João Paulo Cuenca e Sergio Faraco

23/11/07

A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores.

Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.

A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.

Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.

As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. As próximas serão nos dias 26, 28 e 30 deste mês. No último dia, serão publicadas as respostas de três escritores.

Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.

João Paulo Cuenca e Sergio Faraco

Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?

João Paulo Cuenca: Antes de responder uma pergunta como essa, acho que é preciso pensar sobre o que exatamente é “escrever bem”. Escrever de acordo com a gramática normativa? Escrever sem erros de ortografia? Isso me parece o mínimo, e também algo muito fácil de atingir — porque isso se aprende. Escrever de forma correta não é o suficiente para produzir literatura. Escrever bem para mim é escrever um texto que se justifique. Que acrescente uma peça relevante ao jogo literário, que estabeleça um diálogo com outras obras e, se o autor tiver sorte, com o leitor. Quais qualidades pessoais isso exige? Acredito que leitura e domínio da linguagem são pontos chave, mas não suficientes. Escrever sem criatividade e talento é “escrever” sem escrever.
Sergio Faraco:
Se a autora emprega esse termo em seu sentido estrito, aludindo, portanto, a um conjunto de traços peculiares de um indivíduo, bons ou menos bons, eu diria que a literatura não tem nada a ver com isso, pois tal caráter todo mundo tem, o escritor, o papeleiro e o deputado. Se o emprega em sentido figurado ou extensivo, também não vem ao caso. Se escrever bem fosse uma questão de integridade moral, não estaríamos hoje a ler Henry Miller. Em sua “ficção” que não é ficção, mas memória, ele conta alguns casos que evidenciam seu pouco apreço à lealdade, sobretudo em relação a quem o ajudava em momentos difíceis. No entanto, é um grande escritor. Para que um escritor escreva bem, ele precisa governar o idioma, ter um gosto estético reconhecível e a capacidade de traduzir o que sente.

Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?

JPC: Escrevo em primeiro lugar porque gosto de ler. E gostaria de ler alguns livros que ainda não existem — ou que acho que não existem. Tento escrevê-los. Para mim, o processo começa com a vontade pura e simples de me satisfazer e, através disso, buscar saciar uma sede de significado muito própria. Com o livro escrito, é claro que existe o desejo (e a vontade, e a pretensão irresponsável etc.) de compartilhar o resultado, receber comentários e resenhas. Mas nada se compara à satisfação que se tem ao terminar de escrever um bom parágrafo que, até poucos dias ou horas atrás, não existia. São dois momentos com motivações distintas para mim — o de escrever e o de ser lido por outrem.
SF: Escrevo porque sinto um impulso de compartilhar sentimentos, emoções. Mas compartilhar do jeito que sei. Não me ocorre satisfazer senão meu próprio gosto, meus próprios parâmetros.

Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?

JPC: Sim, existe a possibilidade de renegar qualquer trabalho meu no futuro, é claro. Se não pensasse assim, talvez me visse como um escritor estagnado. Sobre sua segunda pergunta, de forma alguma aceitaria qualquer resultado simplesmente porque fui responsável por aquilo. Se assim fosse, minha vida seria mais fácil: não levaria o tempo que levo reescrevendo tudo. Meus exemplares vivem rabiscados. Sobre a frase da Zadie, acredito que esse conceito de “sucesso ou fracasso” é muito particular, impossível de ser colocado em termos absolutos. Nesse sentido, por mais que venha a renegar meus contos, crônicas e romances, acho que fui muito bem sucedido neles. Porque eles me levaram a um lugar diferente, a ser mais do que era antes de escrevê-los. E aí me contradigo: talvez, por isso, jamais seja capaz de renegar nada do que tenha escrito. Respondo novamente a pergunta: não, não existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho meu um fracasso, por mais que eu deixe de gostar dele.
SF: Não cogito de fracassos ou sucessos, apenas escrevo meus contos e tenho a convicção de que emprego neles meu melhor, nem que seja necessário esperar muitos anos para que esse melhor se materialize. A opinião de quem lê, portanto, passa ao largo: ouço, mas não registro. Além disso, quem somos nós, os contemporâneos, para julgar o que vai ou não permanecer, o que é um sucesso ou é um fracasso? Imagino que Humberto de Campos e Coelho Neto, com o prestígio e o reconhecimento que tinham nos primeiros trinta anos do século XX, julgavam suas obras vitoriosas. Hoje ninguém as lê. Um notório exemplo oposto é Kafka.

Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?

JPC: Não acho que seja necessário que qualquer autor dê explicações sobre seus livros ou seu “estilo” ao escrever. A literatura deveria falar por si — e muito mais na direção de fazer perguntas do que oferecer respostas. Mas há uma indústria que órbita em torno das narrativas sobre as obras. E o escritor tem que inventar um segundo discurso, uma meta-narrativa paralela ao livro, que é a fala que usa para dar entrevistas — a que estou usando agora, não totalmente sincera. Porque aqui tenho que responder perguntas, e meu papel no mundo não é esse… Não sei se com isso também respondo alguma das suas perguntas, mas acho um grande erro um autor se defender de uma crítica. O problema é que escritores (brasileiros, e ainda, contemporâneos, vivinhos, pobrezinhos…) têm um ego tão grande quanto frágil, e alguns costumam cair nessa armadilha. Mas os resenhistas também não ajudam: às vezes criticam os autores enquanto personagens, e esquecem de escrever sobre literatura. É de uma pobreza de espírito terrível, tudo pode ficar no registro rasteiro do julgamento pessoal e da reação idem.
SF: Escrevo tão bem ou tão mal quanto posso, e não me afeta a notícia de que alguém reprova aquilo que corresponderia, digamos, às minhas singularidades estilísticas. Nem sei se as tenho e tampouco as persigo. Se algum leitor ou crítico não gosta do modo como compartilho meus sentimentos, nada posso fazer. Mudar é que não vou e nem o conseguiria, se quisesse.

A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?

JPC: Bem, entre o Eliot e a Zadie Smith, é claro que eu fico com o primeiro. No fim das contas, concordo com ele e com Rimbaud que ia além e dizia antes mesmo de Freud: “eu é o outro”. E buscava a tal da “vidência”, o Rimbaud, através de um anulamento de si mesmo, da reprogramação dos sentidos do seu velho “eu” — essa moldura limitada que a Smith chama meio bobamente de “nosso jeito de ser ativos”. Até que desaparecesse por completo o poeta, se transformando em linguagem, poesia, literatura, purpurina, etc. Agora, se você acha que muita gente no século XX usou o projeto rimbaudiano, de buscar o desconhecido como forma de transcendência e busca da verdade, para desculpar-se por toda sorte de desvarios, frescuras e porralouquices, inclusive, a de produzir má literatura, pense no seguinte: a culpa não é do Rimbaud.
SF: Não sei se minha personalidade me ajuda ou me prejudica, se preciso confrontá-la ou refugá-la para poder exercitar, finalmente, minha criatividade. A mim me preocupa apenas escrever uma boa história, explorando para tanto o último limite de minha capacidade. De onde ela vem, se com ajuda disso ou daquilo, bem, não penso nisso, e suspeito de que concluir que o processo criativo deva se deflagrar com tais arrimos ou sem eles já significa enquadrá-lo em dado padrão, um mal sem remédio para quem escreve.

Os autores que, como Smith escreveu, fazem parte da geração pós-moderna foram criados para pensar que autenticidade é algo insignificante. O que faz um escritor ser autêntico hoje em dia? A recorrência ao clichê pode ser considerada parte de um possível fracasso? Por que?

JPC: Antes de responder, preciso dizer que não me encontro nessa afirmação da Smith. Serei eu então um pó-pós-moderno? Ou um pré-moderno? No meu mundo, autenticidade é fundamental até para andar na rua ou mexer a colher na xícara. Sobre a recorrência ao clichê, acho que pode ser considerada fracasso estético se o autor usá-la involuntariamente, com ingenuidade. Pois uma das vantagens do tempo onde “tudo já foi escrito” é usar o clichê como matéria-prima para, repito, mover adiante uma peça do jogo literário, ou refletir sobre ele. Hoje em dia, existe uma torrente gigantesca de referências para brincar. Acho que só mastigando e cuspindo o bagaço dessa fruta é que vamos entrar, finalmente, no século XXI — que, cá entre nós, está longe de começar.
SF: Eu apenas escrevo histórias e faço um grande esforço para torná-las verossímeis. Se forem boas, serão verdadeiras, e desconheço de que outro modo a autenticidade tenha a ver com isso.

No ensaio, a autora diz: “No mercado da ficção contemporânea, o escritor precisa entreter e ser reconhecível, menos que isso é visto como fracasso e rejeição dos leitores”. Que tipo de leitor você tem em mente quando escreve? O objetivo do escritor contemporâneo é apenas entreter quem lê seus livros? Por que?

JPC: Quando escrevo um romance, o leitor é um animalzinho tão distante que não posso me preocupar com ele. Muito menos em entretê-lo. Na verdade, quero é fazer um pouco mais de sentido, contar a história que preciso e sobreviver até a próxima página. Sinceramente, não preciso de leitor algum para continuar escrevendo. Escreveria mesmo se não fosse publicado. Ao mesmo tempo, com o livro na rua, a parceria criativa que se estabelece entre o leitor e o autor é uma experiência incrível, altamente recompensadora. Enfim, são dois momentos muito distintos.
SF: O mercado é uma preocupação de meu editor, não minha. Não escrevo para vender livros, ou para ser reconhecido, ou para entreter alguém ou por qualquer outro motivo que não seja compartilhar o que sinto, que se consubstancia através de uma narrativa. A opinião de quem lê e a questão contábil fogem à minha alçada. Eu faço o que posso, nunca menos do que posso e às vezes até mais do que posso.

Você acha que o único dever do escritor é expressar sua visão de mundo? Por que? Se não é o único, quais são os deveres do escritor?

JPC: Nesse sentido, sou um liberal radical. Escritores não precisam ter dever nenhum. Eu posso esperar deles que escrevam com sinceridade, apuro e talento, mas não consigo ver isso como um dever. Cada um escreve — e lê — o que quer. O escritor não tem dever nenhum com ninguém ou nada que não seja sua própria inspiração. Eu, como leitor, vou ler o que me interessa, seja um clássico ou um almanaque. Tampouco tenho nenhum dever aí. Como se já não bastassem os impostos e a moral cristã… Que pelo menos na literatura sejamos livres.
SF: O dever do escritor, do ficcionista, é dar o melhor de si para desenvolver uma boa história. Se ela expressa ou não sua cosmovisão, bem, pode ser que sim, pode ser que não. Se ele quiser expressá-la, se deliberar nesse sentido, o que ele deve escrever não é ficção, mas uma tese, um ensaio, uma carta de intenções ou coisa parecida. Não se governa uma boa história, ela tem suas próprias leis.

A vontade de atingir a perfeição num texto, do gênero que for, é algo que persegue o autor? Por que? “O sonho do livro perfeito é, na verdade, o sonho da revelação perfeita de si mesmo”? Somente os escritores considerados gênios conseguem “dizer a verdade de sua própria concepção”?

JPC: Ninguém é capaz de dizer a “verdade da sua própria concepção” ou ter a idéia perfeita de si mesmo — isso simplesmente não seria humano. Acredito que, muito pelo contrário, a boa literatura é toda construída sobre as trevas, sobre o mau julgamento de si mesmo, sobre a ignorância em ser quem se é. Nesse sentido, a linguagem pode ser como a lanterna que ilumina a busca do escritor. O produto dessa busca é literatura. Ou melhor dizendo, o que sobra dessa busca: os rastros na estrada, as pegadas no caminho… Fazer uma ligação disso com qualquer idéia de “perfeição” me parece contraditório. Além do mais, André Gide já dizia que “é com bons sentimentos que se faz literatura ruim”…
SF: Os escritores verdadeiros — não os acidentais ou de ocasião — empregam seus recursos mais profundos, raspam a alma para que possam traduzir adequadamente o que os levou a escrever. A literatura é essa ponte e então ele deve construí-la de modo tão perfeito quanto possível, no limite de suas circunstâncias. Se a consecução dessa ambição equivale a uma possível revelação do que ele é, não sei. A resposta que busco é outra: se estou sendo fiel ao que senti. Mas o que senti não significa necessariamente o que eu sou, pois como ficcionista, posso sentir no lugar do Outro.

Para escrever o Fail better, Zadie Smith conversou com outros autores. Um deles disse que seria fascinante saber de escritores vivos o que eles acham que está errado com sua escrita ou como imaginavam seus livros antes de criá-los; ou seja, sugerir um “mapa de desapontamentos”. Como seria esse mapa para você? Mencionando algum texto seu (romance, conto, poema, etc.), quais seriam os aspectos principais?

JPC: Uma das poucas certezas que tenho na vida é que jamais vou conseguir concretizar exatamente o livro que imaginava no início da escritura. É isso, e só isso, que vai me fazer seguir escrevendo. Dito isso, a idéia de um mapa de “desapontamentos” perde totalmente o sentido. Cada vez que erro o alvo, um caminho novo se abre pra mim.
SF: Tenho certeza de que sempre faço o melhor possível. Posso me desapontar, talvez, com meu talento escasso, mas não com o que ele produz, que não poderia ser de outro calibre senão daquele que a espingarda suporta. Para compensar essas limitações, trabalho muito, espero, trabalho de novo e assim vou. Um de meus contos, eu o escrevi quando minha filha maior tinha seis meses. Só pude terminá-lo quando ela fazia sua residência médica.

2 comentários  


  1. Parabens pelas entrevistas.
    Gostei!!

    DO - 23/11/07


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