Problematizar o amor - O triângulo amoroso e as artes


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Leandro Oliveira

O modo como a literatura e o cinema se assemelham ao abordar a relação entre os conceitos de amor e casamento e suas múltiplas implicações sociais pode ser visto na comparação do romance português A paixão segundo os infiéis [1], de Julieta Monginho, e o filme Jules e Jim – Uma mulher para dois, de François Truffaut. Em ambos há uma análise e discussão sobre a possibilidade de um relacionamento amoroso além do relacionamento monogâmico tradicional. Também em ambos é possível identificar qual a solução proposta pelos autores aos conflitos advindos dessa quebra da estrutura monogâmica predominante.

A tradição literária portuguesa aborda, em muitos aspectos, a questão do amor cortês e seus desdobramentos. Prova disso é a influência literária de textos como as Cartas portuguesas [2], de Mariana Alcoforado, espelhadas nas Novas cartas portuguesas [3] do século XX. Seguindo essa tradição, a obra de Julieta Monginho procura atualizar o tema, que recebe tratamento através do conflito entre a tradição cristã ocidental do relacionamento amoroso monogâmico e a ruptura dessa moral pelo triângulo amoroso. Lembrando o que diz Denis de Rougemont em sua obra História do amor no Ocidente [4], há um confronto de idéias nessa busca de conciliação:

Eis as forças em conflito: de um lado, uma moral da espécie e da sociedade em geral, mais ou menos impregnada de religião — é aquilo que se chama de moral burguesa, do outro lado, uma moral inspirada pelo meio cultural, literário, artístico — é a moral passional ou romanesca. [5]

O livro de Julieta Monginho conta a história de um triângulo amoroso entre Teresa, Jon e Pedro (Piterpã) e o que chama atenção é o modo como o conflito existente é tratado, a busca por uma solução conciliadora entre esses opostos. No livro de Monginho, logo na epígrafe, há um texto de Herberto Hélder que cita o mar como um elemento apaziguador e a morte como elemento desestruturador, que serve como prenúncio do que será contado pela autora, uma espécie de proposta para a conclusão do conflito. A ação é divida entre dois lugares: a planície do Alentejo e, no trecho final da obra, uma casa de praia onde os personagens se isolam, tendo o mar como cenário principal. A tensão ali é crescente e o narrador-testemunha utilizado pela escritora capta a atenção do leitor de um modo muito eficiente, até que os eventos culminam em Pedro apanhar uma arma e disparar contra alguém. Por um momento, o leitor pode achar que Teresa é assassinada, o que levará inevitavelmente à conclusão que o conflito amoroso não pode ser solucionado a não ser pela morte (a morte como solução do triângulo amoroso, aliás, é algo também comum na literatura), reforçando a tradição moral que Rougemont chama de ‘burguesa’, mas instantes depois se descobre que o tiro não atingiu seu alvo.

Analisando o caráter do personagem através do romance, o fato de Piterpã não ter atingindo a qualquer um dos personagens com um tiro, serve bem ao desenho que a autora traça de uma pessoa fraca, incompetente para decidir seu próprio caminho, alguém que é levado a agir sempre por força das circunstâncias. Como percebe o leitor, a indecisão e a incapacidade de ação para determinar seu próprio destino são características que a autora explora bem no romance. Antes do tiro final, a decisão sobre o que deveria ser feito na ocasião é entregue ao acaso, quando Teresa apanha uma pedra e coloca-a na areia, afirmando que se o mar chegar até ali será feito isso, senão, será feito aquilo. Tal construção de personagens e ações, portanto, mostram que, na verdade, aquilo que é dado como uma solução trata-se apenas de um modo de tudo continuar como está ou de confiar a decisão ao acaso, às circunstâncias. No fim do livro, Teresa e Jon se afastam de Pedro e continuam a passear pela praia como se nada tivesse acontecido. Toda a tensão final se dissipa, mas não temos algo que contorne os conflitos e é verossímil supor que estes continuarão sem uma solução possível, a sugestão, portanto, de que a solução para os problemas da relação entre eles é simplesmente não se preocupar em encontrar soluções.

No título da obra encontramos também outro ponto que reforça essa interpretação. A paixão segundo os infiéis se assemelha à obra musical de Bach, A paixão segundo São Mateus. Essa similaridade pode ser encontrada no modo como a obra é organizada; tal como na música de Bach, o livro apresenta uma narrativa polifônica, intercalando vários pontos de vista sobre os eventos. A obra de Bach também aparece na psicologia dos personagens, com Pedro às vezes fazendo o papel do agnus dei ou o cordeiro sacrificial. Esse papel sagrado atribuído ao personagem contribui para o clímax no final da obra, confundindo o leitor. Afinal, sendo Pedro a vítima destinada ao sacrifício, como pode ele tomar ação e atirar, fazendo cessar os conflitos? Quando erra o tiro, porém, sua situação se embaralha: se antes ele poderia ser visto como uma vítima, agora se parece mais a um personagem incapaz e que por isso se submete as ações de Teresa e Jon.

Comparando esse desenlace com o que ocorre no filme Jules e Jim – Uma mulher para dois, percebe-se que apesar do frisson que o filme causou na época de seu lançamento, por causa do desafio que impôs à moral vigente na época pré-Revolução Sexual, Truffaut opta pela fórmula mais tradicional de solução do conflito. No filme, Catherine (Jeanne Moreau) ama Jules (Oscar Werner) e Jim (Henri Serre), ora se cansando de um, ora de outro. Os dois dividem o amor de Catherine em pé de igualdade, sem haver um ciúme doentio entre eles; pelo contrário, vivem confortavelmente durante certo período num chalé. Embora a apresentação do relacionamento fuja do convencional, sem a exibição de personagens com uma natureza egoísta motivada pelo ciúme característico da moral religiosa monogâmica, Truffaut resolve o dilema exaltando a relação amor versus posse. À medida que o relacionamento se desenvolve, Jim age de modo semelhante à Catherine, tendo ele também sua amante. Com isso, Catherine não suporta a idéia de ter que dividir seu amante, apesar de ela o fazer sem nenhuma culpa. O desenlace final do conflito ocorre quando Catherine convida Jim a um passeio de carro, jogando-se de uma ponte e matando a si mesma e a seu amante. A vontade de dominação e posse somente poderá ser saciada através da morte, com Catherine preferindo destruir o objeto de seu desejo do que perdê-lo. Citando novamente Rougemont:

A felicidade só pode existir na aceitação; quando a reivindicamos, ela deixa de existir, porque depende do ser e não do ter. Os moralistas de todas as espécies sempre o disseram e os tempos modernos não trouxeram qualquer elemento novo que justifique uma mudança de opinião. Quando queremos sentir a felicidade, quando queremos dominá-la — em vez de sermos felizes pelo dom da graça — deparamo-nos imediatamente com uma ausência insuportável de felicidade. [6]

Em conclusão, portanto, é possível dizer que apesar de toda confrontação com a moral burguesa sobre o amor e o casamento existentes nas duas obras, ainda prevalece uma série de resquícios dessa moral, que continuam em vigor apesar de todo o questionamento de sua estrutura. Talvez por ser mais recente, a obra de Monginho é a que se aproxima mais em tentar estabelecer um modo de conciliação entre a moral vigente e o triângulo amoroso. No entanto, a obra de Truffaut é singular no sentido de dizer por meio da tela aquilo que Rougemont dizia estar faltando no pensamento ocidental sobre o amor e o casamento:

Que eu saiba, ninguém ainda ousou dizer que o amor, tal como o concebemos hoje, seja a negação pura e simples do casamento que, supostamente, tem por base o amor. [7]

Ainda que ao final Truffaut prefira optar pela tradição, solucionando os conflitos da relação dos três personagens pela morte, é impossível dizer que o cineasta não tenha inserido na base da obra a destituição da idéia que vigora como sinônimos os conceitos entre amor e casamento. Já em Monginho, a falta de solução para o conflito pode ser encarada também como uma maneira tradicional de fugir à discussão, apenas arranhando o questionamento dos conceitos e dos valores a respeito do amor. Portanto, de um modo ou de outro, pode-se afirmar que o que há em comum entre ambas as obras é uma necessidade de ampliar o debate, explorando melhor o tema e seus desdobramentos.

Referências

[1] Dom Quixote (Portugal), 1998
[2] L&PM Editores (Brasil), 1997. Editora Ausência (Portugal), 2002
[3] Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta. Dom Quixote (Portugal), 1998
[4] Ediouro (Brasil), 2003
[5] História do amor no Ocidente, pág. 372
[6] Pág. 376
[7] Pág. 386

Leandro Oliveira é bacharelando em Letras e escreve sobre literatura em seu blog, o Odisséia Literária. Tem textos publicados em diversos sites e revistas eletrônicas sobre literatura, como Paralelos, Digestivo Cultural, 3:AM Brasil e Le Monde Diplomatique Brasil.

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