Noll: “Eu gosto do impuro”

05/07/08

Eu não escrevo com muita programação. Eu deixo que esses cavalos mentais me arrastem. Eu acho que é por isso que existe a crise seqüencial, a crise da seqüência daquilo que eu escrevo. Parece que as ações aparecem na pele do romance a partir de insurgências do escuro. Essas ações não são nem dominadas pelo próprio narrador. E eu acho que a vida é um pouco isso. A vida, às vezes, é um festival de acaso e é isso que eu tento mostrar, eu realmente me deixo levar. Depois, evidentemente, é que vou fazer um retrabalho, vamos dizer assim, dessa narrativa. Aí eu sou obsessivo na limpeza do texto. A limpeza do texto não é exatamente uma higienização do texto, muito pelo contrário. Eu gosto do impuro, daquelas palavras que vemos em porta de banheiro público. Mas evidentemente também que não sou um sujeito naturalista, eu não trago as palavras pornográficas para fazer uma festa com elas, não é isso. Elas têm de entrar como recurso estético literário tanto quanto as palavras mais nobres.

João Gilberto Noll no debate “Ficções”, também com a cineasta Lucrecia Martel, ontem na Flip.



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