Teoria da literatura
Henrique Fialho
Há pouco mais de 10 anos, Fernando Guerreiro (n. 1950) publicou um pequeno volume intitulado Teoria da Literatura (Junho de 1997), o primeiro de um ciclo que continuou com os volumes Outono (Julho de 1998), Gótico (Junho de 1999), Grotesco (Dezembro de 2000) e encerrou com Caminhos de Guia (Dezembro de 2002)*, todos vindos a lume na Black Sun Editores, projecto editorial dirigido pelo próprio autor. Gótico valeu-lhe a atribuição do Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia em 1998, o qual foi, se bem me lembro, prontamente rejeitado. A discrição de Fernando Guerreiro é por demais conhecida, manifestando-se, desde logo, no facto do seu nome não aparecer, por exemplo, na capa dos livros que compõem o ciclo iniciado com Teoria da Literatura.
Esta discrição, que não deve ser confundida com arrogância, nem pode, neste caso, explicar-se por um qualquer tipo de marginalidade voluntarista, é uma característica dos autores que vivem a poesia para lá das recepções, dos encómios, da visibilidade mediática — sempre tão discutível num país de 10 milhões de habitantes e 300 leitores de poesia. Ela foi-se tornando evidente desde a primeira obra do autor, Livros I e II (1977), profusamente rasurada e anotada à mão numa singela impressão, em off-set, da qual foram feitos apenas 250 exemplares (distribuídos pelos amigos ou vendidos ao preço unitário de 100 escudos, como se informava no cólofon). No entanto, a discrição não impediu o crescimento da obra de Fernando Guerreio, quer a obra poética, quer a obra ensaística, nem conteve o seu reconhecimento pelos aficionados da poesia e por alguns diligentes analistas do meio literário português.
O ciclo de obras que agora relembro foi especialmente marcante no contexto dessa afirmação, mostrando um poeta no qual a cisão com o filosófico, muito à maneira do que sucedia com os idealistas alemães, era, de algum modo, eliminada. O próprio título Teoria da Literatura remetia-nos para um campo teórico há muito afastado da poesia portuguesa, um campo de interrogações várias sobre o putativo fim da literatura e o sentido da poesia:
“Para quê escrever poesia?”; “poder-se-á considerar a Filosofia um efeito / da Literatura?”; “De que catástrofe, na sua memória, / emerge ainda a poesia?”; “O que se pode exigir da poesia?”; “Qual o valor real dos símbolos?”; “O que se pede da poesia?”
(Cf. Teoria da Literatura)
Todas estas interrogações foram sendo desenvolvidas nos volumes subsequentes, em poemas nos quais impera um discurso narrativo, formalmente desinteressado, justaposto a um esforço filosófico sem limitações estilísticas a circunscreverem-lhe a acção.
Os poemas de Outono inserem-nos numa fase crepuscular, repleta de enigmas, incertezas, paradoxos, lançam-nos no território resvaladiço da poesia, pelo menos quando ela transcende a barreira que separa o pensamento dos sentimentos, desafiam-nos os preconceitos ao mesmo tempo que nos introduzem no lugar daquele que escreve:
Quem / escreve lembra-se apenas de um Outono - / cujas folhas, por entre as palavras, / não nos deixavam sequer aperceber / as cores tintas do crepúsculo.
(Outono, p. 23)
O Outono é a estação mais propícia à literatura, é a estação da queda, o nascimento, por assim dizer, da morte, é uma estação transitória, tal como outra coisa não pode ser a literatura. Ao interrogar-se sobre o sentido da literatura, Fernando Guerreiro interroga-se igualmente sobre o sentido de tudo.
A história deu-nos a provar o sabor do caos, descerrou o corpo da ruína. Já não olhamos para o passado com nostalgia, olhamo-lo como quem vê a morte anunciada, a prova irrefutável de que caminhamos para o abismo. Que sentido, então, para a literatura? O sacrifício do belo, uma dança de fantasmas, a ruptura dos consensos:
um passeio distraído entre o destino e a mágoa em que / só os mais simples, para dele nunca mais regressarem, / sem reservas mergulham.
(Gótico, p.54)
O sentido da literatura é a experiência do terror que aquele que escreve sente ao passear dentro de si, perdendo-se entre os escombros de uma cidade bombardeada, na vegetação de uma floresta obscura, por entre os vales fundos de uma montanha que importa escalar. O princípio da poesia é, pois, arrancar uma palavra à morte, permitir que do terror em que mergulha aquele que escreve possa vir à superfície uma palavra que algo mais acrescente ao mundo. Mas será isso possível?
Não se trata já de tratar a poesia como um elemento decorativo da literatura, trata-se de assumi-la como uma espécie de renovação grotesca da palavra. É o uso simétrico das palavras que a poesia revoga, dando-lhes novos sentidos, novas aplicações, rasgando-as, não as destruindo, arrancando-lhes das vísceras significados ocultos. Daí que a experiência poética seja monstruosa, na medida em que se torna “o lugar onde a linguagem opera o seu extermínio” (Grotesco, p. 16). “No entanto, que tipo de escrita / é ainda possível quando da vida qualquer experiência se revela / infrutífera?”(Grotesco, p. 38).
Talvez não exista resposta para esta questão, talvez a própria questão se responda ao afirmar, implicitamente, o carácter infrutífero de qualquer experiência. É nesta paisagem desoladora que a poesia cresce. O problema é ser do conhecimento daquele que escreve a impossibilidade de escapar à experiência da escrita, a esse terror, como quem escala uma montanha para, no cume, registar uma paisagem que por lá deixa quando regressa à base.
Escrever não é buscar anestesiantes para a dor, não é “a procura de saídas / para o abismo”, é antes um suicídio lento, é a transmutação de um corpo num novo corpo, a palavra, é um apelo para a queda. Desmistifica-se, deste modo, a ideia da experiência poética como uma experiência sublime, uma experiência de revelação e de encontro com uma luz que, chegados ao cume da montanha, está sempre para lá do mais alto dos lugares.
Chegar a esse lugar é ter a perspectiva do precipício, é sentir a vertigem da queda. Com ironia: “Eis resolvido / o enigma da poesia: para / quem lê, uma cropofagia / das alturas” (Caminhos de Guia, p. 79). Questionar a poesia através da prática do poema é recorrente. Ninguém o fez tão bem como Fernando Guerreiro, cujos poemas são o osso da literatura a mostrar-se através da carne rasgada da palavra poética.
* Os livros citados não foram lançados no Brasil.
Henrique Manuel Bento Fialho nasceu em 1974. É licenciado em Filosofia. Tem sobrevivido como pode e sabe: docente, caixeiro, redactor, formador, explicador, operador de telemarketing, etc… Publicou os livros: Neoménia seguido de Outros Exorcismos (1997), Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe (2000), antologia do esquecimento (2003), Estórias Domésticas & Outros Problemas (2006) e O Meu cinzeiro Azul (2007). Textos seus encontram-se nas antologias Cerejas (2004), Canto de Mar (2005), Poema Poema (2006), Um Poema Para Fiama (2007) e Contos de Algibeira (2007). Colaborou, entre outras, com as revistas Big Ode, Saudade e Sulscrito. Foi, durante 8 números, parte integrante do corpo editorial da revista on-line Minguante. Escreve em seu blog.




