Nova mudança

07/07/08

Não é novidade que manter uma revista, mesmo que pela internet, não é algo fácil. A Malagueta nasceu mensal e passou a ser bimestral depois de algumas edições. Agora, é necessário que a publicação seja trimestral. Talvez um dia volte a ser até mensal, mas, pelo bem da revista, a periodicidade fica assim por enquanto. Portanto, a próxima edição será publicada em meados de agosto. Maiores informações serão dadas no editorial.

Bayard: “Essa opressão tem de ser eliminada”

06/07/08

Eu tentei mostrar no meu livro que existem livros que temos de ter lido, mas acho que cada um tem de descobrir os livros que tem de ler. Não é por causa dessa canonização de certos livros que você é obrigado a ler. Mas não estou falando contra a leitura. (…) E essa opressão que existe tem de ser eliminada. (…) Para cada livro, não temos de ler da primeira à última página, temos de inventar caminhos pessoais. Alguns livros vamos folhear, outros vamos direto para o final, outros vamos comprar e não ler imediatamente. Essa diversidade de caminhos acho que não é suficientemente transmitida pela instituições escolares e universitárias, porque existem pessoas que estão fora do livro e têm a impressão de que ele é um objeto sagrado, que você precisa de cuidado ao pegá-lo, que você tem que ler da primeira à última página. É isso que eu tento trasmitir. Claro que não é uma impossibilidade, não estou dizendo que a gente não deve ler. Deve ler, as pessoas devem ser grandes leitoras, e não ficar aterrorizadas com isso.

Pierre Bayard no debate “Os livros que não lemos” na Flip, hoje. Novamente é um trecho que não se pode ter certeza de algumas partes, mas é possível entender perfeitamente o que o escritor quis dizer.

Assim a Malagueta termina essa pequena compilação de citações de alguns escritores que participaram da Flip deste ano. E as atualizações do blog continuarão freqüentes.

Stoppard: “Localização perfeita das palavras comuns”

06/07/08

Acho que vale a pena nós nos lembrarmos de que existe também uma boa obra que é constituída pela localização perfeita das palavras mais comuns, das frases mais padronizadas (…), que pela sua função num determinado contexto, num momento específico, tem um efeito muito poderoso, potente, sobre tudo aquilo que a circunda.

Tom Stoppard na mesa (melhor dizer aula, uma bela aula) “Shakespeare, utopia e rock’n’roll”, ontem.

Nooteboom: “Apenas um leitor”

06/07/08

Todo livro tem apenas um leitor e é o leitor que lê aquele livro naquele momento, então um leitor à sua frente é o único leitor daquele livro.

Cees Nooteboom, ontem, na mesa “Paraíso perdido”. Também participou do debate o ex-colombiano Fernando Vallejo.

O trecho provavelmente deve ter sido um pouco diferente quando o autor o disse, mas assim foi dito na tradução simultânea.

Calligaris: “Uma forma de suspensão”

06/07/08

A escrita de romance pode praticar uma forma de suspensão. Embora totalmente explícita, pode deixar uma parte muito grande ao não-dito, que não significa uma perda de intensidade.

Contardo Calligaris na mesa “Fábulas italianas”, também com Alessandro Baricco, ontem na Flip.

Gaiman: “Um pesadelo no livro”

06/07/08

Diálogo real é um pesadelo no livro. É como um filme ruim de Andy Warhol: não vai pra lugar nenhum.

Neil Gaiman, ontem, na mesa “A mão e a luva” da Flip, também com Richard Price. A ótima mediação foi de Marcelo Tas.

Adichie: “Explorar como a guerra nos afeta”

05/07/08

Sobre romances africanos que tratam da guerra perpetuarem a idéia de que a África é um continente sem salvação (pergunta de Agualusa), a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie disse:

Para mim, é muito importante que eu escreva sobre o que eu quero escrever, o romance é meu. Pensei sobre isso recentemente. Só se ouve sobre os países da África quando alguém está morrendo, mas acho que, como escritora, sou atraída pelo lado obscuro do que significa ser humano e estou interessa em explorar como a guerra nos afeta.

Agualusa sobre Pepetela

05/07/08

O Pepetela, em Angola, é mais do que um escritor. É quase uma devoção, um lugar, uma referência cultural obrigatória.

José Eduardo Agualusa, mediador do debate “Guerra e paz” entre o angolano Pepetela e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Noll: “Eu gosto do impuro”

05/07/08

Eu não escrevo com muita programação. Eu deixo que esses cavalos mentais me arrastem. Eu acho que é por isso que existe a crise seqüencial, a crise da seqüência daquilo que eu escrevo. Parece que as ações aparecem na pele do romance a partir de insurgências do escuro. Essas ações não são nem dominadas pelo próprio narrador. E eu acho que a vida é um pouco isso. A vida, às vezes, é um festival de acaso e é isso que eu tento mostrar, eu realmente me deixo levar. Depois, evidentemente, é que vou fazer um retrabalho, vamos dizer assim, dessa narrativa. Aí eu sou obsessivo na limpeza do texto. A limpeza do texto não é exatamente uma higienização do texto, muito pelo contrário. Eu gosto do impuro, daquelas palavras que vemos em porta de banheiro público. Mas evidentemente também que não sou um sujeito naturalista, eu não trago as palavras pornográficas para fazer uma festa com elas, não é isso. Elas têm de entrar como recurso estético literário tanto quanto as palavras mais nobres.

João Gilberto Noll no debate “Ficções”, também com a cineasta Lucrecia Martel, ontem na Flip.

Laub: “Espaço de liberdade”

04/07/08

Mais Flip:

Ao longo dos anos, eu fui percebendo também que acaba sendo interessante você precisar ter um trabalho ou ter uma outra fonte de renda. Muita gente diz que isso acontece num sentido até psicológico, pra você não ficar muito, muito neurótico com a literatura — que é sempre uma tendência. Mas no meu caso, hoje em dia, eu acho que o principal fator positivo dessa situação é que a literatura acaba sendo pra mim o espaço que ela tem que ser mesmo, que é o espaço de liberdade.
[Veja o vídeo]

Michel Laub no debate “Primeiro tempo”, do qual também participaram Adriana Lunardi, Emilio Fraia e Vanessa Barbara.

Heller: “Não existe literatura feminina”

04/07/08

No blog da revista LER:

Há ou não há uma literatura feminina? O tema é recorrente, por mais que em cada debate, conferência, festa literária ou tertúlia se tente enterrá-lo de vez. Foi o que tentaram fazer as três escritoras convidadas para a mesa “Sexo, Mentiras e Videotape”, já com a noite a cair em Paraty. “Espero que seja a última vez que se fale de literatura feminina”, afirmou José Luís Peixoto, no papel um pouco atrapalhado de moderador. Não será, mas vale sempre a pena tentar. Cíntia Moscovich, escritora e jornalista gaúcha, prémio Jabuti por Arquitetura do Arco-Íris (2004), tentou através da ironia: “Se há uma literatura feminina, tem de haver uma literatura homossexual; se há uma literatura homossexual, tem de haver passiva e activa…” Gargalhada da audiência e gargalhada de Cíntia. “Sim, mas há um jeitinho feminino, sim…”, acrescentou. Inês Pedrosa tentou através da frase definitiva: “Tretas. Não existe literatura feminina. Existe é boa e má literatura. Tudo o que seja criar guetos — na arte, na literatura, na vida — é estúpido.” Zoë Heller, escritora e jornalista inglesa, finalista do Booker Prize em 2003 com Diário de um Escândalo (editado em Portugal pela Presença), tentou através de uma comparação: “Quando a mulher fala da experiência feminina, é colocada num gueto. Ouve-se muito: ‘Ah, essa é uma questão feminina’. Quando um homem fala da experiência masculina, o tema é universal.”

Heller tem razão. Quando uma mulher escreve, é preciso que isso seja avisado antes. Quando um homem escreve, é normal. Há, claro, uma diferença talvez no jeito (sim, deve haver melhor definição) de escrever — o que não impede, de forma alguma, uma mulher de escrever sobre temas unicamente “masculinos” até melhor do que um homem, por exemplo.

Até onde vai a mania de categorização do ser humano?

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