Marçal Aquino e Luiz Antonio de Assis Brasil
19/11/07
A Revista Malagueta começa, a partir de hoje até dia 30 deste mês, uma entrevista com treze escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. As próximas serão nos dias 21, 23, 26, 28 e 30 deste mês. No último dia, serão publicadas as respostas de três escritores.
Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.
Marçal Aquino e Luiz Antonio de Assis Brasil
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Marçal Aquino: Aquele que quer escrever (mesmo que seja mal) precisar ler. Ler. E ler outra vez. É a única possibilidade.
Luiz Antonio de Assis Brasil: Eis um tema que tenho discutido muito com meus alunos, e nossas respostas são circulares e pouco eficientes. No máximo chegamos a algumas idéias algo desconexas, mas complementares. Não basta escrever bem, naturalmente. É preciso muito mais: é preciso que o texto seja “acreditável”, isto é: que o leitor, já na primeira frase, saiba que está perante um texto literário de qualidade. Essa credibilidade se expressa em algumas condições que revelam um autor a) consciente dos seus recursos técnicos; b) que saiba do tema que está a falar; c) que não subestime o leitor ao abastardar seus textos, a título de “melhor comunicação”; d) que evite o transparecer de seus artifícios textuais; e) que revele fazer parte da tradição literária, mas sem deixar-se sufocar por ela.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
MA: Sou, obrigatoriamente, o primeiro leitor do meu próprio texto. Então é indispensável que qualquer texto me agrade. Caso contrário, não compartilho com ninguém. Por que faria isso com um texto que não me satisfez? Prezo muito a boutade do Heinlein: “Não há nada de errado em escrever; mas faça-o em silêncio. E lave as mãos depois”.
LAAB: Minha resposta a essa pergunta, no decorrer do tempo, sofreu alterações substanciais. Quando comecei a publicar, há 31 anos, eu escrevia para sair do anonimato; como não era rico nem belo, sobrava-me um sobrenome famoso de família tradicional do Sul — uma escassa e inútil glória, como se percebe. Pois bem: saí do anonimato, ótimo. Os jornais locais falavam em mim, eu dava entrevistas, etc., o que se sabe. Lentamente — muito lentamente — fui percebendo que notoriedade alguma preenche a vida. Dediquei maior atenção a meu texto, e vi que este era longe de ser aceitável. Passei a dedicar-me a não repetir receitas. Há cerca de uma década, repensei tudo da minha literatura e recomecei do nada. Alterei radicalmente o meu “estilo”, à busca de maior sobriedade e expressividade. Meus romances encolheram. Foi então que publiquei O pintor de retratos, A margem imóvel do rio e Música perdida, que me renderam os maiores prêmios da minha carreira (Jabuti, Portugal Telecom, etc). Aí não me importava mais a notoriedade. Interessa mais que meu texto agrade a mim mesmo, antes de mais nada. Escrever um bom parágrafo pode levar uma semana, mas a satisfação é insuperável. Equivale a um prêmio. Os meus leitores tradicionais (se é que os tinha), não me entenderam bem, e tenho a convicção que atualmente meus livros vendem menos do que no passado — mas isso não me incomoda. Sei que estou em paz com a minha consciência literária.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
MA: Nunca considerei um trabalho meu um fracasso. Isso não aconteceu até hoje. Até porque eu interrompo a escrita muito antes de chegar a essa conclusão.
LAAB: Realmente, gostar ou não gostar do próprio texto significa imergir na subjetividade; é preciso pensar: gosto do meu texto porque meu texto agrada aos outros ou gosto do meu texto porque ele agrada a mim? Responderei afirmativamente à segunda pergunta. Pode ser um certo narcisismo, ou auto-suficiência, algo do gênero. Fracasso, para mim, seria chegar ao fim de um romance e concluir que não vale a pena publicá-lo. Isso já aconteceu; pode acontecer novamente.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
MA: Tenho pouco apreço por essa história de “estilo”. Estilo, no fundo, é limitação. Afinal, todo escritor escreve da melhor maneira possível, ou seja, no limite de suas possibilidades.
LAAB: Sim, a liberdade de criação é intocável, e com isso digo uma platitude. A crítica só se equivoca quando quer ensinar o escritor a escrever. De resto, a crítica séria deve ser lida e meditada, e não ignorada — mas jamais respondida. O escritor não deve justificar-se, jamais. Se o crítico não viu qualidade num livro, não irá vê-la através de uma justificativa — se for um crítico sério, naturalmente.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
MA: Não sei até que ponto a personalidade conta na hora de escrever. Me parece mais certo pensar que cada um escreve de acordo com suas crenças.
LAAB: Tudo deriva da “personalidade” (vamos aceitar esse termo curioso). A obra é realizada por alguém, um sujeito histórico dotado de saberes, de técnicas, de experiências pessoais e culturais etc. E isso transita para a obra. No fundo, qualquer escritor é um escritor de si mesmo, e assim escreverá — sobre si mesmo — até o fim. Por isso nenhuma obra é definitiva. Sempre será um ensaio da escrita daquela obra desejada num plano, até— digo eu — metafísico.
Os autores que, como Smith escreveu, fazem parte da geração pós-moderna foram criados para pensar que autenticidade é algo insignificante. O que faz um escritor ser autêntico hoje em dia? A recorrência ao clichê pode ser considerada parte de um possível fracasso? Por que?
MA: Recorrer ao clichê sempre me pareceu condenável. A autenticidade de um escritor, na minha opinião, está em outro lugar. Falo da “verdade literária” de cada texto. Isso me parece muito mais importante: a capacidade que um escritor tem de instaurar algo e fazer com que pessoas que ele não conhece acreditem que aquilo é real. Está feita a mágica.
LAAB: A geléia-geral da pós-modernidade é uma das fraudes intelectuais que ainda fascinam os deslumbrados. Essa a vaca sagrada contemporânea é um imenso guarda-chuva do vale-tudo: pastichos, plágios, viagens pessoais, referências cult, bricolagens, falta de inspiração etc. Criem-se romances sem história, personagens sem conflito, conflitos sem personagens, acrescentem-se clichês assumidos, embrulhe-se tudo num estilo impecável e refinado — com espaço para alguma suave escatologia a título de captatio benevolentiae —, polvilhe-se com uma boa dose de cinismo explícito e midiático e teremos a mágica da literatura pós-moderna. Faltando personagens, faltando conflitos, faltando história, (a pós-modernidade, antes de mais nada, é domínio do não-ser), que os autores não se queixem da falta de leitores.
No ensaio, a autora diz: “No mercado da ficção contemporânea, o escritor precisa entreter e ser reconhecível, menos que isso é visto como fracasso e rejeição dos leitores”. Que tipo de leitor você tem em mente quando escreve? O objetivo do escritor contemporâneo é apenas entreter quem lê seus livros? Por que?
MA: Não tenho nenhum leitor em mente quando escrevo. Escrevo pra mim. Sou aquele que tem de ser convencido em primeiro lugar de que vale a pena compartilhar aquele escrito com outras pessoas. É absurdamente redutor considerar que o escritor contemporâneo pensa apenas em entretenimento. Talvez existam escritores com esse tipo de postura, mas não são, certamente, aqueles que amo, respeito e releio.
LAAB: O escritor contemporâneo (digamos, o pós-moderno) jamais diz que seu objetivo é entreter seus leitores, jamais! Isso é obsceno. O escritor pós-moderno quer é fazer alta literatura e, ao mesmo tempo, estar na mídia. Quanto a mim, tenho em mente uma espécie de leitor: alguém parecido comigo; fosse diferente, seria uma perfeita esquizofrenia. Sim, é possível que meu leitor se entretenha, mas que mal há nisso? Afinal, ninguém lê para ser torturado.
Você acha que o único dever do escritor é expressar sua visão de mundo? Por que? Se não é o único, quais são os deveres do escritor?
MA: O escritor não tem dever nenhum, a não ser escrever bem, no limite de suas possibilidades. Literatura é algo que deve ser praticado com absoluta liberdade. Ou então não vale a pena. Quem escreve, mesmo que não queira, vai acabar expressando uma visão de mundo.
LAAB: Dever algum, a não ser o de fidelidade a sua própria literatura. Passou o tempo da literatura “com mensagem” — e curiosamente certos professores ainda querem extrair de seus alunos uma leitura teleológica — quando não axiológica! — dos romances a que obrigam à leitura. Temos de reverter o quanto antes esse erro, que me faz lembrar algumas de minhas professoras do ensino fundamental. Com essa atitude, os professores só podem esperar rancor à literatura por parte dos alunos.
A vontade de atingir a perfeição num texto, do gênero que for, é algo que persegue o autor? Por que? “O sonho do livro perfeito é, na verdade, o sonho da revelação perfeita de si mesmo”? Somente os escritores considerados gênios conseguem “dizer a verdade de sua própria concepção”?
MA: Não acredito em perfeição. Ou melhor: acredito que isso se reserva apenas a poucos escritores. Aqueles que instauram mundos e servem de referência para o resto da manada de escribas, na qual com muita humildade me incluo.
LAAB: Jamais uma obra é plenamente satisfatória a seu autor: falta-lhe um quê indefinível, algo que lhe dê perenidade e inteireza. Daí que começar a escrever um livro é recomeçar a busca da expressão perfeita, aquela consagradora, aquela que represente, com total fidelidade, as intenções iniciais de sua escritura. Todo escritor consciente sente-se insatisfeito com sua obra. Em certos momentos, detesta-a. Noutros, acha-a melhorzinha — e assim vai seguindo sua vida. O melhor livro de uma carreira, na sensibilidade infantil e mágica do escritor, é aquele que ainda não escreveu. Escreve-a, decepciona-se; quer logo começar outro livro. Até que um dia tudo isso termina, e começa o papel dos acadêmicos.
Para escrever o Fail better, Zadie Smith conversou com outros autores. Um deles disse que seria fascinante saber de escritores vivos o que eles acham que está errado com sua escrita ou como imaginavam seus livros antes de criá-los; ou seja, sugerir um “mapa de desapontamentos”. Como seria esse mapa para você? Mencionando algum texto seu (romance, conto, poema, etc.), quais seriam os aspectos principais?
MA: Nenhum livro meu saiu do jeito que eu o imaginava antes de escrevê-lo. Mas não chega a ser um desapontamento. Até porque escrevo com uma falta de método esplêndida: nunca sei o que vai acontecer de antemão; vou descobrindo minhas histórias à medida que vou escrevendo. É o melhor momento, por sinal, aquele em que tenho de alegrar o leitor que sou.
LAAB: O desapontamento é o dia-a-dia do escritor. Tudo isso decorre dos golpes que o sonho recebe em contato com a realidade. Ao idealizar uma obra, ela é sempre grandiosa, indefinida, magnífica, soberba. Chega um momento, porém, em que é necessário dar nomes às personagens, escolher os espaços da trama, o tempo, enfim, tudo isso que se denomina de “a cozinha da criação”; são os necessários limites ao sonho, o qual se reduz a uma ínfima centena de páginas.
Genial. Acompanharei a série.
Muito lúcidas e instigantes as respostas de Luiz Antonio de Assis Brasil. Li recentemente o Música Perdida, um ótimo livro, e não fico surpreeso ao encontrar a mesma qualidade na entrevista.
Não concordo com a opinião de que todo escritor vivencia a sua escrita de maneira ensimesmada. Para mim, os melhores autores são aqueles que permitem que o alheio os atravesse. E daí ressurgem, regendo um coro.
Luiz Antonio de Assis Brasil não faz justiça a seus primeiros textos. Li cada um deles - todos - e gostei/gosto (porque releio) imensamente de cada um. É um escritor de quem sempre se espera o próximo livro. (Está bem, está bem, confesso: não gostei de O homem amoroso.)
Romilda, o que quer dizer exatamente não fazer justiça aos primeiros livros?
Ufa, acabei de ler todas as estrevistas e, certamente, as respostas mais lúcidas são as do Assis Brasil.
Parece que a experiência (tanto de vida, quanto literária, quanto acadêmica) serviu para levá-lo a um entendimento de literatura que poucos autores demonstraram em suas respostas.
[...] Marçal Aquino e Luiz Antonio de Assis Brasil [...]
Infelizmente ainda , não li os livros dos autores acima citados.
Gostei da entrevista, que mostra um pouco de como cada um pensa e mais da forma com que Marçal Aquino se expressou na entrevista.
Acho que aqui dentro nasce uma admiração por esse tal Marçal… Ainda não sei bem o que é, mas espero descobrir. Devo ler.