Narrativa em movimento: a cidade e a viagem na ficção de Jacinto Lucas Pires
Aida Cardoso
Jacinto Lucas Pires, nascido na cidade do Porto em 1974, viu a sua primeira obra publicada em 1996. Depois da colectânea de contos Para averiguar do seu grau de pureza [1], o autor tem vindo a construir uma obra a um tempo consistente e diversificada, abarcando géneros como o conto, o romance, o teatro e a escrita para cinema. A par da sua actividade literária, Jacinto Lucas Pires, que estudou cinema na New York Film Academy, trabalha também como cineasta e dramaturgo. Com obras já traduzidas e editadas em vários países, no Brasil dois dos seus livros, Azul-turquesa e Livro usado, foram publicados com a chancela da Gryphus [2].
Apesar do interesse óbvio do escritor por géneros e áreas tão diferentes, há uma indiscutível unidade e um estilo muito próprio que é perceptível na sua obra e que advém, mormente, de algumas características, pontuais ou centrais em cada livro, mas que estão presentes em quase todos os seus textos. O mais relevante e distintivo será o aspecto visual, que, julgo não ser exagero dizê-lo, em muitos casos serve de motor à narrativa, impulsionando-a até ao seu desfecho.
Esta componente visual da escrita do autor português, porém, ganha particular agudeza em movimento. Assim, vemos como as deambulações de personagens, figurantes, ou até do olhar do próprio narrador, nos arrastam para uma sucessão de planos cinematográficos, uma corrente de imagens.
Esta observação do ambiente circundante é, em si, uma viagem pela qual o narrador guia o olhar do leitor, fazendo-o coincidir com o seu e o das personagens. A mesma técnica é usada quando se fala de viagem em sentido mais estrito, por oposição à deambulação pela cidade, havendo, pois, uma forte correlação entre estes dois tipos de movimento.
No livro de contos Para averiguar do seu grau de pureza, o papel da cidade é desde logo claro. Ela é repositório e palco da pluralidade de vozes que têm espaço na narrativa. Não obstante, é também um organismo vivo, dinâmico, um gerúndio, como é descrita no último conto deste livro, “Silêncios”.
Faço isto todos os dias. Apanho aqui o eléctrico e sento-me num lugar à janela [...] Trago comigo um livro e entretenho-me assim, a ler e a olhar o que se passa lá fora, como se fosse a cidade que andasse e eu estivesse parado, as ruas num gerúndio muito próprio, só delas, delas todas juntas e de cada uma delas separadamente, indizível, sei que é pouco mas é o que me mantém vivo. [3]
A cidade é fragmentada pela subjectividade do observador (neste caso embalado pelo movimento do eléctrico), que capta e isola imagens. Curiosamente, são esses instantâneos que, ao criarem uma teia de ligações, fazem da cidade aquilo que ela é, uma unidade singular, um “gerúndio indizível”.
Esta definição do que é a cidade e do lugar que ela ocupa na narrativa encontra-se reflectida em toda a obra subsequente de Jacinto Lucas Pires. Ainda assim, é possível tomar Azul-turquesa (1998) e Livro usado (2001) como exemplos perfeitos para ilustrar esta questão.
Recorrendo a uma expressão usada por Urbano Tavares Rodrigues [4], Azul-turquesa é um “cine-romance”, de câmara apontada para a cidade, palco do encontro de duas personagens: José, um professor de matemática, e Maria, uma jornalista, os dois perdidos num sítio tão familiar quanto alienante, rodeados de figurantes com um lado humano e outro algo automatizado pela rotina dos dias e dos comportamentos.
Em Azul-turquesa, Lisboa é retratada através dos detalhes e do quotidiano: as ruas, o metro, as lojas, o vaivém daqueles que a habitam (os novos, os velhos, os loucos, todos os que representam a estranheza incorporada pelo espaço urbano). De resto, são, por vezes, as mais pequenas coisas que servem de mote para uma reflexão ou que nos dão pistas de leitura: uma frase repetida, o nome de uma loja, um sinal luminoso, a conversa de alguém que passa. São estes pormenores que lembram o leitor de que esta é uma história que pertence a um tempo, o presente, e a um espaço, a cidade. Nada é casual, pois o olhar que guia o de quem lê é atento e crítico ao que o rodeia, ao “bailado de fios invisíveis” que nos envolve, para usar uma expressão do último romance de Jacinto Lucas Pires, Perfeitos milagres [5].
Livro usado, por sua vez, é o resultado de uma visita de Jacinto Lucas Pires ao Japão e que se centra, naturalmente, no tema da viagem. Trata-se de um livro no qual o escritor registou os percursos que fez pelas cidades que visitou, das impressões e dos pequenos incidentes, através dos quais se marca, no fundo, a igualdade entre povos, mas também a sua individualidade cultural. Se são as coisas mais banais que revelam que a vida corre da mesma maneira a Este (as pessoas que passeiam nos jardins em Tóquio ou que regressam a casa ao fim do dia são as mesmas no Brasil, em Portugal ou no Japão), é, do mesmo modo, a rotina que evidencia as diferenças: no metro, “uma mulher pequena, de óculos e com uma máscara de cirurgião na boca”; “um rosto de fada ou de bruxa, todo pintado de branco” [6]; um homem novo que se levanta do seu lugar na carruagem para, em sinal de respeito, cumprimentar um outro homem, mais velho, com uma vénia, retribuída de forma mais comedida.
Afinal, diz-nos o próprio Jacinto Lucas Pires, numa intromissão da escrita na observação da vida, que o objectivo não é outro senão o de “escrever sobre a vida, fazer da vida o assunto, compreender a vida” [7]. Esta frase “óbvia” e “difícil” é, na verdade, o que está por detrás de cada viagem e de cada cidade.
Os universos cinematográfico e teatral continuam a ser presença e método de escrita:
Logo a seguir, como num filme, um rapaz lança-se a correr atrás de uma rapariga que é só um ponto lá ao fundo, longe. A multidão de velhos de tichârte, jovens executivos e mulheres novas de sapatos altos fica pasmada a olhar. O rapaz corre, corre, mas quando está mesmo a apanhá-la, a rapariga, lembrando-se de alguma coisa, pára e dá meia volta; e os dois acabam por ir um contra o outro, surpresos e felizes (como num filme). [8]
[...]
De manhã, sob o céu branco, as pessoas aparecendo na rua como num palco, numa peça de teatro nô. [9]
À transposição (meticulosa e de uma visualidade acutilante) para palavras da luz das cidades, do seu bulício não são estranhas as linguagens do cinema e do teatro. É este cruzamento da escrita com a imagem que transforma cada cidade e cada viagem, nela ou para ela, num acontecimento cénico em perpétuo movimento.
Referências
[1] Edições Cotovia (Portugal), 1999
[2] Lançados em 2005. Em Portugal, Azul-turquesa foi lançado em 1998 e Livro usado em 2001. Ambos pela Edições Cotovia.
[3] Pág. 71
[4] Em nota sobre o livro Azul-turquesa (disponível aqui)
[5] Edições Cotovia (Portugal), 2007
[6] Págs. 16-17
[7] Pág. 21
[8] Pág. 20
[9] Pág. 28
Aida Cardoso nasceu em Lisboa, em 1983. É licenciada em Estudos Portugueses e frequentou o curso pós-graduado de Especialização para Técnicos Editoriais. Actualmente, trabalha num projecto de investigação linguística e é revisora. É também a autora do blogue Olho da Letra, dedicado aos livros e à leitura.




