Heller: “Não existe literatura feminina”
04/07/08
No blog da revista LER:
Há ou não há uma literatura feminina? O tema é recorrente, por mais que em cada debate, conferência, festa literária ou tertúlia se tente enterrá-lo de vez. Foi o que tentaram fazer as três escritoras convidadas para a mesa “Sexo, Mentiras e Videotape”, já com a noite a cair em Paraty. “Espero que seja a última vez que se fale de literatura feminina”, afirmou José Luís Peixoto, no papel um pouco atrapalhado de moderador. Não será, mas vale sempre a pena tentar. Cíntia Moscovich, escritora e jornalista gaúcha, prémio Jabuti por Arquitetura do Arco-Íris (2004), tentou através da ironia: “Se há uma literatura feminina, tem de haver uma literatura homossexual; se há uma literatura homossexual, tem de haver passiva e activa…” Gargalhada da audiência e gargalhada de Cíntia. “Sim, mas há um jeitinho feminino, sim…”, acrescentou. Inês Pedrosa tentou através da frase definitiva: “Tretas. Não existe literatura feminina. Existe é boa e má literatura. Tudo o que seja criar guetos — na arte, na literatura, na vida — é estúpido.” Zoë Heller, escritora e jornalista inglesa, finalista do Booker Prize em 2003 com Diário de um Escândalo (editado em Portugal pela Presença), tentou através de uma comparação: “Quando a mulher fala da experiência feminina, é colocada num gueto. Ouve-se muito: ‘Ah, essa é uma questão feminina’. Quando um homem fala da experiência masculina, o tema é universal.”
Heller tem razão. Quando uma mulher escreve, é preciso que isso seja avisado antes. Quando um homem escreve, é normal. Há, claro, uma diferença talvez no jeito (sim, deve haver melhor definição) de escrever — o que não impede, de forma alguma, uma mulher de escrever sobre temas unicamente “masculinos” até melhor do que um homem, por exemplo.
Até onde vai a mania de categorização do ser humano?
Porem tambem existe a categorizaçom como visivilizaçom duma minoria. Acho que uma cousa é a pretendida etiqueta “literatura feminina” e outra a etiqueta real “literatura de mulher”.
Mesmo assím a última funciona como umha arma de duplo fio: por uma banda há culturas e sistemas onde é preciso a visibilizaçom do facto de as mulheres nom escreverem, e por tanto é lícito e mesmo necessário que se destaque e promova a sua criaçom literária. Nesse sentido também há umha literatura homossexual com os mesmos objectivos de visivilizaçom (a distinçom activa/pasiva parece-me fruto dum desconhecimento e preconceito brutal sobre as prácticas homossexuais).
Porem essa categorizaçom nom deveria servir para criar guettos editorias, cousa que desactiva completamente a funçom de visibilidade.
O debate mais interesante é porem: se a teoria feminista di que o género nom é algo biológico, pode um homem fazer literatura de mulher?
Respondendo à sua pergunta, Mário, um homem pode sim fazer literatura de mulher. Citando apenas alguns exemplos, há uma infinidade de homens que colocaram a mulher e seus dramas em seus escritos, como a Ana Karenina de Tolstoi, a Madame Bovary de Flaubert ou a Lolita de Nabokov.