto isso que a Zadie menciona. Não meço meu fracasso pelo reconhecimento da imprensa ou desempenho de mercado do que publico. O objetivo do escritor contemporâneo é continuar girando e ampliando essa roda meio desgovernada do desejo humano de interpretar o mundo e compartilhar essas impressões de uma maneira que nos engrandece o, digamos, hm, espírito. O que é quase o mesmo que dizer que não há objetivo nenhum. Não escrevo para ninguém específico. Escrevo para aquele ente absurdo que é a combinação do meu ego com todos os outros seres humanos.
MH: Não tenho um leitor em mente. É impossível conhecer o leitor ou pensar num tipo de leitor. Há escritores que querem apenas entreter os leitores. Outros consideram a literatura uma forma de conhecimento do mundo, de si mesmo e do outro. Entretenimento não é sinônimo de prazer. Você pode ler com prazer um livro complexo, mas essa leitura pede concentração e empenho intelectual. O ideal seria unir prazer e conhecimento por meio da linguagem.
Você acha que o único dever do escritor é expressar sua visão de mundo? Por que? Se não é o único, quais são os deveres do escritor?
DG: É o único. E mesmo ao consegui-lo, pode ser que não interesse a ninguém. Ups, lamento. Ninguém está interessado. Adoro essa idéia, ela aproxima a literatura da inutilidade total. Acho isso incrivelmente estimulante.
MH: Há muitas maneiras de ver o mundo, e a literatura é apenas uma delas. Não se deve confundir a visão do autor com a do narrador e outros personagens. Céline, um dos grandes escritores do século passado, era um racista, mas seus livros falam de um mundo sórdido e de personagens desgraçados, que só encontram paralelo na obra de alguns poucos escritores russos do século XIX. Não acredito em literatura missionária. A literatura se alimenta de indagações e conflitos, é uma sondagem da alma, uma releitura inventiva de mitos. Mas enquanto escritor, procuro defender princípios éticos, de justiça social. Por isso traduzi o livro Representações do intelectual, do pensador e crítico palestino-americano Edward Said. Os escritores e os intelectuais devem ter coragem de criticar todo tipo de poder abusivo, todo tipo de terrorismo, inclusive o terrorismo de Estado. Isso é muito difícil hoje em dia, porque quase não há espaço nos meios de comunicação para quem quer execer a crítica à violência de governos considerados “democráticos”, mas que são extremamente truculentos quando invadem territórios e até países.
A vontade de atingir a perfeição num texto, do gênero que for, é algo que persegue o autor? Por que? “O sonho do livro perfeito é, na verdade, o sonho da revelação perfeita de si mesmo”? Somente os escritores considerados gênios conseguem “dizer a verdade de sua própria concepção”?
DG: Não acredito na perfeição de um texto, embora já tenha lido alguns contos, estrofes e parágrafos por aí que quase me fizeram mudar de idéia. Me contento com a aproximação.
MH: Até mesmo um bom romance revela alguma imperfeição. Uma falha ou deslize é inerente à maioria dos romances. A gente tenta evitar as falhas, os momentos de frouxidão, mas nem sempre consegue. Não acredito em genialidade, e sim em talento e trabalho com a linguagem. Claro que há obras perfeitas. Alguns poemas de Drummond, João Cabral, Wallace Stevens, Auden. Alguns contos de Machado de Assis, Jorge Luis Borges e Maupassant são, a meu ver, perfeitos. Na nossa literatura, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos escreveram livros irretocáveis. A lista não é muito extensa: Flaubert, Kafka, os contos de Joyce, alguns contos do Livro das mil e uma noites… Há perfeição por toda parte, mas ela não prevalece. Os grandes livros nos ensinam a errar menos.
Para escrever o Fail better, Zadie Smith conversou com outros autores. Um deles disse que seria fascinante saber de escritores vivos o que eles acham que está errado com sua escrita ou como imaginavam seus livros antes de criá-los; ou seja, sugerir um “mapa de desapontamentos”. Como seria esse mapa para você? Mencionando algum texto seu (romance, conto, poema, etc.), quais seriam os aspectos principais?
DG: Note que a Zadie prometeu anonimato aos autores com quem conversou, hehe. Não é o caso aqui. Mas eu não tenho problemas em dizer que o Até o dia em que o cão morreu, meu primeiro romance, acabou se transformando em algo bem mais sucinto e esquemático do que a idéia completa que eu tinha na cabeça. Ao escrever o livro, fui socando algumas idéias no texto, torcendo para que o leitor as captasse, e não sei se fui tão bem-sucedido quanto gostaria. Foi um livro escrito com pressa, e esse atropelamento é até visto com bons olhos por muitos leitores. É impressionante como de vez em quando o retorno de um leitor traz à tona coisas que eu julgava estarem meramente esboçadas no livro. Mesmo com seus defeitos, ainda o adoro, tanto que aceitei republicá-lo. Na revisão, me deparei com inúmeras passagens que gostaria de alterar ou reescrever, mas achei que fazer isso seria trair o livro e os leitores. Acredito que a relação que estabelecemos com um livro depende também de seus defeitos. O tal mapa de desapontamentos de um autor também contém certas verdades sobre o que ele pretendia expressar. Os defeitos de nascença de um livro podem ser parte de seu charme.
MH: Não consigo imaginar um livro “pronto”. O livro que estou escrevendo não é o livro imaginado. Faço um esboço e escrevo, sem ter idéia do conjunto, da totalidade. Isso surge aos poucos, e é um trabalho posterior. Porque escrever significa sobretudo reescrever. E quando termino um manuscrito, fico tão cansado e saturado que não penso mais no que escrevi. Quando você gosta de um texto, do seu texto, deve publicá-lo. Se eu tivesse publicado livros só por publicá-los, só por vaidade ou para ganhar muito dinheiro, teria motivo para frustração e desapontamento. Minha vaidade literária não chega a tanto. Eu me frusto, me desaponto e me entristeço com um amor fracassado, ou com a promessa de uma grande amizade que ficou apenas nisso: promessa.
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