Santiago Nazarian, Paulo Polzonoff Jr. e Sérgio Rodrigues
A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores e hoje publica as respostas dos últimos três escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações foram feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma teve as respostas de dois escritores, com a exceção da última.
Santiago Nazarian, Paulo Polzonoff Jr. e Sérgio Rodrigues
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Santiago Nazarian: Eu não saberia responder. Não acredito em fórmulas, por isso mesmo nunca me propus a participar ou ministrar oficinas. Acho que cada escritor encontra sua maneira de lidar com a escrita. Alguns fazem por prazer, outros sofrem, alguns escrevem de forma ligeira e espontânea, outros passam dias pesquisando, relendo e reescrevendo um parágrafo. Também não sei o que seria exatamente “caráter”, se for um sinônimo de “personalidade”, pode ser, mas também não sei como isso pode ser avaliado. Afinal, personalidade todo mundo tem, seja ela expansiva, tímida, introspectiva, turbulenta ou o que seja.
Paulo Polzonoff Jr.: Para escrever bem é preciso domínio da língua, para início de conversa. A partir daí, é preciso, sim, caráter, honestidade intelectual. É curioso: do mesmo jeito que qualquer pessoa com dois neurônios é capaz de distingüir um canastrão em uma peça de teatro, um leitor preparado é capaz de perceber quando o livro, mesmo o bem escrito, com todos os pingos nos is, carece desta qualidade chamada honestidade. Não que o autor seja desonesto propositadamente; é que ele, em geral, é incapaz de perceber, em si, a falta do fator x, para ficarmos num termo pop.
Sérgio Rodrigues: Se entendi o que ela quis dizer, concordo em parte. A boa literatura não se esgota numa técnica, na capacidade de construir um objeto lúdico, é preciso ter algo digno de nota a expressar, uma determinada visão de mundo. Certo. Mas eu não iria tão depressa do talento ao caráter, essa estrada é esburacada e cheia de armadilhas. Está provado que existem gênios de péssimo caráter, como existem pessoas boníssimas que só escrevem banalidades. Um defeito pessoal, como a misantropia ou o pessimismo doentio, pode tranqüilamente ser convertido em qualidade por um escritor. Não acho que existam regras aplicáveis a todos os casos.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
SN: Acho que não, não é preciso saber por que se escreve. Acredito até que bons escritores possam ser motivados pela necessidade de auto-afirmação, pelo orgulho, para serem reconhecidos. Mas não é isso o que mais me motiva. Me motiva mais é poder criar histórias, personagens, conviver com eles, expressar um universo interno. Antes de tudo, sinto um enorme prazer ao escrever — e isso vai desde o simples ato de digitar, que eu considero terapêutico. Então posso não saber exatamente por que escrevo, só sei que isso me dá prazer.
PP: Principalmente no nosso tempo, se a pessoa se perguntar por que e para que escreve, corre o risco de ficar louca. Aprendi, depois de muito apanhar, que a gente escreve simplesmente porque precisa. É um lugar-comum horrível e acho que a maioria das pessoas que o repete não tem a menor idéia do que esta necessidade representa de fato. Muitas até fingem esta necessidade. Ou a confundem com uma necessidade financeira ou de loas. E, bem, quem escreve por esta necessidade íntima, impossível de se confundir com suas primas pobres, como a vaidade e a ganância, sabe o que quer com a escrita. Agradar ou satisfazer? Depois de escrito o autor não deveria se preocupar com isso. Aliás, às vezes tenho a impressão de que a preocupação do autor com a repercussão do que escreve está entre os sinais mais evidentes de desonestidade intelectual — que não tem nada a ver com falta de caráter.
SR: Acho que foi no discurso do Nobel que Orhan Pamuk deu uma ótima resposta a essa clássica pergunta do “por que você escreve”: enfileirou duas mil razões, todas parciais, mas que compõem um painel com o maior jeitão de verdadeiro. Porque, naturalmente, nunca será uma razão única. Eu diria que uma certa conformação de neuroses é fundamental. Quando escrevo, estou procurando em primeiro lugar satisfazer um leitor muito exigente, muito chato, impaciente e ditatorial, que sou eu mesmo. Quando finalmente consigo, em geral estou cansado demais para pensar em outra coisa, e dou o trabalho por encerrado.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
SN: Não saberia dizer “apenas como leitor” porque jamais serei apenas leitor. Mas mesmo como leitor-escritor posso considerar alguns trabalhos meus como um fracasso, mas tenho o bom senso de não tentar publicar esses. Tenho alguns romances engavetados sim, que provavelmente ficarão na gaveta, porque não acho que tenham sido bem sucedidos. Quanto aos publicados, todos cumpriram uma função para mim, tiveram seu espaço, leitores que se identificaram… Gosto mais de uns do que de outros, é verdade, mas não me arrependo de ter publicado nenhum dos quatro.
PP: Quando escrevo qualquer coisa, acontece um fenômeno que ainda está sendo discutido entre mim e meu analista: eu esqueço o que escrevi. Esqueço completamente. Tanto é assim que, às vezes, eu pego um texto algo mais antigo, digamos, de três meses atrás, e ele me parece escrito por outra pessoa. E, quando descubro que ele foi escrito por mim, começa o segundo fenômeno curioso: a purgação. Não gosto do que escrevo. E, se me permite um conselho, duvide sempre da qualidade de um autor que gosta demais do que escreve.
SR: Não concordo com a idéia de que o escritor tem uma “desonestidade natural”. Para consumo externo, talvez, confundindo-se com a vaidade. Mas escrever é um trabalho solitário demais e ingrato demais para que esse tipo de auto-engano prospere livremente, a menos que a gente esteja falando de picaretas. De certa forma, tudo o que eu já escrevi — e o que vou escrever um dia — é um fracasso parcial, porque tem sempre aspectos exasperantes e inconclusos. Como temos que mirar o absoluto, o perfeito, mas trabalhamos o tempo todo com o contingente, o possível, a insatisfação é parte da brincadeira. É preciso conviver com isso. Mas também existem os aspectos embriagantes, os triunfos, as batalhas vencidas com esforço e astúcia — claro, do contrário o texto teria ido parar na lata do lixo. A autocrítica é o maior aliado do escritor.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
SN: Acho que os autores sentem mais necessidade de se defender quando sentem que o “crítico” foi injusto, trabalhou com inverdades, teve motivações extra-literárias para atacar o trabalho. Isso aconteceu poucas vezes comigo, mas não pude deixar de me defender. Já quando a crítica é negativa, mas passa seriedade, é melhor o autor não questionar. Isso também já aconteceu. É claro que não posso concordar com uma crítica negativa, eu publico meus livros porque os considero de qualidade, mas sei que isso é um valor relativo, algumas pessoas podem enxergar minha obra de outra forma.
PP: Não há limites para a liberdade estilística. Novamente, insisto: ao escritor cabe escrever da melhor maneira possível; ao leitor/crítico, cabe ler, analisar, dar opinião. O escritor, depois de ter o lido escrito e publicado, não tem o direito de defender sua obra do que quer que seja. Simplesmente porque cada leitor lê um livro de um modo. Se o escritor escreveu um livro para ser lido de um modo específico, bem, acho que ele está na atividade errada. Arte pressupõem múltiplas e díspares interpretações. Esta é a graça da coisa.
SR: Cada um sabe de si, mas, salvo casos extremos ou intervenções pontuais para esclarecer mal-entendidos, não gosto da idéia de escritores saírem a campo para defender seus livros. Mesmo que uma crítica ou outra seja exasperadora, por parecer, sei lá, completamente sem noção ou levianamente maledicente, acho que o autor não é a pessoa mais indicada para rebater isso. O próprio jogo das opiniões tem um lado autocorretivo saudável: é difícil que, a médio prazo, grandes besteiras críticas vinguem. Se um escritor quer lutar por um estilo, uma escola, um certo jeito de fazer literatura, ótimo. Mas acho que fará melhor atuando como paladino de outros autores que tenham a mesma orientação. Até por uma questão de credibilidade. Por mais que você os ame, fazer o elogio de seus próprios filhos é constrangedor.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
SN: Não, acho que a personalidade é indispensável, e ela que traz o valor individual de uma obra, a marca do artista. Sem artista não há arte. Sem personalidade não há artista. Mas claro, trabalhar com a personalidade não é trabalhar com detalhes biográficos, simplesmente com as maneiras de processar a informação, com o repertório e com os ideais.
PP: Pergunta complicada porque parece exigir uma resposta objetiva. Bem, posso respondê-la falando de mim — e apenas de mim. Eu percebi que meus personagens tinham muito de mim aos 20 anos. De lá para cá, tenho trabalhado penosamente para me desligar dos personagens, para dar a eles uma vida e um olhar diferentes dos meus. Acho que isso é criação. Mas há de se levar em conta que vivemos tempos ególatras. Então, tudo está muito poluído. Ainda mais no Brasil, onde escrever é considerado uma atividade inata, um dom que não exige estudo, apenas talento. Acho que a maior parte dos escritores, sobretudo os jovens, não pensa no tal processo criativo — o que é uma pena. A literatura ganharia muito com este filtro.
SR: Se entendi bem, acho que a questão está mal colocada. Acredito que, mesmo tentando fugir ou se alçar acima de sua personalidade, o escritor que tem voz própria continuará preso nos meandros dela, porque suas estratégias de fuga ou de abstração também vão refleti-la, inevitavelmente. Sendo assim, me parece falso esse embate personalidade x não-personalidade. No meu modo de escrever, por exemplo, o umbigo tem uma participação muito pequena. Mas o fato é que, autobiográfico ou não, memorialístico ou não, um escritor sempre vai se revelar de maneira quase escandalosa no que faz, por mais que tente se esconder. Nesse sentido eu concordo com Zadie Smith, mas não compreendo muito bem sua conclamação para que os escritores “se coloquem” em seus livros. Não porque discorde disso, mas porque esta me parece uma condição tão básica do escrever (do escrever com ambição estética, claro) que nem merece discussão. O risco de bater demais nessa tecla é o de terminar “psicologizando” a literatura, que tem suas próprias leis e, no fim das contas, está se lixando para a personalidade do autor.
Mariana Ianelli e Cíntia Moscovich
A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. A próxima será no dia 30, sexta-feira.
Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.
Mariana Ianelli e Cíntia Moscovich
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Mariana Ianelli: Escrever com o corpo todo, numa aposta vital, é algo que vai muito além da técnica, bem como da moral individual, e supõe uma abertura para o incalculável. Henry Miller disse uma vez que “os livros que lemos são determinados por aquilo que somos”. O mesmo se dá com os livros que escrevemos, no sentido de que tudo o que nos faz ser o que somos, habilidade, caráter, inteligência, coração, enfim, tudo isso comparece no ato da escrita e, no entanto, nada disso por si só é capaz de garantir um bom trabalho. Um grande livro, a meu ver, prescinde de justificar-se por esta ou aquela qualidade de um homem por trás do escritor, até porque, o que nele pode haver de melhor, em geral, escapa aos limites da sua própria individualidade. Sem dúvida cabe ao escritor responder às exigências da linguagem. Como diz Octavio Paz, “a moral do poeta é verbal: é lealdade à palavra”. Acontece que a escrita contempla esse organismo vivo que é a língua e sua participação na saúde ou na agonia da memória, da imaginação, da história, enfim, de toda uma cultura de uma civilização. Cabe, pois, ancorar a palavra na vida, essa matéria ao mesmo tempo tão volátil e tão nítida que dá à literatura o sangue de uma outra realidade incompatível com a ordem do senso comum. O engajamento no humano, o estar no mundo e ser com os outros são forças que abraçam a experiência literária e a tensionam, de modo que ser leal à palavra significa ainda lealdade àquilo que a palavra ela mesma não pode nomear senão por essa fresta onde acontece a poesia, na coragem de amar.
Cíntia Moscovich: Não posso dizer com certeza que escrever seja, de fato, “questão de caráter”. Mas, certamente, é questão de habilidade e como tal é tratado entre os escritores — sendo tal habilidade uma das muitas coisas cobiçadas por todos. No entanto, “escrever bem” é só uma parte do trabalho literário, e disso também se sabe sobejamente. Em verdade, verdade mesmo, “escrever bem”, no sentido do trabalho literário, é a junção de vários fatores. Ou de várias virtudes ou de várias características, nem ruins nem boas. O escritor sabe que para fazer seu trabalho precisa de paciência, longa, longuíssima, ainda que ardente. E de muita, muita, mas muita, humildade, no sentido de nunca se considerar auto-suficiente e imune ou acima de qualquer crítica ou sugestão. Paciência e humildade, por si, não formam um escritor, é claro. Porque, acima de tudo, e tocamos no miolo da questão, para escrever o indivíduo precisa ter um olhar oblíquo, quase cínico, sobre os fatos da vida. Escritor algum é inocente, embora a literatura esteja eivada de bons sentimentos e de bom-mocismo. Não conheço nenhum escritor que acredita em tudo o que vê e ouve, a incredulidade e a dúvida são os motores da literatura. O problema todo é transmitir ao texto esse humour (chamemos assim), traduzir em palavras o que é apenas uma sensação de deslocamento frente aos acontecimentos que rendem histórias. Aí entra a habilidade com a palavra, o conhecimento do vernáculo para encontrar a palavra justa, que caiba naquilo sugerido pela percepção. E, já que se fala em percepção, o escritor precisa muito e muito de ter boa memória. Não para lembrar nomes e datas, mas para reviver o que sentiu — e o que ele sente, muitas vezes, é uma espécie sadia de hiperestesia, um acúmulo de reações intensas frente a estímulos que, banalmente, talvez sugerissem muito pouco a menos avisados. Talvez seja isso. Mas é necessário muito mais. Porque, e talvez responda à segunda parte da pergunta, a literatura é sempre o mais importante da vida, o principal, o lugar para onde todas as experiências convergem. Em suma: o escritor é um maníaco. E isso talvez nem seja virtude.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
MI: Por não saber, eu diria, é que se escreve. E é essa aposta de risco, esse enigma justamente o que move o escritor, que o seduz e o ensina mais sobre si mesmo do que ele pensava já saber ou ser capaz. Escreve-se pelo inesperado que abriga a linguagem, pelo desconhecido que abriga o outro, pelo aceno de um encontro. O livro, para que se mantenha vivo, vai à procura dos leitores, um a um. Não espero agradar nem me satisfazer escrevendo, mas aposto no encontro, e que ele seja vertiginoso, de uma felicidade intensa e, quem sabe, perturbadora.
CM: Não, não é preciso saber por que se escreve. Porque nunca se sabe ao certo porque se escreve e saber porque se escreve não faz a menor diferença. Posso responder que se escreve para ser lido, para ler e pela pura necessidade da escrita, porque nada disso é excludente em relação à própria literatura. O escritor escreve para ser amado (isso quem me disse, com essas palavras, foi o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, que tem uma oficina de criação literária maravilhosa). Enquanto escrevo, preciso, a um só tempo, agradar meu leitor, seja quem for, e, claro, me satisfazer. E não sei bem porque escrevo. Só sei que é preciso.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
MI: Não vejo como dissociar escrita, leitura e autocrítica quando trabalhamos. Tampouco entendo por que a superficialidade do crítico seria necessária. A disposição para o silêncio na poesia, por exemplo, pode decantar mentalmente muitos excessos antes que um verso seja escrito. Por outro lado, nem sempre o escritor é o melhor leitor de sua obra, ou o melhor crítico, daí porque, apesar do maior zelo, nenhum trabalho está completamente a salvo do fracasso. A princípio, dois tipos de leitura de uma obra me parecem fundamentais para evitar um falso juízo ou uma interpretação precipitada: a leitura da obra ela mesma, na sua unidade orgânica, sem ignorar sua inserção no tempo e no espaço da literatura; a leitura da obra como parte de um processo bem mais amplo e indiscernível de construção, cujo mapeamento depende de uma visão de conjunto dos caminhos que o escritor percorreu até desembocar em uma linguagem que lhe é particular. Quando penso no meu primeiro livro, Trajetória de antes, passados já oito anos, a imagem que me vem é a de uma fruta colhida antes do tempo, como o próprio título já previa. E, no entanto, foi esse mesmo livro, com todos os seus desacertos, que me permitiu ir adiante. Não se trata apenas de aceitar uma obra por responsabilidade, mas de assumir os desdobramentos de uma vivência que jamais abole o risco do erro, muito ao contrário, que ousa errar sem ser gratuita, sem recuar diante do desconhecido ou do difícil. O sucesso ou o fracasso de um livro, a meu ver, em grande parte envolve esse gesto de coragem, que nada tem a ver com desonestidade.
CM: Existe, sim, a possibilidade de considerar muito do que eu escrevo e volto a ler um fracasso. Já pensei que era fracasso quase tudo o que eu escrevi e publiquei. E só publiquei porque, em releituras e reescrituras sucessivas e em consultas a leitores que prezo, fui mudando de opinião, até gostar, me apaixonar e, passado esse estado de paixão, amar. Amar mais ou menos como se ama um amigão do peito, com o qual a gente pode contar. Só que amar o texto não é igual a amar gente: nas pessoas, a gente ama apesar dos defeitos. O texto que se escreve só pode ser amado se a gente identifica o erro e sabe como, na próxima vez, evitá-lo. Por ser responsável pelo meu texto é que nunca acho bom o resultado a que cheguei, mesmo sabendo que, ao menos em teoria, jamais repetirei os erros cometidos. Desejo profundamente que tudo o que eu escrevo me ultrapasse e sobreviva. Talvez eu não concorde com Zadie Smith. Eu sei, de fato sabido, que a “desonestidade natural” do escritor nunca se dá com seu próprio texto. O escritor pode até ser leviano lendo textos alheios, mas ele lê com seriedade, quase crueldade, o que ele mesmo escreveu. Muitos autores que conheço comprovam o que vou dizer a seguir: o sujeito que ama e perdoa os deslizes de seu próprio texto é um medíocre. Um boçal. A glória narcisista do autor, que existe, se dá em outro momento, que é o de ver seu livro em livrarias ou seu nome na imprensa. Quando as pessoas amam, enfim, o que o autor escreveu. Mesmo que se ame incondicionalmente o próprio texto, como disse antes, não se perdoa o que nele é ruim e supérfluo. A grande obra-prima sempre está por vir. Quem ama de imediato, quem se jacta, quem é seguro sobre o que faz, vive de onanismo.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
MI: Não creio que um livro necessite justificar-se ou que um escritor tenha de sair em defesa do seu estilo. Quando não vêm para autopsiar ou encamisar uma obra, explicações podem dizer muitas coisas a seu respeito, nenhuma, porém, em que a obra deva se apoiar para suprir uma falta. Na minha opinião, só o poético responde suficientemente à poesia, na medida em que preserva, no seu modo singular de dizer, sua indeterminabilidade fundamental. Os limites da criação são os que a própria obra, dentro do processo criativo, impõe como responsabilidade ao escritor, e que existem não para constrangê-lo, mas para informar sua liberdade. O poeta tem da beleza o óvulo da forma, não as formas de aprisionar. Dos limites, o limite que a luz lhe dá.
CM: Não sei como responder. Nunca vi ninguém que eu respeite justificando estilo. Estilo, aliás, é coisa que nem se sabe direito o que é. Não que eu creia que, na defesa do próprio texto, o escritor seja sempre verdadeiro. O que, de fato, o escritor preza e defende é sua liberdade, um bem supremo. Não a liberdade de fazer besteiras, mas a de criar sem censuras, dentro de um sistema ético e moral próprio. Agora: quando o escritor tem que justificar seu texto, um dos dois, autor ou texto — ou ambos — é muito ruim. O texto tem de se manter de pé sozinho, sem bravatas ou xingamentos. À liberdade expressiva sempre corresponde a liberdade interpretativa, que é do outro. O escritor foi para a chuva, agüente se molhar. Se não suporta os fatos implicados no fazer literário, melhor que se dedique à agronomia.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
MI: Convém ampliar um pouco o foco da citação para compreender o que realmente diz T.S.Eliot no seu ensaio, pois quando ele fala em fugir da emoção, está se referindo à tarefa de trabalhá-la no nível poético, de servir-se dela como matéria-prima na criação de uma emoção nova, transfigurada, livre do âmbito exclusivamente pessoal da personalidade, ou seja, ir além do pessoal (e não simplesmente descartá-lo) empregando-o no aperfeiçoamento do trabalho literário, de modo que a obra seja fruto de uma combinação inesperada de “experiências e impressões”. A meu ver, essa despersonalização que propõe T.S. Eliot remete àquele formidável exercício de metamorfose que Elias Canetti reclama para a poesia moderna ao dizer, em um discurso intitulado O ofício do poeta, de 1976, que tanto mais um poeta abrirá suas “vias de acesso entre os homens” quanto mais ele for capaz de se transmudar em um outro, como Ulisses no palácio de Alcino, disfarçado de mendigo, narrando suas aventuras sem que os convivas saibam quem ele verdadeiramente é. Esse exercício camaleônico, digamos assim, não significa de modo algum uma artificialização do trabalho artístico, mas uma expansão do consciente para o indeterminado, uma abertura para o surpreendente, o desconhecido. O poeta faz que um outro surja e fale em seu lugar e esse outro não é apenas qualquer homem que ele, poeta, possa ser, mas também aquele outro que o poema procura para existir, ter um corpo e um rosto próprio, o rosto e o corpo de um leitor. Vejo nesse processo de metamorfose o coração da grande poesia.
CM: A literatura é a expressão de uma fuga às avessas da realidade. Isso é um jogo de palavras, claro. Mas a literatura não é a expressão da personalidade do autor. É preciso que o autor trabalhe com tudo o que tem à mão, sua própria personalidade, inclusive. Mas o autor precisa ser solidário com seus personagens, saber como eles são e se comportam, e não ficar reproduzindo a si mesmo. É bom que o autor saia de seu próprio umbigo durante a criação, embora mesmo essa saída, esta tentativa de evasão, se vá transformar nele, naquilo que faz dele um ser humano que é escritor. O importante é o processo e não o resultado a que se chega.
Daniel Galera e Milton Hatoum
A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. As próximas serão nos dias 28 e 30 deste mês. No último dia, serão publicadas as respostas de três escritores.
Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.
Daniel Galera e Milton Hatoum
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Daniel Galera: Não entendi bem o que seria uma “visão de literatura”, mas concordo com o que diz a Zadie no sentido de que escrever exige muito mais do que técnica. A técnica, na verdade, é instrumento para satisfazer uma necessidade de expressão que se resolve numa combinação meio paradoxal de egoísmo e compaixão. Bons escritores sempre me dão a impressão de terem partido de uma necessidade egoísta para chegar num texto compassivo, que estende os braços ao leitor, busca sua participação e reconhecimento. Se tomarmos esse impulso contraditório como um traço de caráter, a frase da Zadie faz sentido. Por trás da boa literatura parece sempre haver a voz de alguém que recusa-se a estar sozinho, uma certa revolta contra as prisões da subjetividade. Acredito que esse impulso importa mais do que a técnica.
Milton Hatoum: Escrever bem exige talento e muito esforço. Quem escreve é movido pelo desejo, pela uma inquietação. Mas escrever bem não basta. O desafio é transformar o texto em boa ficção. Um texto bem escrito tem que dar um passo adiante e dizer ao leitor: isso não é jornalismo, e sim literatura.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
DG: Seguindo o raciocínio da resposta anterior, escreve-se para agradar E satisfazer-se. Se um livro faz apenas uma das duas coisas, carece de algo vital. É crucial saber por que se escreve um determinado livro ou texto, ou pelo menos realizar essa investigação enquanto se cria o texto, mas acho desnecessário, como autor, ficar me perguntando por que escrevo como um todo, ou seja, porque no fim das contas exerço essa atividade que chamamos escrever, que me torna um escritor. Isso não me preocupa. Nunca acordei de manhã me perguntando “por que diabos faço isso?”, mas já acordei inúmeras manhãs tentando entender de onde veio uma idéia ou por que motivo ela me assombra e pede para ser elaborada e escrita.
MH: Não penso em agradar. A mão do afago não é a mesma que escreve. Demoro muito tempo para escrever um livro porque espero os personagens e a trama se manifestarem. O desejo de escrever faz o resto, ou seja, quase tudo. Não miro um leitor, não sei a quem se destina o que escrevo. O leitor é o maior mistério da literatura. No entanto, não existe literatura sem leitor. É o leitor exigente que faz a literatura.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
DG: Gosto desse raciocínio da Zadie. O texto dela trata de um fracasso relativo. Um livro sempre será um fracasso no sentido de que o objetivo maior de um romance, que, na visão da autora do artigo em questão, é promover o compartilhamento de uma visão de mundo particular por meio de uma obra de arte e sacudir um pouco o barquinho da subjetividade, jamais será atingido por completo, pois é impossível experimentar o mundo do ponto de vista de outra pessoa. Chegar o mais próximo possível desse ideal é o desafio de todo escritor, e nesse sentido o que ele busca é fracassar o melhor possível. Como autor, sempre experimento essa espécie de fracasso no sentido de que o texto final, por mais trabalhado que seja, nunca dá conta de tudo que se pretendia expressar. Mas mesmo essa insuficiência é assombrosamente mais poderosa do que o tipo de comunicação que se alcança nas relações pessoais cotidianas. O que um romance realiza não é muito diferente, em essência, do que acontece numa daquelas eventuais conversas de bar entre dois ou três amigos, nas quais de repente a densidade do que se pode compartilhar fica muito maior do que o comum. Nesse caso a alteração se dá pela combinação de camaradagem e álcool. Quando se escreve um livro, busca-se algo análogo por meio de uma elaboração paciente de idéias, um tremendo esforço de imaginação e exploração da linguagem cujo efeito final, além de prazer estético, preenche um espaço que parecia condenado ao silêncio.
MH: Já joguei fora muitas páginas. Aliás, mais páginas do que as que foram publicadas. E tenho palavras guardadas, escondidas, que só eu li. Mário de Andrade dizia que guardar manuscritos é também um ato de vaidade. Publico coisas de que gosto. As duvidosas permanecem no caderno. Mas não sei o que Zadie Smith quer dizer com “superficialidade necessária do crítico”. Será que ela confunde impressão de leitura com análise crítica? Acho que não, pois estudou literatura inglesa em Cambridge e leu os manuscritos de White teeth aos amigos da universidade. A impressão de leitura é uma intervenção do momento. Há uma diferença entre o comentário e a crítica. Uma análise crítica bem argumentada não é superficial. Como autor, não posso nem devo julgar meu trabalho. Como primeiro leitor dos meus manuscritos, tenho liberdade de publicá-los ou não. Depois da publicação, a última palavra é do leitor-crítico.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
DG: Há algo que se costuma chamar de voz literária. É a forma particular que cada autor tem de escrever, não apenas em termos de estilo, mas também de temas, de efeitos, etc. A voz literária é injustificável. Temos ou não temos. Se temos, ela é o que é. Faz parte de uma personalidade. Seria preciso nascer de novo para alterá-la. Outra coisa são estilos consagrados, fórmulas estéticas que um escritor pode explorar por opção. Isso pode ser questionado e discutido, é claro. Às vezes me parece que escritores, críticos e leitores passam por cima dessa distinção na hora de escrever ou julgar um texto. Um escritor pode defender uma escolha de estilo, mas é ridículo que se espere dele que justifique a sua voz (o que não impede que a voz seja julgada, é claro — podemos concluir que a voz de um determinado autor é enfadonha ou equivocada, que não merece atenção alguma, mas tratá-la como se dependesse de escolhas do autor é uma distorção crítica).
MH: Não defendo nada do que escrevi, nem tenho paciência ou pendor para polêmica. Octavio Paz dizia que as polêmicas exarcebadas passam, e o que conta é a obra, o tempo da leitura, que faz parte da história de um livro. O estilo não deve ser justificado. Não pelo autor. Cada texto pede um ritmo, um modo de narrar. Às vezes você erra o tom, resvala aqui e ali, entra numa pista inadequada. Mas a vida não é assim? A história do romance enquanto gênero literário é a história de um fracasso, de uma perda ou frustração. Isso pode ocorrrer com a própria escrita. A liberdade de criação é uma escolha do narrador. Mesmo um texto de fato inovador, como o Grande sertão: veredas, mantém um grau razoável de comunicabilidade com o leitor.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
DG: Não, não é essencial. Ninguém foge de si mesmo para fazer nada, e a escrita não é exceção. Há escritores que disfarçam isso em diferentes graus, de propósito ou naturalmente, mas os disfarces em nada alteram a verdade.
MH: Toda linguagem ficcional é uma construção, um artifício. Ela pode ser mais ou menos autobiográfica, e é muito difícil saber até que ponto a vida ou a personalidade do autor foi falseada, inventada. Até o relato autobiográfico é uma grande mentira. Muitos leitores vêem traços da minha vida nos dois primeiros romances, mas Cinzas do Norte é o meu romance mais “autobiográfico”. Na ficção você despista e engana a si mesmo, e às vezes o leitor acredita nesse engano. “O nosso modo de processar o mundo” não depende apenas de nós mesmos. É a nossa relação com os outros seres humanos e com a sociedade que nos estimula a inventar situações, conflitos, personagens. O Outro da literatura é um desdobramento complexo de uma persona: a pessoa e suas máscaras. Ou seja, o escritor na sociedade, na história, no tempo em que vive.
João Paulo Cuenca e Sergio Faraco
A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. As próximas serão nos dias 26, 28 e 30 deste mês. No último dia, serão publicadas as respostas de três escritores.
Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.
João Paulo Cuenca e Sergio Faraco
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
João Paulo Cuenca: Antes de responder uma pergunta como essa, acho que é preciso pensar sobre o que exatamente é “escrever bem”. Escrever de acordo com a gramática normativa? Escrever sem erros de ortografia? Isso me parece o mínimo, e também algo muito fácil de atingir — porque isso se aprende. Escrever de forma correta não é o suficiente para produzir literatura. Escrever bem para mim é escrever um texto que se justifique. Que acrescente uma peça relevante ao jogo literário, que estabeleça um diálogo com outras obras e, se o autor tiver sorte, com o leitor. Quais qualidades pessoais isso exige? Acredito que leitura e domínio da linguagem são pontos chave, mas não suficientes. Escrever sem criatividade e talento é “escrever” sem escrever.
Sergio Faraco: Se a autora emprega esse termo em seu sentido estrito, aludindo, portanto, a um conjunto de traços peculiares de um indivíduo, bons ou menos bons, eu diria que a literatura não tem nada a ver com isso, pois tal caráter todo mundo tem, o escritor, o papeleiro e o deputado. Se o emprega em sentido figurado ou extensivo, também não vem ao caso. Se escrever bem fosse uma questão de integridade moral, não estaríamos hoje a ler Henry Miller. Em sua “ficção” que não é ficção, mas memória, ele conta alguns casos que evidenciam seu pouco apreço à lealdade, sobretudo em relação a quem o ajudava em momentos difíceis. No entanto, é um grande escritor. Para que um escritor escreva bem, ele precisa governar o idioma, ter um gosto estético reconhecível e a capacidade de traduzir o que sente.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
JPC: Escrevo em primeiro lugar porque gosto de ler. E gostaria de ler alguns livros que ainda não existem — ou que acho que não existem. Tento escrevê-los. Para mim, o processo começa com a vontade pura e simples de me satisfazer e, através disso, buscar saciar uma sede de significado muito própria. Com o livro escrito, é claro que existe o desejo (e a vontade, e a pretensão irresponsável etc.) de compartilhar o resultado, receber comentários e resenhas. Mas nada se compara à satisfação que se tem ao terminar de escrever um bom parágrafo que, até poucos dias ou horas atrás, não existia. São dois momentos com motivações distintas para mim — o de escrever e o de ser lido por outrem.
SF: Escrevo porque sinto um impulso de compartilhar sentimentos, emoções. Mas compartilhar do jeito que sei. Não me ocorre satisfazer senão meu próprio gosto, meus próprios parâmetros.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
JPC: Sim, existe a possibilidade de renegar qualquer trabalho meu no futuro, é claro. Se não pensasse assim, talvez me visse como um escritor estagnado. Sobre sua segunda pergunta, de forma alguma aceitaria qualquer resultado simplesmente porque fui responsável por aquilo. Se assim fosse, minha vida seria mais fácil: não levaria o tempo que levo reescrevendo tudo. Meus exemplares vivem rabiscados. Sobre a frase da Zadie, acredito que esse conceito de “sucesso ou fracasso” é muito particular, impossível de ser colocado em termos absolutos. Nesse sentido, por mais que venha a renegar meus contos, crônicas e romances, acho que fui muito bem sucedido neles. Porque eles me levaram a um lugar diferente, a ser mais do que era antes de escrevê-los. E aí me contradigo: talvez, por isso, jamais seja capaz de renegar nada do que tenha escrito. Respondo novamente a pergunta: não, não existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho meu um fracasso, por mais que eu deixe de gostar dele.
SF: Não cogito de fracassos ou sucessos, apenas escrevo meus contos e tenho a convicção de que emprego neles meu melhor, nem que seja necessário esperar muitos anos para que esse melhor se materialize. A opinião de quem lê, portanto, passa ao largo: ouço, mas não registro. Além disso, quem somos nós, os contemporâneos, para julgar o que vai ou não permanecer, o que é um sucesso ou é um fracasso? Imagino que Humberto de Campos e Coelho Neto, com o prestígio e o reconhecimento que tinham nos primeiros trinta anos do século XX, julgavam suas obras vitoriosas. Hoje ninguém as lê. Um notório exemplo oposto é Kafka.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
JPC: Não acho que seja necessário que qualquer autor dê explicações sobre seus livros ou seu “estilo” ao escrever. A literatura deveria falar por si — e muito mais na direção de fazer perguntas do que oferecer respostas. Mas há uma indústria que órbita em torno das narrativas sobre as obras. E o escritor tem que inventar um segundo discurso, uma meta-narrativa paralela ao livro, que é a fala que usa para dar entrevistas — a que estou usando agora, não totalmente sincera. Porque aqui tenho que responder perguntas, e meu papel no mundo não é esse… Não sei se com isso também respondo alguma das suas perguntas, mas acho um grande erro um autor se defender de uma crítica. O problema é que escritores (brasileiros, e ainda, contemporâneos, vivinhos, pobrezinhos…) têm um ego tão grande quanto frágil, e alguns costumam cair nessa armadilha. Mas os resenhistas também não ajudam: às vezes criticam os autores enquanto personagens, e esquecem de escrever sobre literatura. É de uma pobreza de espírito terrível, tudo pode ficar no registro rasteiro do julgamento pessoal e da reação idem.
SF: Escrevo tão bem ou tão mal quanto posso, e não me afeta a notícia de que alguém reprova aquilo que corresponderia, digamos, às minhas singularidades estilísticas. Nem sei se as tenho e tampouco as persigo. Se algum leitor ou crítico não gosta do modo como compartilho meus sentimentos, nada posso fazer. Mudar é que não vou e nem o conseguiria, se quisesse.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
JPC: Bem, entre o Eliot e a Zadie Smith, é claro que eu fico com o primeiro. No fim das contas, concordo com ele e com Rimbaud que ia além e dizia antes mesmo de Freud: “eu é o outro”. E buscava a tal da “vidência”, o Rimbaud, através de um anulamento de si mesmo, da reprogramação dos sentidos do seu velho “eu” — essa moldura limitada que a Smith chama meio bobamente de “nosso jeito de ser ativos”. Até que desaparecesse por completo o poeta, se transformando em linguagem, poesia, literatura, purpurina, etc. Agora, se você acha que muita gente no século XX usou o projeto rimbaudiano, de buscar o desconhecido como forma de transcendência e busca da verdade, para desculpar-se por toda sorte de desvarios, frescuras e porralouquices, inclusive, a de produzir má literatura, pense no seguinte: a culpa não é do Rimbaud.
SF: Não sei se minha personalidade me ajuda ou me prejudica, se preciso confrontá-la ou refugá-la para poder exercitar, finalmente, minha criatividade. A mim me preocupa apenas escrever uma boa história, explorando para tanto o último limite de minha capacidade. De onde ela vem, se com ajuda disso ou daquilo, bem, não penso nisso, e suspeito de que concluir que o processo criativo deva se deflagrar com tais arrimos ou sem eles já significa enquadrá-lo em dado padrão, um mal sem remédio para quem escreve.
Amilcar Bettega e Antonio Fernando Borges
A Revista Malagueta começou no dia 19 uma entrevista com treze escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. As próximas serão nos dias 23, 26, 28 e 30 deste mês. No último dia, serão publicadas as respostas de três escritores.
Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.
Amilcar Bettega e Antonio Fernando Borges
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Amilcar Bettega: O que é escrever bem ou mal? Quem passa o veredicto? Certamente não é o escritor. A ele, interessa apenas escrever, simplesmente escrever, sem qualificativos. E para isso é preciso envolvimento, comprometimento total com o que se escreve, crença cega na palavra que se põe no papel. Ela não está ali para agradar a torcida. O escritor escreve porque acredita em cada palavra sua, e aí reside o seu caráter, a sua “qualidade pessoal”, para usar a mesma expressão (desde que ela não tenha nada a ver com o que é socialmente convencionado como qualidade pessoal).
Antonio Fernando Borges: Embora não seja nenhuma gata, a escritora inglesa Zadie Smith mostra algo em comum com os felinos: suas idéias têm a “profundidade” de um pires de leite… Ual: tomá-la como paradigma de uma discussão literária séria me faz logo pensar: então não deve ser tão séria assim — e eu posso entrar mais relaxado na brincadeira. O que, aliás, é ótimo! Ando mesmo cansado de ficar discutindo literatura brasileira muito a sério.
Na verdade, entendo por que Zadie Smith insiste em querer saber: “O que é preciso para escrever bem?” De tanto perguntar (a si mesmo e aos outros), talvez ela acabe aprendendo… Quanto a mim, só sei dizer que escrever bem exige três coisas: talento, talento e talento. Ah, sim, tem uma quarta coisa : talento! Se eu possuo algumas delas? Não sei: os resultados do exame de sangue e da tomografia cerebral ainda não saíram.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
AB: Enquanto escrevo só penso em agradar ou satisfazer uma pessoa: eu próprio. O resto não existe. Claro que eu quero ser lido, mas essa vontade só é formulada conscientemente depois. No momento em que escrevo, estou completamente sozinho, e é preciso que seja assim. Se escrevo é porque não sei exatamente por que o faço, mas para tentar descobrir. Para tentar me descobrir, eu diria, para me compreender. Escrevo para organizar minha cabeça, para me olhar verdadeiramente de frente. Fiz outras coisas antes de escrever, mas sempre me achei meio incompetente para tudo, meio medíocre no sentido mais etimológico dessa palavra. Escrevendo eu sinto que encontro a minha singularidade, e assim a escrita funciona como uma maneira de me conhecer, de tentar me entender, uma maneira de me dar um sentido, de preencher o meu vazio, de achar a minha serventia e minha competência. A literatura é sempre uma viagem pessoal, individual, mesmo se depois ela pode ganhar dimensões mais amplas e até mais nobres.
AFB: É impressionante como esta pergunta vive “coçando” na língua de todo repórter quando vai entrevistar um escritor. Quase nunca ocorre perguntar isso a um engenheiro ou a um dentista, por exemplo… Nem mesmo quando um viaduto cai ou a obturação ficou mal-feita. É até compreensível: no fundo, a literatura não tem essa importância toda que lhe atribuem, e os escritores não servem mesmo para muita coisa. Uma das últimas tentativas de enquadrar “essa gente” foi a chamada literatura engajada, com uma legião de guevarinhas empunhando o teclado em lugar da metralhadora. Argh!
Quanto a mim (que sempre detestei política), continuo sem resposta para a pergunta: por que virei escritor? Já pesquisei em família: sou caso único — o que afasta qualquer hipótese de herança genética. Também não tive nenhum trauma de infância: não fui molestado em casa nem na escola, não sofri traumatismo craniano, não tive choque anafilático na operação de amídalas… Pode ter sido alguma coisa estragada que eu comi na rua…
Também não sei a resposta, repito. Mas uma coisa é certa: não perco meu tempo tentando agradar leitor algum — e, para me satisfazer, prefiro outros “vícios solitários”.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
AB: Concordo com o fato de que sucesso e fracasso literário são expressões que só têm validade se comprometidas com o ponto de vista. Isoladamente não dizem nada. No que me diz respeito, a possibilidade de que eu venha considerar um trabalho meu como fracassado é sempre muito grande, claro. Nunca estou certo, antes de miraculosamente chegar ao fim de um texto, se ele vai corresponder não digo 100% mas o mínimo necessário àquilo que foi vagamente imaginado para que essa avaliação ultra-subjetiva que a gente faz do próprio texto acabe por nos levar a aceitar o texto e, às vezes, admirá-lo. Mas gosto da idéia do fracasso, trabalhar com essa idéia, sob essa sombra, acho que é uma boa coisa para um escritor.
AFB: Vejam só: Madame Smith projeta sua superficialidade nos críticos e sua “desonestidade natural” nos escritores. Sem querer tomar as dores dos críticos, digo apenas que, da minha parte, sou honesto o bastante para admitir: sei exatamente os momentos em que me sinto um fracasso nas letras. É quando leio (ou releio) qualquer dos grandes autores que admiro e reconheço: ainda nem cheguei perto — a começar por Machado de Assis e Jorge Luís Borges. Qualquer dia, jogo a toalha e desisto de uma vez, prometo: vou arrumar trabalho de gente honesta, como minha mãe sempre quis…
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
AB: A partir do momento em que o texto sai da esfera privada do escritor, a partir do momento em que ele é publicado, a aliança entre o texto e seu autor está firmada, e este vai fazer de tudo para defender aquele, inclusive forjar explicações que se adaptem a formulações críticas exteriores, ou que as contradigam, dependendo da situação, do que é melhor para a defesa do texto. Pode ser que o que o autor diz num determinado momento sobre o seu texto seja contradito por ele próprio mais tarde, em outro momento e contexto. O que é certo é que a análise crítica que vem de fora e desemboca em uma avaliação, seja ela positiva ou negativa, vai sempre ajudar o autor a ler, compreender e defender o próprio texto. Vai ajudá-lo a criar um discurso articulado e racional sobre algo que até então era só intuição.
AFB: Consta que Juscelino Kubitschek, no começo da carreira, costumava recomendar a quem ia escrever seus discursos: “Não se esqueça de espalhar umas borboletas entre os parágrafos”. Este gosto — bem brasileiro — pelo fraseado colorido e esvoaçante está por trás dessa ilusão que nossos antepassados (parnasianos, simbolistas, etc.) chamavam de estilo.
Na verdade, o estilo é o que menos importa num escritor — são poucos os que realmente têm um. E isso nem sempre faz dele um grande escritor. José Saramago, por exemplo: tem o seu “estilo”, mas é um chato. Próxima pergunta?
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
AB: Não sei se entendi direito a questão. Aliás, acho que não entendi. Como fazer uma coisa, qualquer coisa, seja escrever um livro ou arrumar uma mala, sem que essa coisa não seja, de algum modo, fruto, entre outras coisas, da nossa personalidade?
AFB: Mais uma da Madame: acha uma frase do grande Eliot… limitada! Poupem-me, please… Mas, até onde entendi, concordo com ela (não espalhem, hein?): com exceção dos esquizofrênicos, ninguém pode virar outra pessoa ou sair de si mesmo na hora em que escreve (by the way: Eliot não estava falando disso, mas isso é outra história…). Durante o processo de criação, tudo aquilo que o escritor sabe, pensa, acha — enfim, tudo aquilo que ele é — estará presente, interferindo em diferentes graus no seu trabalho.
Isso não quer dizer que eu concorde com essas leituras psicológicas ou “clínicas” que vêem sintomas da personalidade e o caráter do escritor por trás de cada personagem ou situação criada. Literatura é entretenimento: ler a sério demais é, sem dúvida, uma forma pretensiosa de leitura — que acaba desperdiçando o que um escritor tem de melhor a oferecer.
Marçal Aquino e Luiz Antonio de Assis Brasil
A Revista Malagueta começa, a partir de hoje até dia 30 deste mês, uma entrevista com treze escritores.
Nossa intenção é mostrar a diferença de opiniões, o que cada escritor pensa sobre os pontos que levantamos e abrir discussões sobre o que apresentaram em suas respostas. Inclusive sobre questões bastante comuns. A sinceridade era o nosso principal objetivo e conseguimos um ótimo resultado.
A entrevista foi criada com base em parte do ensaio Fail better, da escritora inglesa Zadie Smith, publicado em janeiro deste ano no jornal The Guardian. Tendo, portanto, alguns trechos traduzidos.
Lembramos que as respostas de cada escritor são unicamente de cada escritor, não tendo relação (ou intervenção) com opiniões dos editores da revista ou de qualquer autor publicado, a não ser que se pronunciem nos comentários. As perguntas foram enviadas por e-mail e os escritores tiveram total liberdade para responder.
As publicações serão feitas por ordem alfabética de sobrenome e cada uma terá as respostas de dois escritores. As próximas serão nos dias 21, 23, 26, 28 e 30 deste mês. No último dia, serão publicadas as respostas de três escritores.
Para saber quais autores participam da entrevista, continue acompanhando o blog.
Marçal Aquino e Luiz Antonio de Assis Brasil
Zadie Smith disse que “para os escritores, escrever bem não é simplesmente questão de habilidade mas, sim, de caráter”. E pergunta: “o que é preciso para escrever bem? Quais qualidades pessoais isso exige?” A visão de literatura é ponto central ou único?
Marçal Aquino: Aquele que quer escrever (mesmo que seja mal) precisar ler. Ler. E ler outra vez. É a única possibilidade.
Luiz Antonio de Assis Brasil: Eis um tema que tenho discutido muito com meus alunos, e nossas respostas são circulares e pouco eficientes. No máximo chegamos a algumas idéias algo desconexas, mas complementares. Não basta escrever bem, naturalmente. É preciso muito mais: é preciso que o texto seja “acreditável”, isto é: que o leitor, já na primeira frase, saiba que está perante um texto literário de qualidade. Essa credibilidade se expressa em algumas condições que revelam um autor a) consciente dos seus recursos técnicos; b) que saiba do tema que está a falar; c) que não subestime o leitor ao abastardar seus textos, a título de “melhor comunicação”; d) que evite o transparecer de seus artifícios textuais; e) que revele fazer parte da tradição literária, mas sem deixar-se sufocar por ela.
Antes de saber escrever bem, é preciso saber por que se escreve? Por que você escreve: para ser lido, para ler ou pela pura necessidade da escrita, que talvez esteja além da expressão? Enquanto escreve, sua vontade maior é agradar ou se satisfazer?
MA: Sou, obrigatoriamente, o primeiro leitor do meu próprio texto. Então é indispensável que qualquer texto me agrade. Caso contrário, não compartilho com ninguém. Por que faria isso com um texto que não me satisfez? Prezo muito a boutade do Heinlein: “Não há nada de errado em escrever; mas faça-o em silêncio. E lave as mãos depois”.
LAAB: Minha resposta a essa pergunta, no decorrer do tempo, sofreu alterações substanciais. Quando comecei a publicar, há 31 anos, eu escrevia para sair do anonimato; como não era rico nem belo, sobrava-me um sobrenome famoso de família tradicional do Sul — uma escassa e inútil glória, como se percebe. Pois bem: saí do anonimato, ótimo. Os jornais locais falavam em mim, eu dava entrevistas, etc., o que se sabe. Lentamente — muito lentamente — fui percebendo que notoriedade alguma preenche a vida. Dediquei maior atenção a meu texto, e vi que este era longe de ser aceitável. Passei a dedicar-me a não repetir receitas. Há cerca de uma década, repensei tudo da minha literatura e recomecei do nada. Alterei radicalmente o meu “estilo”, à busca de maior sobriedade e expressividade. Meus romances encolheram. Foi então que publiquei O pintor de retratos, A margem imóvel do rio e Música perdida, que me renderam os maiores prêmios da minha carreira (Jabuti, Portugal Telecom, etc). Aí não me importava mais a notoriedade. Interessa mais que meu texto agrade a mim mesmo, antes de mais nada. Escrever um bom parágrafo pode levar uma semana, mas a satisfação é insuperável. Equivale a um prêmio. Os meus leitores tradicionais (se é que os tinha), não me entenderam bem, e tenho a convicção que atualmente meus livros vendem menos do que no passado — mas isso não me incomoda. Sei que estou em paz com a minha consciência literária.
Colocando-se apenas no papel de leitor de sua obra, existe a possibilidade de considerar qualquer trabalho seu um fracasso? Ao terminar de escrever um texto, você aceita e gosta do resultado unicamente porque é responsável por ele? Smith disse que “em algum lugar entre a superficialidade necessária do crítico e a desonestidade natural do escritor, a verdade com a qual julgamos o sucesso ou fracasso literário está perdida”. Como leitor e escritor, você concorda? Por que?
MA: Nunca considerei um trabalho meu um fracasso. Isso não aconteceu até hoje. Até porque eu interrompo a escrita muito antes de chegar a essa conclusão.
LAAB: Realmente, gostar ou não gostar do próprio texto significa imergir na subjetividade; é preciso pensar: gosto do meu texto porque meu texto agrada aos outros ou gosto do meu texto porque ele agrada a mim? Responderei afirmativamente à segunda pergunta. Pode ser um certo narcisismo, ou auto-suficiência, algo do gênero. Fracasso, para mim, seria chegar ao fim de um romance e concluir que não vale a pena publicá-lo. Isso já aconteceu; pode acontecer novamente.
Alguns autores sentem necessidade de justificar seus estilos literários, muito mais quando algum crítico questiona sua validez. Naturalmente, pode ser uma tentativa de defender o que foi escrito. Tais explicações são essencialmente verdadeiras sempre? Até que ponto o estilo pode ser justificado? Há limites ou a liberdade de criação é prioridade?
MA: Tenho pouco apreço por essa história de “estilo”. Estilo, no fundo, é limitação. Afinal, todo escritor escreve da melhor maneira possível, ou seja, no limite de suas possibilidades.
LAAB: Sim, a liberdade de criação é intocável, e com isso digo uma platitude. A crítica só se equivoca quando quer ensinar o escritor a escrever. De resto, a crítica séria deve ser lida e meditada, e não ignorada — mas jamais respondida. O escritor não deve justificar-se, jamais. Se o crítico não viu qualidade num livro, não irá vê-la através de uma justificativa — se for um crítico sério, naturalmente.
A escritora inglesa considera a seguinte visão de TS Eliot limitada: “poesia não é uma expressão da personalidade, mas uma fuga dela”. E ela explica: “personalidade é muito mais do que detalhes autobiográficos, é o nosso próprio modo de processar o mundo, nossa maneira de ser, e não pode ser artificialmente retirado de nossas atividades: é nosso jeito de ser ativos”. Você acha que é preciso ter conhecimento e aproveitar um pouco dos dois lados na criação, ou apenas trabalhar com um deles é suficiente? A personalidade é um auxílio inevitável ao criar histórias e personagens, mas não é essencial que se saia dela para chamar esse processo realmente de criativo?
MA: Não sei até que ponto a personalidade conta na hora de escrever. Me parece mais certo pensar que cada um escreve de acordo com suas crenças.
LAAB: Tudo deriva da “personalidade” (vamos aceitar esse termo curioso). A obra é realizada por alguém, um sujeito histórico dotado de saberes, de técnicas, de experiências pessoais e culturais etc. E isso transita para a obra. No fundo, qualquer escritor é um escritor de si mesmo, e assim escreverá — sobre si mesmo — até o fim. Por isso nenhuma obra é definitiva. Sempre será um ensaio da escrita daquela obra desejada num plano, até— digo eu — metafísico.
Site passa por mudanças
O site da revista passou por mudanças (de novo, sim sim) para que o acesso fique mais prático e fácil. Agora cada texto pode ser comentado. Recomendamos a leitura do site inteiro, pois algumas mudanças podem ter sido feitas em algumas páginas.
Como foi dito no editorial, agora os editores Alex Sens Fuziy e Renata Miloni têm suas colunas (tema livre sempre).
Lembramos que o feed que disponibilizamos tanto na revista como aqui no blog é o mesmo (somente do blog), para que os leitores saibam de todas as novidades e não apenas quando uma nova edição é publicada.