Pelo clichê
Lucas Murtinho
Na primeira aula da sua oficina de contos no Portal Literal, José Castello sugere um exercício ao aspirante a escritor: escrever um conto ambientado na praia de Copacabana sem usar cem palavras e expressões como “Copacabana”, “areia”, “praia” e “água de coco”.
A idéia desse exercício, explica Castello, é levar o aluno a refletir sobre as facilidades oferecidas por clichês, lugares comuns, e tudo o mais que escrevemos “sem pensar”. Eles podem ser úteis para a publicidade, para o marketing, para a propaganda, até para o jornalismo — não para a literatura.
Exercício e comentário me fizeram pensar num artigo famoso de Harold Bloom sobre Harry Potter, Can 35 Million Book Buyers Be Wrong? Yes. O argumento central de Bloom é que ler Harry Potter é, se não nocivo, inútil. No começo do artigo Bloom faz duas perguntas: é melhor ler J.K. Rowling do que não ler nada? Os leitores de Rowling passarão mais tarde a “prazeres mais difíceis”? Fica claro no fim do texto que a resposta de Bloom para ambas é não. Mas essas perguntas, para meus propósitos imediatos, interessam menos do que um dos motivos que fazem Bloom considerar Rowling uma escritora medíocre:
Her prose style, heavy on cliche, makes no demands upon her readers. In an arbitrarily chosen single page — page 4 — of the first Harry Potter book, I count seven cliches, all of the “stretch his legs” variety.
Essa tentativa de provar objetivamente a ruindade de um texto a partir de uma contagem de clichês é válida? Podemos saber se um texto é bom ou ruim simplesmente pelo número de clichês presentes?
Procuro evitar clichês quando escrevo, portanto não discordo totalmente de Bloom e Castello. Mas transformar essa preferência em obsessão pode levar o escritor a sacrificar a agilidade, e mesmo a clareza, do texto em nome da originalidade, o que nem sempre será uma troca vantajosa. Não há, por exemplo, resumo melhor para esta última frase do que dizer que evitar clichês é uma faca de dois gumes.
Alguns responderão: mas ninguém disse que escrever bem é fácil. O desafio é justamente criar um texto claro e agradável sem o uso do que é velho e gasto — a praia sem a água de coco. Mas há algo de artificial nesse desafio auto-imposto, diferente em grau mas não em natureza de La Disparition, romance que Georges Perec escreveu sem usar a letra e. Seduzir o leitor é um desafio grande o bastante e evitar clichês é um bônus que não deveria se transformar em objetivo. O que não é uma crítica ao exercício proposto por Castello: para aprimorar o estilo, as barreiras artificiais são justificadas, assim como usamos pesos para fortalecer nossos músculos. Mas a noção de que o clichê é inútil para a literatura me parece extrema.
Parte do poder de sedução de um texto depende de uma boa história — algo geralmente desprezado por críticos literários, que se concentram na forma em detrimento do conteúdo. Com alguma razão: nossa apreciação da história depende fundamentalmente da forma como ela é contada. E um dos elementos mais importantes e elusivos da forma é o ritmo, ou melhor, os ritmos: o da história e o do texto. O ritmo da história se refere à duração das cenas e à velocidade de avanço da trama: um duelo pode se resolver em dois parágrafos ou se estender por trinta páginas, e a experiência do leitor obviamente não será a mesma nos dois casos. O ritmo do texto se refere ao tamanho das frases e dos parágrafos, ao significado e ao som das palavras. Não sei se clichês viram clichês por ter um bom ritmo ou — o que me parece mais provável — se o ritmo dos clichês parece bom porque já nos acostumamos a ele. De qualquer forma, clichês são frases com um ritmo seguro, que podem servir de bóia de segurança. Claro, nadar sem bóia é melhor do que nadar com bóia. Mas nadar com bóia é melhor do que se afogar.
Clichês são particularmente úteis para escritores que querem acima de tudo contar uma boa história, e poucos escritores contemporâneos são tão dedicados à história quanto J.K. Rowling. Para Harold Bloom, exigir pouco dos leitores, espalhar bóias de segurança em excesso, é um defeito dos livros de Rowling. Mas o contraponto de diminuir o esforço necessário à compreensão do texto é facilitar a absorção da história. Como a forma do clichê é uma velha conhecida, seu uso nas horas e lugares certos (o que, justiça seja feita, talvez não seja o caso nos livros de Rowling) mantém o leitor concentrado no conteúdo.
A lógica do clichê é oposta à do crítico literário. Para este, a forma é o objetivo do texto; para aquele, a forma está a serviço do conteúdo. Noventa e nove por cento dos críticos literários podem estar errados? Sim. Eles podem não gostar de escritores que sacrificam a inventividade formal, mas há outros leitores com outras expectativas. Para quem abre um livro esperando encontrar ali uma boa história contada de forma simples, o clichê pode ter o seu valor. O objetivo primeiro da literatura, antes de nos tornar pessoas melhores e expandir nosso horizonte de pensamento, antes de nos impor desafios intelectuais e nos oferecer prazeres difíceis, é entreter. E o clichê, quando ajuda a alcançá-lo, merece aplausos de pé.
Lucas Murtinho é o organizador da Copa de Literatura Brasileira e assistente editorial da Dantes Editora.





[...] aspectos que deram origem ao boom literário (”boom literário” é um clichê que eu gosto muito!) que está vindo do [...]
A grande questão vc sendo leitor ou crítico é: em qual desses extremos se encaixa: como alguém q gosta de ler por puro entretenimento, não ligando muito para “erros” do escritor como os clichês, ou alguém q coloca a estética do texto, o modo de contar acima do que está sendo contado.
O ideal seria não ser nem um nem outro, mas um equilibrio entre ambos. Pois aqueles que só lêem por prazer sem prestão atenção as técnicas e arte e originalidade do autor estão perdendo algo que além de instrutivo pode ser prazeiroso. Conhecer a história do local onde viajamos nos faz ver tudo com outros olhos, os mentais. Já os que se apegam tanto à técnica que chegam ao ponto de aborrecer-se com “erros” do escritor tendem a deviar a sua atenção da estória para os detalhes. Acabam aproveitando bem menos a viagem os que só observam os defeitos do automóvel.
1 abraço.
Penso que o grande problema dos clichês seja a não-autoria. Para mim, exagerando um pouco, quando um autor que se utiliza de clichês, ele está plagiando, talvez o senso comum, não sei. Mas alguém que usa um clichê está se valendo de estruturas prontas; não fazendo esforço para “criar” com sua própria pena. Existem outros modos de tornar a leitura acessível e fluída, de torná-la um entretenimento, muito embora ache discutível dizer que a literatura tenha como objetivo primeiro o entretenimento. E, apesar de discordar, acho que vale dizer que eu gostei muito do texto.
Os clichês são os eficazes sinalizadores para um texto criativo e a eventual combinação destes com demais recursos originais é a fórmula do êxito…
Reparou a quantidade de clichês nisso? He,he,he…