O silêncio da palavra
Mariana Ianelli
É na linguagem que se dá o ser-aparição. Assim diz Jaa Torrano no texto de introdução ao poema Teogonia, de Hesíodo. Essa materialização do ente na palavra é o próprio fenômeno de deiscência da carne do qual falava Merleau-Ponty nos seus estudos sobre a obra de arte, ou ainda, uma experiência de significação realizada na literatura graças aos processos de criação do escritor.
Essa iniciativa criadora de trazer ao mundo o ser de modo a que seu espírito também se faça carne, a mesma carne de que, aliás, todas as formas vivas compartilham, trata de uma manifestação de momentânea ruptura do silêncio, pelo verbo, e do surgimento de uma presença positiva e determinada onde antes nada existe que não seja um terreno de infinitas possibilidades de revelação.
O processo de descoberta que leva o artista a interrogar os sentidos da realidade no engenho de sua arte, se, por um lado, alimenta a alma do mundo que ele traz dentro de si; por outro, mantém aberta a incessante atividade do pensamento em busca de uma expressão que seja ao mesmo tempo singular em sua forma e solidária em suas relações com a alteridade. Dessa energia em movimento se compõe a transubstanciação entre o escritor e seu livro, entre o livro e seus leitores, ou, na totalidade de uma obra, entre cada um dos livros, no interior de um só poema, entre cada um de seus signos.
A sincronia de um corpo atento à percepção do exterior com uma mente apta a criar formas artísticas e associações de raciocínio ainda não está completa se dela for subtraído o indiviso, aquilo que, participando das intelecções e operações sensíveis, vai além da dimensão material e do espírito; algo que subjaz à atualidade do tempo da criação e é capaz de estabelecer um elo invisível entre o passado e o porvir de obras literárias.
Visto como um ser de consciência originariamente encarnada, segundo Marilena Chauí (no livro A experiência do pensamento”, 2002), o escritor desempenha a prática de uma comunicação caracterizada pela experiência de uma iniciação aos mistérios do mundo, de tal modo plena, que integra a dimensão da exterioridade, da interioridade humana e, ainda uma terceira esfera, comum às outras duas. Embora não possa ser apreendida nem pelo calor das coisas, nem pela palavra poética, essa esfera de ausência habita igualmente o poeta e suas obras criadas (ou em processo de criação); um vazio que dispõe, desde sempre, de seres ausentes, em seu estado precursor de realização, tal qual uma semente de potencialidades.
A unidade indivisível do corpo do criador, ao projetar nos textos sua capacidade de linguagem, está produzindo no interior de si mesmo um outro, simultaneamente fruto de seu espírito e independente dele, uma vez destinado a ingressar no terreno de obras produzidas não apenas por autores que têm um nome e um corpo, mas obras como um todo pertencentes ao organismo da literatura de um certo país e de uma determinada geração em permanente metabolismo.
Dessa operação que satisfaz a possibilidade de criação em meio ao vazio, que desperta o pensamento sobre a superfície do silêncio, dessa diferenciação entre palavra encarnada com que o poeta nomeia o mundo e todo o restante ainda impronunciado descende a idéia de fissão do ser, proposta por Merleau-Ponty em um diálogo da ciência com as artes.
Para o filósofo Gaston Bachelard, o ser não está abaixo. Está acima, sempre acima — precisamente no pensamento solitário que trabalha e que necessita ver tudo, pensar tudo, dizer tudo, escrever tudo em primeira existência. Daí a conclusão do autor de que toda transformação de pensamento (…) está em uma reconstrução do espírito. O espírito de um ser que empreende a busca interminável do seu desdobramento em outro ser, a partir de uma consciência vigilante e perseguidora dos caminhos pelos quais a escrita nasce.
Ao contemplar a obra de Giacometti, sua estatuária e seus retratos — ora em processo de elaboração, ora em sua forma acabada —, o escritor Jean Genet (no livro O ateliê de Giacometti, 2000) se depara com um universo terrível, no qual os seres e as coisas criados pelo artista possuem uma vida que se excede, uma vida afeita à descontinuidade e que, restituída à sua condição de objeto único, finalmente pode rumar para a morte, através das paredes porosas do reino das sombras — estas mesmas paredes que, impregnadas de vazio, sustentam a iminência do ser, quando ele é ainda e apenas a idéia de uma existência por materializar-se no bronze ou, antes disso, na massa de gesso.
Cada objeto cria seu espaço infinito, constata Jean Genet diante da leveza e circunspeção de estátuas que executam uma corrida vertiginosa e ininterrupta do passado para o futuro, uma oscilação de um extremo a outro, sem repouso. O conhecimento estético da obra de arte, para Genet, advém dessa renúncia à história em benefício das qualidades singulares de um objeto dado a expressar suas próprias significações.
Quanto aos retratos de Giacometti, também eles estão reservados à soberania de um isolamento sem retorno. O branco da página recebe de cada traço do artista a plenitude e a solidez de seu valor oriental. Por minúsculo que seja um rosto do desenhista, sob a ameaça da solidão, ele resiste e não somente se impõe, mas se regala em ostentar sua presença vencedora.
Imaginando que uma das criações de Giacometti, além de movimento, também ganhasse voz, Jean Genet poderia escuta-la dizer: Se sou apenas o que sou, sou indestrutível. Sendo o que sou e sem reservas, minha solidão conhece a sua. E uma comunicação se estabelece onde a ausência foi quebrada.
No entanto, não menos pela ausência, a palavra pode alcançar seu limite de expressão mais construtivo. O poeta Paul Celan, um dos notáveis sobreviventes da crise do verbo na modernidade, personifica o paradoxo do escritor que, ao produzir o silêncio, fala e, ao falar, procura quem consiga ouvi-lo de um abismo tomado pela noite, a dor da morte, o medo da loucura, o nada sem esperança e o esquecimento.
Com um trabalho edificado sobre as ruínas do nazismo e os valores simbólicos da sabedoria hebraica, Celan faz recordar o homem que medita acerca da negação e caminha entre o misticismo e a filosofia. Seus poemas não são lacônicos tão simplesmente por terem logrado a virtude de uma condensação de significados no âmago de poucas palavras; há uma complexidade maior por trás de seus versos: um anseio de recuperar certa unidade perdida, uma tensão entre imanência e transcendência, que indicia as fontes de uma reflexão associada ao estudo da Cabala. E ainda além: o ato de nomear manifesta a necessidade de uma integração com o Outro pela essência de poemas elaborados no descentramento e abertura de um sujeito à procura incerta de seu leitor.
A existência deve estar inscrita na linguagem para vincular-se a seu extremo oposto — o da ausência ou do emudecimento — que Celan persegue nas imagens da escuridão, do abandono e de todos os demais nomes que se voltam à anulação do ser. Surge aqui o tema da hermenêutica, gravitando em torno do espaço que separa a existência da essência, na origem da palavra silenciosa. Para o escritor, investigar os meios factíveis de conciliação da sua consciência do mundo com a idéia de um infinito perfeito é considerar, em seu método de criação, uma obra cujo sentido exija a participação ativa do Outro e atinja o destino da iluminação. Trata-se, pois, de uma dificuldade proposta à sistemática do pensamento filosófico reconhecido na poética de Celan.
O escritor Maurice Blanchot afirma que uma obra literária apenas torna-se real quando proferida a palavra ser, evento que se concretiza quando a obra é a intimidade de alguém que a escreve e alguém que a lê. O escritor jamais está livre do risco de solidão depois de concluir uma obra que já não pertence a ele, razão pela qual um recomeço constitui, ao mesmo tempo, a tentativa dolorosa de um avanço e um recuo ao princípio de uma trajetória inacabável.
O risco de assumir a responsabilidade de uma drástica ultrapassagem dos limites, para o poeta, compete em que ele disponha do seu máximo exercício criador, e do seu corpo propriamente dito, ao propósito de uma revelação transformadora; conseqüência disto será, talvez, a realização de grandes versos e, perigosamente, algo além: o esgotamento momentâneo de sua oposição contra a morte da palavra e o enfraquecimento de suas potências físicas. Nesse intervalo silencioso em que o vazio impera como única certeza afirmativa, depois de a obra haver-se desprendido do poeta, no ato de uma apaixonada materialização do espírito, nenhum consolo subsiste, senão ter paciência (e vocação) para retornar ao início, com esperanças renovadas e alguma vivência estética adquirida.
O enfrentamento de um tempo de indefinições entre um livro e outro é admitido pelo escritor como o sofrimento de quem aceita que um fruto lentamente amadureça, até que só mais tarde se lhe possa dar um destino.
Referindo-se a Beckett, em um de seus “exercícios de admiração”, o escritor Cioran declara:
(…) As palavras, quem as terá amado tanto quanto ele? São suas companheiras, e seu único apoio. (…) Suas crises de desânimo coincidem, sem dúvida, com os momentos em que pára de acreditar nelas, em que julga que o traem, que o abandonam .
No entanto, Beckett triunfa diante do cansaço ao escrever:
quando se gosta de poesia, (…), as palavras estão lá, algures, sem fazer o menor ruído, (…) gotas de silêncio através do silêncio, (…) palavras, sou todas estas palavras, todos estes estranhos, esta poeira de verbo, sem fundo onde pousar.
De outro lado, Cioran se vê afetado por uma inaptidão orgânica para a crença, sem mais o que fazer senão reter para si o legado do ceticismo e a dor da capitulação. Tendo abandonado a escrita por uma fadiga filosófica tanto quanto biológica, o escritor conquista uma liberdade particular — a de não sofrer o horror da incompletude de uma obra em processo, nunca suficiente no conjunto de seus exemplares. Assim ele se priva, porém, daquela liberdade de sentido moral compreendida pelo cineasta Tarkovski, autor de Esculpir o tempo, como um sacrifício em nome do amor, pois o tributo de um escritor a seus leitores se desata.
A todos os criadores que dotam o silêncio de uma forma encarnada, morrer não lhes parece um desfecho indigno de seus recursos expressivos, mas, antes, uma das perigosas implicações para se chegar ao extremo de um caminho. Celan afogou-se no rio Sena a 20 de abril de 1970; Cioran abandonou a literatura ainda em vida. Por diferentes meios, ambos se mataram — foram vencidos por uma última ausência.
Os demais, que prosseguem em sua tarefa produtiva, tampouco estão a salvo do paradoxo de uma fé responsável pelo vazio e a plenitude, a finitude e o infinito, a dúvida e a determinação, o êxtase e o desespero. A estes escritores e poetas, dá-se o nome de sobreviventes.
Mariana Ianelli nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Jornalista e mestre em Literatura e Crítica Literária, é autora dos livros Trajetória de antes, Duas chagas, Passagens, Fazer silêncio e Almádena, todos pela editora Iluminuras. Como resenhista, colabora atualmente para os jornais O Globo – Prosa&Verso (RJ) e Rascunho (PR). Mais informações em seu site.




