Santiago Nazarian, Paulo Polzonoff Jr. e Sérgio Rodrigues
30/11/07
A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores e hoje publica as respostas dos últimos três escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações foram feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma teve as respostas de dois escritores, com a exceção da última.
Santiago Nazarian, Paulo Polzonoff Jr. e Sérgio Rodrigues
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Santiago Nazarian: Eu não saberia responder. Não acredito em fórmulas, por isso mesmo nunca me propus a participar ou ministrar oficinas. Acho que cada escritor encontra sua maneira de lidar com a escrita. Alguns fazem por prazer, outros sofrem, alguns escrevem de forma ligeira e espontânea, outros passam dias pesquisando, relendo e reescrevendo um parágrafo. Também não sei o que seria exatamente “caráter”, se for um sinônimo de “personalidade”, pode ser, mas também não sei como isso pode ser avaliado. Afinal, personalidade todo mundo tem, seja ela expansiva, tímida, introspectiva, turbulenta ou o que seja.
Paulo Polzonoff Jr.: Para escrever bem é preciso domínio da língua, para início de conversa. A partir daí, é preciso, sim, caráter, honestidade intelectual. É curioso: do mesmo jeito que qualquer pessoa com dois neurônios é capaz de distingüir um canastrão em uma peça de teatro, um leitor preparado é capaz de perceber quando o livro, mesmo o bem escrito, com todos os pingos nos is, carece desta qualidade chamada honestidade. Não que o autor seja desonesto propositadamente; é que ele, em geral, é incapaz de perceber, em si, a falta do fator x, para ficarmos num termo pop.
Sérgio Rodrigues: Se entendi o que ela quis dizer, concordo em parte. A boa literatura não se esgota numa técnica, na capacidade de construir um objeto lúdico, é preciso ter algo digno de nota a expressar, uma determinada visão de mundo. Certo. Mas eu não iria tão depressa do talento ao caráter, essa estrada é esburacada e cheia de armadilhas. Está provado que existem gênios de péssimo caráter, como existem pessoas boníssimas que só escrevem banalidades. Um defeito pessoal, como a misantropia ou o pessimismo doentio, pode tranqüilamente ser convertido em qualidade por um escritor. Não acho que existam regras aplicáveis a todos os casos.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
SN: Acho que não, não é preciso saber por que se escreve. Acredito até que bons escritores possam ser motivados pela necessidade de auto-afirmação, pelo orgulho, para serem reconhecidos. Mas não é isso o que mais me motiva. Me motiva mais é poder criar histórias, personagens, conviver com eles, expressar um universo interno. Antes de tudo, sinto um enorme prazer ao escrever — e isso vai desde o simples ato de digitar, que eu considero terapêutico. Então posso não saber exatamente por que escrevo, só sei que isso me dá prazer.
PP: Principalmente no nosso tempo, se a pessoa se perguntar por que e para que escreve, corre o risco de ficar louca. Aprendi, depois de muito apanhar, que a gente escreve simplesmente porque precisa. É um lugar-comum horrível e acho que a maioria das pessoas que o repete não tem a menor idéia do que esta necessidade representa de fato. Muitas até fingem esta necessidade. Ou a confundem com uma necessidade financeira ou de loas. E, bem, quem escreve por esta necessidade íntima, impossível de se confundir com suas primas pobres, como a vaidade e a ganância, sabe o que quer com a escrita. Agradar ou satisfazer? Depois de escrito o autor não deveria se preocupar com isso. Aliás, às vezes tenho a impressão de que a preocupação do autor com a repercussão do que escreve está entre os sinais mais evidentes de desonestidade intelectual — que não tem nada a ver com falta de caráter.
SR: Acho que foi no discurso do Nobel que Orhan Pamuk deu uma ótima resposta a essa clássica pergunta do “por que você escreve”: enfileirou duas mil razões, todas parciais, mas que compõem um painel com o maior jeitão de verdadeiro. Porque, naturalmente, nunca será uma razão única. Eu diria que uma certa conformação de neuroses é fundamental. Quando escrevo, estou procurando em primeiro lugar satisfazer um leitor muito exigente, muito chato, impaciente e ditatorial, que sou eu mesmo. Quando finalmente consigo, em geral estou cansado demais para pensar em outra coisa, e dou o trabalho por encerrado.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
SN: Não saberia dizer “apenas como leitor” porque jamais serei apenas leitor. Mas mesmo como leitor-escritor posso considerar alguns trabalhos meus como um fracasso, mas tenho o bom senso de não tentar publicar esses. Tenho alguns romances engavetados sim, que provavelmente ficarão na gaveta, porque não acho que tenham sido bem sucedidos. Quanto aos publicados, todos cumpriram uma função para mim, tiveram seu espaço, leitores que se identificaram… Gosto mais de uns do que de outros, é verdade, mas não me arrependo de ter publicado nenhum dos quatro.
PP: Quando escrevo qualquer coisa, acontece um fenômeno que ainda está sendo discutido entre mim e meu analista: eu esqueço o que escrevi. Esqueço completamente. Tanto é assim que, às vezes, eu pego um texto algo mais antigo, digamos, de três meses atrás, e ele me parece escrito por outra pessoa. E, quando descubro que ele foi escrito por mim, começa o segundo fenômeno curioso: a purgação. Não gosto do que escrevo. E, se me permite um conselho, duvide sempre da qualidade de um autor que gosta demais do que escreve.
SR: Não concordo com a idéia de que o escritor tem uma “desonestidade natural”. Para consumo externo, talvez, confundindo-se com a vaidade. Mas escrever é um trabalho solitário demais e ingrato demais para que esse tipo de auto-engano prospere livremente, a menos que a gente esteja falando de picaretas. De certa forma, tudo o que eu já escrevi — e o que vou escrever um dia — é um fracasso parcial, porque tem sempre aspectos exasperantes e inconclusos. Como temos que mirar o absoluto, o perfeito, mas trabalhamos o tempo todo com o contingente, o possível, a insatisfação é parte da brincadeira. É preciso conviver com isso. Mas também existem os aspectos embriagantes, os triunfos, as batalhas vencidas com esforço e astúcia — claro, do contrário o texto teria ido parar na lata do lixo. A autocrítica é o maior aliado do escritor.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
SN: Acho que os autores sentem mais necessidade de se defender quando sentem que o “crítico” foi injusto, trabalhou com inverdades, teve motivações extra-literárias para atacar o trabalho. Isso aconteceu poucas vezes comigo, mas não pude deixar de me defender. Já quando a crítica é negativa, mas passa seriedade, é melhor o autor não questionar. Isso também já aconteceu. É claro que não posso concordar com uma crítica negativa, eu publico meus livros porque os considero de qualidade, mas sei que isso é um valor relativo, algumas pessoas podem enxergar minha obra de outra forma.
PP: Não há limites para a liberdade estilística. Novamente, insisto: ao escritor cabe escrever da melhor maneira possível; ao leitor/crítico, cabe ler, analisar, dar opinião. O escritor, depois de ter o lido escrito e publicado, não tem o direito de defender sua obra do que quer que seja. Simplesmente porque cada leitor lê um livro de um modo. Se o escritor escreveu um livro para ser lido de um modo específico, bem, acho que ele está na atividade errada. Arte pressupõem múltiplas e díspares interpretações. Esta é a graça da coisa.
SR: Cada um sabe de si, mas, salvo casos extremos ou intervenções pontuais para esclarecer mal-entendidos, não gosto da idéia de escritores saírem a campo para defender seus livros. Mesmo que uma crítica ou outra seja exasperadora, por parecer, sei lá, completamente sem noção ou levianamente maledicente, acho que o autor não é a pessoa mais indicada para rebater isso. O próprio jogo das opiniões tem um lado autocorretivo saudável: é difícil que, a médio prazo, grandes besteiras críticas vinguem. Se um escritor quer lutar por um estilo, uma escola, um certo jeito de fazer literatura, ótimo. Mas acho que fará melhor atuando como paladino de outros autores que tenham a mesma orientação. Até por uma questão de credibilidade. Por mais que você os ame, fazer o elogio de seus próprios filhos é constrangedor.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
SN: Não, acho que a personalidade é indispensável, e ela que traz o valor individual de uma obra, a marca do artista. Sem artista não há arte. Sem personalidade não há artista. Mas claro, trabalhar com a personalidade não é trabalhar com detalhes biográficos, simplesmente com as maneiras de processar a informação, com o repertório e com os ideais.
PP: Pergunta complicada porque parece exigir uma resposta objetiva. Bem, posso respondê-la falando de mim — e apenas de mim. Eu percebi que meus personagens tinham muito de mim aos 20 anos. De lá para cá, tenho trabalhado penosamente para me desligar dos personagens, para dar a eles uma vida e um olhar diferentes dos meus. Acho que isso é criação. Mas há de se levar em conta que vivemos tempos ególatras. Então, tudo está muito poluído. Ainda mais no Brasil, onde escrever é considerado uma atividade inata, um dom que não exige estudo, apenas talento. Acho que a maior parte dos escritores, sobretudo os jovens, não pensa no tal processo criativo — o que é uma pena. A literatura ganharia muito com este filtro.
SR: Se entendi bem, acho que a questão está mal colocada. Acredito que, mesmo tentando fugir ou se alçar acima de sua personalidade, o escritor que tem voz própria continuará preso nos meandros dela, porque suas estratégias de fuga ou de abstração também vão refleti-la, inevitavelmente. Sendo assim, me parece falso esse embate personalidade x não-personalidade. No meu modo de escrever, por exemplo, o umbigo tem uma participação muito pequena. Mas o fato é que, autobiográfico ou não, memorialístico ou não, um escritor sempre vai se revelar de maneira quase escandalosa no que faz, por mais que tente se esconder. Nesse sentido eu concordo com Zadie Smith, mas não compreendo muito bem sua conclamação para que os escritores “se coloquem” em seus livros. Não porque discorde disso, mas porque esta me parece uma condição tão básica do escrever (do escrever com ambição estética, claro) que nem merece discussão. O risco de bater demais nessa tecla é o de terminar “psicologizando” a literatura, que tem suas próprias leis e, no fim das contas, está se lixando para a personalidade do autor.
Os autores que, como Smith escreveu, fazem parte da geração pós-moderna foram criados para pensar que autenticidade é algo insignificante. O que faz um escritor ser autêntico hoje em dia? A recorrência ao clichê pode ser considerada parte de um possível fracasso? Por que?
SN: Todas as pessoas são produto de diversas influências, referências, processadas por um aparato biológico-intelectual único, por isso podem ser autênticas se forem verdadeiras consigo mesmas, o que pode ser mais difícil do que se imagina. Analisando até uma maneira tecnológica, a informação é apenas a combinação de dois valores, o “1” e o “zero”, mas as diferentes seqüências deles permitem combinações infinitas. Pensando assim, são infinitas as maneiras de se processar e representar idéias.
PP: Acho que ser autêntico é ter alguma ligação com a tradição. O que parece contraditório, mas não é. Esta busca pela originalidade é sadia, mas esta ansiedade em torno da busca, não. Sobre o clichê, eu tenho pensado muito nele. Ora, dê uma lida em Gabriel García Märquez e você verá que Cem snos de solidão é povoado por clichês que, nas mãos de outro autor, me dariam calafrios. Por que nele é diferente? Há uma ligação improvável entre autenticidade, originalidade e tradição. Esta, aliás, é a equação que, a meu ver, define a boa literatura.
SR: Do modo como a entendo, a autenticidade de um escritor não tem nada a ver com escola ou estilo, seja pré-moderno ou pós-moderno. Tem a ver com encontrar uma voz própria, que não soe como a de nenhum outro escritor, tem a ver com exercitar essa voz ao máximo, explorar seus graves e agudos. Vamos imaginar um sujeito “pós-moderno” até a medula, que trabalha exclusivamente manipulando ou desconstruindo clichês, num nível de cinismo em que a própria idéia de humanidade se pulveriza. Se isso corresponde profundamente ao que ele tem a dizer, ao seu projeto estético, então é autêntico para ele. O resultado literário pode ser bom ou ruim, essa é outra história. Não digo que seja o caso da dona Smith, mas julgar a autenticidade de um escritor a partir de valores extraliterários, mesmo que sejam excelentes valores humanistas, me parece naïf.
No ensaio, a autora diz: “No mercado da ficção contemporânea, o escritor precisa entreter e ser reconhecível, menos que isso é visto como fracasso e rejeição dos leitores”. Que tipo de leitor você tem em mente quando escreve? O objetivo do escritor contemporâneo é apenas entreter quem lê seus livros? Por que?
SN: Eu acho que os escritores que fazem “literatura” no Brasil não estão muito preocupados com entretenimento. Isso tem um lado positivo, mas acho que se pode ir além, fazendo entretenimento de alta qualidade, tentando conquistar o leitor iniciante, atrair novas pessoas à leitura, isso é o que é mais interessante para mim. Mas, na verdade, não é exatamente essa pessoa que eu foco quando escrevo, eu foco sempre um ser ideal, imaginário, uma pessoa que eu amo… ou amaria.
PP: Meu leitor ideal é cruel. Talvez por isso mesmo eu tenha exercitado em recolhimento à ficção. Em se tratando de não-ficção, meu leitor ideal é esclarecido e bem-humorado — uma raridade. Sobre esta história de papel do escritor contemporâneo, eu acho que depende dos objetivos dele. Se a pessoa quer ser uma best-seller, tem que entreter. Se quer ser uma Z. Smith, além de entreter tem que ser multicultural e fazer uma boa política literária. Sabe, cada vez mais eu acredito na criação literária como algo solitário e individual, independente do reconhecimento do outro e do seu tempo. É uma coisa idealista, eu sei, mas muito forte em mim: escrever é uma coisa sob a qual temos controle, como escritores; daí em diante, tudo está sujeito ao acaso. Qualquer tentativa de controle deste acaso, seja pela política literária seja pela exaltação da personalidade, é desonestidade intelectual. Não me interessa, pois.
SR: Como eu disse ali atrás, o primeiro leitor que eu tento agradar sou eu mesmo. O entretenimento é o objetivo de alguns autores, não de todos. Mas acho que mesmo os grandes entertainers, se forem bem inquiridos, vão acabar revelando outras ambições. O erro nesse caso me parece ser a preocupação excessiva com “o mercado”. O mercado, principalmente no Brasil, é uma entidade que tem pouquíssimo a ver com a literatura. Às vezes os dois se encontram, mas é fortuito. Isso tem um lado péssimo e um lado ótimo. A maioria dos escritores não ganha dinheiro, mas em compensação todos têm uma liberdade artística enorme.
Você acha que o único dever do escritor é expressar sua visão de mundo? Por que? Se não é o único, quais são os deveres do escritor?
SN: O único dever do escritor é escrever. Mas acho que é inevitável que, nesse processo, manifeste-se sua visão de mundo. E quanto mais particular essa visão, mais particular sua literatura.
PP: Sim, o dever do escritor-escritor é só este. O escritor-escritor não se importa com política, com ideologia, com os rumos da cultura, com o futuro do livro, nada disso. O escritor escreve e se submete ao acaso.
SR: Acho que o único dever de um escritor é tentar escrever, com a maior honestidade possível, coisas boas, textos literariamente relevantes, que levem em conta a longa tradição da literatura e a atualize de alguma forma, dando continuidade ao velho jogo. É um dever com um grau de dificuldade insano. Não consigo imaginar outro.
A vontade de atingir a perfeição num texto, do gênero que for, é algo que persegue o autor? Por que? “O sonho do livro perfeito é, na verdade, o sonho da revelação perfeita de si mesmo”? Somente os escritores considerados gênios conseguem “dizer a verdade de sua própria concepção”?
SN: Não sei o que se pode chamar de “gênio”, acho isso um conceito relativo. Cada um elege seus próprios gênios. E também não sei o que se pode chamar de “perfeição” num texto. Esse conceito não existe objetiva e racionalmente.
PP: Acho que esta vontade de atingir a perfeição é algo muito em falta ultimamente. Há muita autocondescendência. Sobretudo em países onde a educação literária é falha, como no Brasil. Tenho visto escritores jovens, de menos de 30 anos, finalizando livros como se tivessem lugar garantido no Cânone. Claro que esta vontade para se atingir a perfeição literária passa por uma questão de auto-conhecimento. A Z. Smith acerta ao dizer que o livro perfeito é a revelação perfeita de si. E isso é algo a se buscar, sim, embora eu acredite que a maioria das pessoas não está disposta a esta busca que é essencialmente (e deliciosamente) utópica.
SR: Para mim, essa conversa de “sonho do livro perfeito” soa platônica demais. Não consigo sequer começar a conceber um livro perfeito. Acho que nunca li nenhum. É claro que miramos o absoluto, algo que nos projete além da contingência e nos salve simbolicamente da morte, isso me parece comum a qualquer arte. E é claro também que, na vida real, conseguimos no máximo aproximações. Mas essa ambição da “revelação perfeita de mim mesmo” não tem rigorosamente nada a ver com os motivos pelos quais eu escrevo, isso eu posso garantir. A meu ver, a literatura se alimenta de literatura, a psicologia ou a alma do autor são no máximo o aparelho digestivo. É com outros livros que os livros conversam, não com pessoas. As pessoas apenas apuram os ouvidos para tentar captar o burburinho.
Para escrever o Fail better, Zadie Smith conversou com outros autores. Um deles disse que seria fascinante saber de escritores vivos o que eles acham que está errado com sua escrita ou como imaginavam seus livros antes de criá-los; ou seja, sugerir um “mapa de desapontamentos”. Como seria esse mapa para você? Mencionando algum texto seu (romance, conto, poema, etc.), quais seriam os aspectos principais?
SN: Eu percebo vários erros nos meus romances, mas eles são assim, eu não os corrigiria, eles foram feitos como tiveram de ser feitos, e se corrigisse algum erro, certamente surgiriam outros, já que o equilíbrio perfeito é impossível. Há alguns livros meus que nasceram com uma proposta, mas que foram desviados dela pela própria história. Eu não tenho controle absoluto do que quero fazer. Ou melhor, às vezes quero fazer algo, mas a história pede outra coisa. Talvez meu livro que esteja mais próximo de um equilíbrio perfeito seja Feriado de mim mesmo, mas não é meu favorito.
PP: Tudo é desapontamento. E é bom que seja assim. Um escritor contente com sua própria obra é algo meio patético, não acha? Mas o que eu acho que a Smith quer dizer é que há uma dissonância entre idéia e realização. Algo próprio da literatura contemporânea, porque ela está poluída por ansiedade da pior espécie. Talvez o mapa do desapontamento meu e dos demais escritores que tenham um mínimo de autocrítica passe justamente por esta noção de que há literatura tem um tempo próprio. E que acelerar de qualquer modo este tempo acarreta em falhas.
SR: Desculpe, mas nada me parece mais absurdo do que fazer um “mapa de desapontamentos” de um texto. Dá desânimo só de pensar. Acho que a única forma decente de fazer isso é escrevendo um texto melhor.
boa tarde. talvez seja um pouco off topic o meu comentário, mas vamos lá.
eu compilei e formatei todas as entrevistas em apenas um arquivo, gerando cerca de cinqüenta páginas de texto, no bom e velho “copia e cola”.
preferi usar esse sistema porque notei a falta de algum script de impressão na parte das entrevistas.
então fica o pedido, de incluírem também no blog da revista aquele iconezinho de impressão, assim como existe na parte de contos.
grande abraço.
hasta.
Ótima sugestão.
Em breve colocamos aqui um link para imprimir os posts.
gostei demais dessa aqui do Polzonoff:
“Acho que esta vontade de atingir a perfeição é algo muito em falta ultimamente. Há muita autocondescendência. (…)” …e por aí vai, toda ela ótima.
[ ]s
Elton
Escrever sobre o Escrever é o futuro do escrever…
Haroldo de Campos