Um corpo, um narrador, uma história
Tiago Martins
Às vezes sigo conselhos aleatórios de jornais ou revistas sobre o que ler. Todo o leitor obsessivo, penso, tem medo de perder seu tempo com uma leitura suspeita, mas, nas poucas vezes em que usei a intuição, não me arrependi. Há alguns anos, ao ler um comentário em alguma revista sobre o escritor húngaro Sándor Márai, resolvi ler Rebeldes. Hoje, Márai é um dos meus escritores favoritos. Assim também descobri Amilcar Bettega, Stephen Zweig e, sobre quem gostaria de dizer algumas palavras, Adriana Lunardi.
Aceitando uma indicação jornalística, li Vésperas, um delicioso livro de contos publicado pela Rocco em 2002. Em 2006, o romance Corpo estranho foi lançado. Adriana Lunardi teceu um livro que impressiona por sua simplicidade ficcional, numa época em que tudo vira espetáculo, e por sua alta qualidade estilística, quando esses espetáculos não têm qualidade alguma.
Considerações sobre o narrador de Corpo estranho
Segundo Adorno, no ensaio Posição do narrador no romance contemporâneo, a posição de quem narra, hoje, caracteriza-se por um paradoxo. Não se pode mais narrar. No entanto, a forma do romance exige a narração. Benjamin e ele, nesse aspecto, estão em plena sintonia. Em O narrador – considerações sobre a obra de Nicolai Lescov, Benjamin afirma: “(…) a arte de narrar está em vias de extinção”.
As artes parecem se transformar e se sobrepor à medida que vão perdendo sua essência. Elas precisam dessa transformação para não deixar que sua atualidade morra. A pintura perdeu muito com o advento da fotografia e muito foi subtraído do romance com o surgimento do cinema, no início do século XX. As longas descrições de cenários e cenas que encontramos em Balzac e Stendhal, por exemplo, não cabiam mais nas obras literárias numa época em que poucos segundos eram suficientes para que um cenário todo nos fosse mostrado nas telas em branco e preto daquela nova arte. O romance, então, acabou por se renovar para não perder sua atualidade e sua, digamos, “posição cultural”.
Não foi apenas o cinema o responsável pelas mudanças na estrutura do romance. Para Benjamin, a difusão da informação é decisivamente responsável por isso. E a informação é distinta do “saber”. O saber vem de longe e encontra, atualmente, menos interessados que os que têm pleno interesse na informação de acontecimentos factuais.
“Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes.” (Benjamin, op. cit.)
E se quando Benjamin fez tal análise a informação já era mais importante do que o saber, hoje esse fato pode ser elevado à mais alta potência. Somos sobrecarregados o tempo todo e a quantidade de informações é considerada mais útil que a carga de sabedoria. A informação, diz ele, só tem valor no momento em que é nova:
Ela só vive nesse momento, precisa entregar-se inteiramente a ele e sem perda de tempo tem que se explicar nele. Muito diferente é a narrativa. Ela não se entrega. Ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver.
Se a informação corre rápido demais, na aldeia global em que vivemos, e diminui fortemente o papel da narração, então o paradoxo de narrar — já que não se pode eliminar o narrador de um romance — é resolvido com a transformação desse narrador. Eis onde quero chegar. O narrador comum que narra os fatos como são vistos, que narra o mundo externo, não é mais interessante ao romance. Essa narração comum é vista todo dia nos jornais. Os fatos, muitas vezes, são apresentados como uma narrativa e ela transmite uma informação. O novo narrador deve ultrapassar esse sistema tão concreto, tão externo, tão estandartizado que é o “mundo novo”.
O realismo era imanente ao romance: mesmo os romances que pelo assunto eram fantásticos tratavam de apresentar seu conteúdo de tal maneira que disso resultasse a sugestão do real. Este procedimento tornou-se problemático no curso de uma evolução que remonta ao século XIX e hoje se vê acelerada ao máximo. Visto do ponto de vista do narrador, o fenômeno se deu por causa do subjetivismo, que não admite mais a matéria intransformada (…)
(Adorno, op. cit.)
Ou seja, o narrador precisa ir além da narração comum, precisa fazer aquilo que a informação e a simples análise a olho nu da realidade não conseguem. E é justamente essa transformação da matéria, essa alteração nas características do narrador que encontramos no romance Corpo estranho, da catarinense Adriana Lunardi, também autora de As meninas da torre de Helsinque (1996).
Corpo Estranho é o primeiro romance de Adriana e transmite a idéia de que mais importante do que a história é a maneira como ela é contada. O enredo, pois, é relativamente simples. Temos Mariana, uma pintora de sessenta e poucos anos que vive isolada em uma espécie de casa de campo, e está às voltas de uma bromélia que, aninhada nos galhos de um jequitibá-rosa, está prestes a exibir uma única e rápida floração. Mariana quer registrar esse nascimento em uma tela, mas surge um conflito: a ausência de uma cor chamada Quinacridone Red.
Do outro lado da história, na cidade, a jovem Manu — encantada pela arte da fotografia — vai ser encarregada por Paulo de entregar à Mariana a bisnaga de tinta tão importante para o sucesso da tela. Paulo e Mariana travam uma silenciosa e distante relação desde a morte de José. E o mistério dessa relação e também a obscuridade dos fatos em relação a tal morte vão sendo revelados lentamente. A simplicidade do enredo não é, no entanto, acompanhada por uma simplicidade na linguagem, depreender essa linha coerente de fatos exige algum trabalho e dedicação por parte do leitor.
O narrador deste romance se aproxima cada vez mais do objeto narrado e por vezes ele é o próprio objeto. Se compararmos o narrador atual, esse que precisou se transformar, com o narrador da estrutura épica, vemos uma clara diferença. Na estrutura épica, há uma grande distância entre o narrador e o herói. O narrador de Adriana Lunardi é tão próximo das personagens que se incorpora a elas de tal maneira que quase não vemos diferença entre quem narra e o objeto narrado. E aqui se pode estabelecer uma diferença ou até mesmo uma tipologia de narração: quanto mais o narrador descreve e esclarece, menos o leitor trabalha e vice-versa.
O livro segue a estrutura de terceira pessoa com o uso do chamado narrador onisciente múltiplo, ou seja, um narrador que toma a visão de várias personagens. O narrador de Corpo estranho toma principalmente as óticas de Mariana e Manu, fazendo um jogo em que destina um capítulo para cada uma. Nos capítulos em que Mariana é o foco, esse narrador vê tudo através dos olhos dela, no entanto, ele se incorpora em Mariana de tal modo que quase se torna ela. Ele sente o que a personagem sente, sabe o que a personagem sabe. No caso de Mariana, o narrador tem seu conhecimento especialista, quase técnico sobre botânica, história da pintura, até a alta percepção para as cores e nomes de tinta. Tomemos este trecho como exemplo:
O branco é, contudo, o único ausente na antiga caixa de madeira onde Mariana guarda suas bisnagas Winsor&Newton. Embora a marca inglesa ofereça a cor, aquele papel 100% algodão esticado no cavalete tem a alvura necessária para os propósitos da aquarela, sem necessidade de mascará-lo com o Chinese White do catálogo.
(p. 27)
Essa aproximação intensa narrador-objeto ocorre com todas as outras personagens: o narrador está tão próximo delas que quase temos a impressão de ler uma narrativa em primeira pessoa. No entanto, é a prosa elegante e minuciosa da autora que nos lembra a cada frase que temos uma narração em terceira pessoa.
Nos capítulos destinados a Manu, a jovem personagem, o narrador adquire o olhar fotográfico dela, tem grandes conhecimentos sobre seringas de glicose, além de possuir o tom vivaz, original, jovem e por vezes cansado que Manu carrega.
Cabe aqui citar Benjamin:
(…) o narrador figura entre os mestres e os sábios (…). Pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer).
A memória do narrador, em oposição à memória do romancista, é breve. Em Corpo estranho, uma vez que o narrador toma as personagens por completo, ela também adquire a memória dessas personagens. E o passado de Manu, Mariana e Paulo são retomados de maneira fragmentada e paulatina. Exatamente como funciona a memória humana. Ao contrário de muitos romances que dedicam alguns capítulos — às vezes de maneira artificial — para contar o passado das personagens, no romance de Adriana Lunardi o passado é retomando lentamente ao longo do livro e, ao final dele, muitos fatos desse passado nos ficam obscuros. A morte de José é uma incógnita: no início nem sabemos que ele é, nem sabemos qual a relação dele com Paulo e, logo, qual a relação de Paulo com Mariana, mas dessa maneira fragmentada o passado vai sendo recordado por Mariana e Paulo e nós, leitores, que ficamos em uma expectativa ansiosa, vamos descobrindo o que aconteceu, sem em momento algum descobrir tudo o que aconteceu.
Ao final do livro, quando as personagens, até então vivendo em seus próprios capítulos, passam a interagir, o narrador vai cambiando entre uma e outra numa velocidade instigante.
E desse enredo simples, dessa história que se passa em um dia, mas também em vinte anos e em dez minutos, surge esse narrador artesanal. É a “arquitetura ideal” da narração. Uma narração totalmente subjetiva, já que temos um mundo por demais concreto para enfrentar.
(…) Quanto mais os homens — indivíduos e coletividade — ficaram estranhos uns aos outros, tanto mais enigmáticos eles se tornaram, ao mesmo tempo, nas suas relações mútuas, e a tentativa de decifrar o enigma da vida exterior, o impulso propriamente dito do romance, passa a ser o esforço de captar a essência que, justamente na estranheza familiar posta pelas convenções, aparece, por seu turno, assustador, duplamente estranho. O movimento anti-realista do romance, sua dimensão metafísica, é ele próprio produzido pelo seu objeto real — por uma sociedade em que os homens estão separados uns dos outros e de si mesmos. Na transcendência estética reflete-se o desencantamento do mundo.
(Adorno, op. cit., grifo meu)
Se a narração comum constitui-se apenas em contar uma história e esse império da informação obriga o romance a transcender, então a narração tem o papel de transformar a matéria narrada. A relação entre a narração e a história em Corpo estranho é artesanal. Temos um enredo simples no sentido de que é bastante cotidiano e uma narração de alta qualidade estética. Assim, talvez, isso responda à pergunta de Benjamin, que é exatamente essa: se não seria, a relação entre o narrador e sua matéria, uma relação artesanal? Não seria tarefa do narrador trabalhar a matéria prima da experiência — a sua e a dos outros — transformando-a num produto sólido, útil e único? Transformando-a, quem sabe, num corpo estranho.
Referências
ADORNO, Theodor. Posição do narrador no romance contemporâneo. In: Série Pensadores. Adorno. São Paulo: Abril Cultural, 1986.
BENJAMIN, Walter. 1936. O narrador – Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Textos escolhidos. São Paulo: Brasiliense, 1985.
LUNARDI, Adriana. Corpo Estranho. Rio de janeiro: Rocco, 2006.
Tiago Martins é graduando em Letras pela UFRGS, professor de Redação e revisor de textos. Tem contos publicados no livro Oficina 31, organizado por Luiz Antonio de Assis Brasil, e na revista virtual Bestiário, edição de abril/2004.





Uma aula de “narrador” esse artigo. Mesmo pros que não leram o romance, como eu. (Aliás, foi intenção da sessão de artigos escrever sobre Teoria da Literatura? dois textos muito bons sobre o tema). Bom, sou professor de Teoria e aquela clássica frase do Buffon “o estilo é homem” pode dizer algo, ainda, sobre a idéia de que a transcendência estética representa o descontamento com o mundo. Claro, essa idéia é menos apetitosa que a do Adorno, mas se existe algo que representa fortemente um escritor e sua personalidade, esse algo - além dos personagens ou fatos - é a sua narrativa, seu estilo.
“O narrador comum que narra os fatos como são vistos, que narra o mundo externo, não é mais interessante ao romance.”
Mas nós ainda não temos grandes romances e textos em que a narração é simples e não tão transcendente e inovadora quanto parece ser a deste romance? Penso no Rubem Fonseca por exemplo, cru, duro e direto em sua narrativa.