Literatura islâmica: das explosões ao estereótipo ocidental


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André Gazola

Vivendo o 11 de setembro pela sexta vez logo após aquela manhã de 2001, que deixou o mundo inteiro em choque, perguntei-me abismado: O que sabíamos sobre o islã em 10 de setembro? Nada. Ao menos eu não sabia nada.

Osama Bin Laden, Saddam Hussein, Al Qaeda. Não brinca? Tem gente que se mata por Alá? Mais um no Pentágono! Alcorão? E os prédios vêm a baixo. Então, nos perguntamos se nossa cultura ocidental é tão relapsa a ponto de ignorar o Oriente, para ser atingida em cheio, sem aviso, numa manhã de terça-feira.

Logo veio a revolução. Primeiro, dos americanos no Afeganistão; depois, do mundo inteiro contra os americanos. O fato é que o Ocidente por fim começou a conhecer como é, afinal, aquela sociedade em que os homens podem ter várias esposas, as mulheres usam burcas e os homens-bomba… explodem. Teve até a novela. Alguém lembra do nome? Nem eu.

Na literatura não foi diferente. O que começou com Salman Rushdie e seus Versos Satânicos (1989), ganhou nova vida e significado depois da tragédia nos Estados Unidos.

Um dos primeiros títulos a provocar alvoroço foi O Livreiro de Cabul, que, apesar de ter sido publicado no Brasil apenas em 2006, pela editora Record, está na mira dos críticos desde 2002. Asne Seierstad, a jornalista norueguesa que chocou o mundo fazendo algo que poucos repórteres de guerra fariam — ela morou por três meses com uma família afegã — não estava interessada no que Bush ou Blair pensavam, mas sim em mostrar a vida daqueles miseráveis cujo país estava sendo devastado.

As habilidades jornalísticas de Seierstad brilham ainda mais em seu 101 dias em Bagdá (Record, 2006). Nele, simplesmente não há tentativas de impôr sua própria opinião. Ela observa, faz perguntas e narra, maravilhosamente narra. Entre suas cuidadosas considerações, o leitor é transportado ao cenário de um Iraque devastado antes, durante e após a invasão americana.

Evidentemente, a nova moda de hypes literários não deixou essa oportunidade escapar. Com a resposta furiosa de Shah Mohammed Rais em seu Eu sou o livreiro de Cabul (Bertrand, 2007), vieram: As mulheres de Cabul (Geração, 2006), As andorinhas de Cabul (Sa, 2006), Cabul no inverno (Novo Conceito, 2006) e, pasmem, O salão de beleza de Cabul (Campus, 2007). Independentemente de seus intuitos capitalistas-ocidentais, toda essa lista demonstra claramente quão ignorantes somos nós, senhores do consumismo.

Provavelmente, o súbito interesse por essa cultura, antes tão obscura, derive da grande necessidade de conhecer o outro, o oposto, o diferente. É exatamente essa a razão do sucesso de Khaled Housseini e seu O caçador de pipas (Nova Fronteira, 2005). Um livro que começou a ser escrito ainda antes do atentado, mas que, segundo o autor, teve nele seu principal motivo de publicação.

Housseini retrata a universalização das experiências humanas: o ódio, a vergonha, a culpa, o amor, a inveja, a amizade, o perdão. O que seduz o leitor não é simplesmente a possibilidade de entender o outro, suas diferenças e a diversidade cultural, mas descobrir que aquele estranho, que vive num universo demonizado por sua própria cultura, é tão parecido com ele em suas emoções, conflitos e desejos.

Ao falar de tantos best-sellers e fazendo-os paralelos a um fato histórico, pode-se passar a impressão de que os autores apenas se aproveitaram da oportunidade, pondo em dúvida a real qualidade de suas obras. No entanto, no ano de 2006, o Prêmio Nobel de Literatura reafirmou o magnífico fluxo literário que vem do Oriente. O turco Orhan Pamuk, autor de Neve (Companhia das Letras, 2006) e do consagradíssimo Meu Nome é Vermelho (Companhia das Letras, 2004), é simplesmente um mago da narrativa, sendo inclusive comparado com o escritor francês Marcel Proust, um verdadeiro mito nesse tipo de obra.

Apenas para elucidar. Em Meu Nome é Vermelho, há vários narradores: dezenove, eu disse dezenove diferentes vozes desde um cachorro, um morto, uma moeda falsa, até a própria cor vermelha. Muitos já consideram esse livro um clássico da literatura contemporânea.

A grande crítica de Pamuk, além de todo o sistema social de seu país, decorreu na denúncia do massacre cometido por seus conterrâneos contra os armênios, durante a Primeira Guerra Mundial, e o genocídio de 30 mil curdos, posteriormente. Suas polêmicas declarações o tornaram alvo dos nacionalistas turcos, que o consideram um traidor da pátria, sendo, inclusive, ameaçado de morte em janeiro desse ano.

Por fim, esse boom literário serviu para revelar uma cultura antes tão obscura para nós ocidentais e, mesmo que essa temporada oriental seja passageira — e certamente será — sabemos agora que, também para povos como os do Afeganistão, Iraque, Irã e Turquia, ironicamente, nós representamos poder, ameaça bélica e cultural.

André Gazola tem 19 anos, é estudante de Letras, Webdesigner e campeão de xadrez frustrado (frustrado apenas no xadrez por enquanto, que fique claro). Há um ano, vem aventurando-se pelo mundo da literatura com seu blog Lendo.org e pretende ser professor também de literatura, propondo práticas pedagógicas inovadoras no ensino da disciplina. A sala de aula como cobaia de experiências? Para ele, é isso mesmo.

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10 comentários  


  1. [...] uma boa pimenta deve ser. Na seção de artigos, está um texto meu entitulado Literatura Islâmica: das explosões ao esteriótipo ocidental, onde analiso alguns aspectos que deram origem ao boom literário (”boom [...]

  2. André,
    Antes de mais nada, parabéns pelo lúcido texto - técnico demais talvez - mas o importante foi o desfecho onde você afirma sem o menor escrúpulo (se eu bem entendi) que ao menos o 11 de setembro serviu para globalizar a cultura de lá. Concordo, porém às vezes fico pensando. Tudo bem, as culturas do planeta estão finalmente se homogeneizando, mas e agora? Agora que todos querem saber das burcas e da bigamia (?), me parece - desculpe a frieza - me parece que mais uma vez o Capitalismo venceu, porque como se vendem livros do gênero, descaradamente pelo mundo ocidental. Como não olharem para o Ocidente com receio deste canibalismo econômico?
    Mas o autor que você ilustra teu texto - Ohan Pamuk, deve ser de fato considerado um verdadeiro escritor e não mais um oportunista. Quanto a ser comparado a Proust, a princípio estranho já que, não que eu seja proustiana doente, mas jamais esperei quem quer que seja ser comparado ao escritor transgressor em sua homossexualidade intelectual e articuladamente filosófica, mas enfim… eu também não li Pamuk (ainda).
    Belo texto. Parabéns à Revista. Parabéns, André Gazola.

    Daisy Carvalho - 18/11/07
  3. Um ótimo artigo, André, se bem que deve ter sido escrito já a algum tempo, pois a lista de leituras “islâmicas” da moda aumentou consideravelmente. Acredito que há bom livros e escritores do lado de lá também, assim como em cada cultura o há.

    O que devemos diferenciar são os clássicos (quem não leu As Mil e Uma Noites ou Kahlil Gibran ou Averroés?) dos best-sellers com motivos menos literários. Eu mesmo li o Housseini e o comparo ao Dan Brown: leitura-passatempo somente para divertir e não lembrar nada 1 ano depois. Se há oportunismo e interesses financeiros acima do bem maior de produzir boa literatura? Claro que há. Mas sempre haverá público (e grande) que será gentilmente arrebanhado pelos pastores do marketing a consumirem vorazmente estes modismos literateiros.

    1 abraço.

    Jefferson Luiz - 19/11/07
  4. @Daisy: É até difícil encontrar alguma razão para dizer que o capitalismo não tenha vencido. Para o oriente, o simples fato de sabermos que eles existem, já é um grande passo. Mas não acredito que isso vá mudar alguma coisa na nossa cultura, ou na deles, além do simples conhecimento de causas e, talvez para eles, ainda mais repugnância.

    @Jefferson: Sequer tive a pretensão de cobrir tantas e tantas obras, me foquei naquelas que eu tive um maior contato, mas sem dúvida a lista é enorme. O oportunismo existe, sem dúvida, mas o bom disso tudo é que dispomos de muito mais opções e algumas delas são, inclusive, bem escritas, hehe.

    Obrigado e abraço.

    André - 19/11/07
  5. Gostei muito do seu texto, André.
    Não li todos os livros e alguns larguei na metade porque fiquei impressionada com a história. Mas isso não é o mais importante. De fato houve um “boom” após o 911, como é conhecido por aqui, uma explosão [cultural] em várias direções. Lembro-me que quando deixei o Brasil ainda se falava muito sobre o terrorismo, o mal do oriente, e por isso pensei que não fosse “encontrá-los” por aqui. Engano meu. Eles estão por toda a parte: donos de frotas de taxi, de lojas de conveniência, gerentes na bolsa de valores, e por aí vai. Que imagem equivocada eu tinha na minha cabeça! O incidente ainda é um tabu e pouco se escuta da boca dos nativos. O que gerou foi, sem dúvida, uma nação ainda mais paranóica e cheia de medos.

    Isabella Kantek - 20/11/07
  6. Se me permite, quero colocar algumas observações: primeiro, é normal não conhecer certas coisas quando se tem treze anos, era sua idade quando ocorreu o atentado, não era? Segundo, Nobel foi um indicativo de reconhecimento do talento de ninguém e não acredito que ele seria suficiente para reafirmar o magnífico fluxo literário que vem do Oriente. Terceiro, que tipo de narrativa Proust é um mito? Você não deixou claro. Pra mim é só mais uma onde da moda do exótico, o oriente interessa ao ocidente, no mínimo, deste os hippies dos anos 60, mas acho que podemos ver ondas de influência e interesse por toda a história ocidental (no século XIX, por exemplo, temos Richard Burton e Fitzgerald com suas traduções das Mil e Uma Noites e do Rubayat, por exemplo) e o atentado não foi o único evento recente envolvendo o oriente-médio, outras tantas guerras, conflitos, massacres… Mas os editores são espertos, a cada nova exposição de uma cultura na mídia inventam de publicar seus livros, e viram best-sellers, as pessoas, movidas pela mídia engolem, e a academia Sueca sacramenta com seu prêmio, muitas vezes mais político do que literário… Fato é que, literatura é o que fica, nada mais, só o futuro dirá se essa literatura sobrevive fora do contexto em que foi criada… Abraços

    Marco - 19/12/07
  7. Oi Marco,

    primeiramente, obrigado por suas observações.

    1. Tudo bem, eu tinha 13 anos quando aconteceu o atentado, mas “é comum não se conhecer certas coisas” a qualquer idade, na minha opinião, ter 13 anos não justifica o desconhecimento de nada, assim como ter 90 não justifica o conhecimento de nada.

    2. O Nobel não é um reconhecimento de talento? Então o quê é? Eu, na minha ignorância, não acredito que a Academia Sueca manipularia o resultado dessa forma.

    3. O foco de meu texto não é analisar Proust, usei-o como uma simples comparação para salientar a importância que está sendo dada a Pamuk no círculo literário internacional. Da mesma forma eu poderia dizer, digamos, que “Daniel Galera está sendo comparado com Machado de Assis pois ambos criticam o comportamento e vícios humanos.”

    Depois disso, só quero dizer que, para nós ocidentais, o impacto dos massacres, guerras, bombas ou sejá lá o que for que ocorreu e ocorre por aquelas bandas, sequer chega aos pés do 11 de setembro.

    Abraços

    André - 27/12/07
  8. Olá,

    Bom, você fez algumas perguntas e algumas observações que gostaria de responder:

    1. Sim, é verdade, só quis dizer que seu argumento não era bom, já que era um pouco novo para se interessar ou ter um conhecimento tão profundo quanto o narrador do texto supõe, é claro que podemos nos interessar por questões políticas e econômicas em qualquer época da vida, como também podemos ignorá-las por completo.
    2. Eu não acredito em prêmios como reconhecimento de talento, e, quanto ao Nobel, bom, os membros da academia sueca não são exemplos de virtude, muito pelo contrário, e isto é notório. Apenas procure por algumas polêmicas, como, por exemplo, deixar escritores de talento inegável de fora para premiar membros da própria academia… Quanto ao reconhecimento de talento: Leon Tolstoy, James Joyce, Virginia Woolf, Mark Twain, Vladmir Nabokov, Jorge Luis Borges (esta lista vai longe) não foram premiados por diversos motivos, mas principalmente políticos, entretanto, Henri Bérgson, Bertrand Russell foram premiadas com o Nobel de literatura e nunca publicaram um só trabalho de ficção… Apenas pegue a lista e de uma olhada… ok?
    3. Só quis dizer que não deixou claro o que ele tem em comum com o Proust, encontrei referências na internet sobre isso que vão desde ambos terem passado muito tempo em seus quartos quanto a traços estilísticos em comum…

    Sim, é verdade, foi um choque para nós ocidentais, principalmente para os americanos, mas já assimilamos isto, não acha? Hoje em dia, me parece, precisamos de cada vez mais para nos impressionarmos…
    Um abraço…
    P.S. Mas você conseguiu, pretendo ler o autor…

    Marco - 01/01/08
  9. Os Estados Unidos estão sendo conduzidos por pessoas de baixo nível, ganaciosas, vingativas e mesquinhas mas isso não pode justificar as consequentes ondas de anti-americanismo e anti-islamismo. Vamos aguardar o que virá por aí, na sociedade-espetáculo. Agora será preciso muito mais para nos assustar.

    Lucky Luciano - 15/01/08
  10. [...] Leia o texto de André Gazola na Revista Malagueta, Literatura islâmica: das explosões ao estereótipo ocidental [...]



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