Literatura e pragmatismo


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Paulo Polzonoff Jr.

1.
Desde que comecei a me interessar por literatura me deparo com a dúvida sobre a utilidade da ficção. A pergunta é minha e, principalmente, alheia. Geralmente pessoas que não têm tanta intimidade com os livros são as que mais me perguntam por que e para que leio. Mas há pessoas esclarecidas, e elas mesmas leitoras compulsivas, que também se perguntam para que servem as histórias.

Minha resposta a esta pergunta tem variado ao longo dos anos. Mais do que eu gostaria. Quando era mais novo, tinha a tendência a dizer que a literatura torna as pessoas melhores. Nada pode ser mais enganoso. Depois, acho que passei uma boa fase dividindo as pessoas entre leitores e não-leitores, estes menos inteligentes do que aqueles. A literatura, portanto, aumentava a inteligência das pessoas. Era uma teoria. Era mais um engano.

Hoje vivo a dúvida. Tento ficar longe dos extremos. Nem acho que literatura não serve para nada como não acho que literatura seja a resposta para tudo. Aos poucos, acho que consigo compreender melhor esta serventia que não é palpável, este nada que é tudo, como já bem definiu alguém. Se já passei da fase de considerar inteligentes todos os leitores, por outro lado acho que, quem lê, tem certa disposição a dialogar com o contrário. É um começo.

Mas vale a pena pensar um pouco mais sobre esta visão pragmática da literatura que, não escondo, me fascina. Se por um lado a chamada alta literatura não tem uma função pragmática, por outro não dá para esconder que ela tem, sim, algum impacto na vida dos leitores. Um amigo propõe a questão: será que vivemos um tempo em que somos capazes de transformar até Ana Karenina em um guia auto-ajuda? E eu rebato: será que ver algum tipo de utilidade na literatura significa transformá-la em algo tão rasteiro?

A boa literatura mais atrapalha do que ajuda, me diz o amigo. Tem toda a razão. Mas será que não há, neste atrapalhamento, uma função pragmática? Lembro-me de uma metáfora usada há alguns anos para denegrir a psicanálise. Alguém me disse que a psicanálise via o paciente como um vaso com uma lasquinha. Para consertar aquela lasquinha, contudo, a psicanálise precisava quebrar o vaso todo e reconstruí-lo aos poucos. Ora, será que não é o que a literatura, a boa e alta literatura, faz?

2.
Esta questão, que me atrai há anos, veio à tona por causa de uma discussão a respeito do clube do livro da Oprah Winfrey. Para quem não conhece, Oprah é uma espécie de Hebe Camargo dos Estados Unidos. Sua capacidade de se comunicar com as mulheres americanas é algo sobrenatural. Há alguns anos, ela decidiu incentivar estas mulheres a ler. Para tanto, escolhe um livro e estimula a discussão a respeito dele. Não são livros desprezíveis. Há, entre os autores escolhidos, Tolstói, Faulkner, Gabriel García Márquez e Toni Morrison, entre outros.

O problema é que Oprah transforma os maiores clássicos da literatura universal em meros livros de auto-ajuda. Ana Karenina, por exemplo, é apenas um livro que estimularia as mulheres a repensar seus casamentos e seus desejos; de Faulkner e Toni Morrison se extrai, logicamente, questões raciais; e, sobre o mais recente livro incluído no clube do livro, The Road, de Cormac McCarthy, propõe-se que seja uma espécie de guia psicológico das relações com os filhos.

Talvez eu seja otimista demais, mas a verdade é que não consigo ver mal nisso. Se, depois de atravessar as quase mil páginas de Ana Karenina, uma mulher for capaz de repensar suas escolhas, qual o problema disso? Se, depois de decifrar Faulkner, ela descobrir que nas questões raciais há muito mais nuances do que jamais sonhou, quem dirá que é preciso prestar atenção à linguagem e à polifonia?

Há um interessante ensaio de Jonathan Franzen a respeito do assunto. Intitulado Why bother?, ele fala justamente da diferença entre a ficção que se produz hoje e aquela que era lida nos século XIX. Em termos pragmáticos, uma mulher lia Jane Austen para aprender. A literatura tinha, pois, um caráter didático. Isolada no campo, a leitora de Austen entendia como eram as relações de classe a que ela estava sujeita. Mais: aprendia como deveria se portar nos bailes e qual o destino que a aguardava, dependendo de sua classe social.

Hoje a literatura não tem mais este caráter didático, é claro. Há outras fontes de informação. E, no entanto, a literatura resiste. Para alguns, ela é um fim em si; para a maioria, contudo, o gesto de se sentar com um livro no colo pressupõe algum tipo de objetivo. Daí a idéia da alta literatura como uma espécie de auto-ajuda alternativa.

3.
Outro dia mesmo fiz uma lista de treze livros que mudaram a minha vida. Depois fiquei mudando a lista, acrescentando um livro aqui e outro ali. Seguramente poderia dizer que mais de uma centena de livros, em maior ou menor grau, mudaram a minha vida. Uns para melhor, outros para pior, mas estes livros tiveram, definitivamente, uma função inesperada. Ou seja, eu fiz deles um uso pragmático sem que fosse capaz de perceber.

Aos 13 ou 14 anos, por exemplo, li Só o vento sabe a resposta, de JM Simmel. Trata-se de um romance melodramático. Baixa literatura, pois. Eu não sabia disso, na época em que o li. Simplesmente o peguei na estante de um tio e o devorei. Sem nenhum tipo de orientação, o que extraí daquele livro não foi algo exatamente elevado. O que pouco importa. Extraí do livro o que precisava na época: um entendimento trágico do amor.

Minhas leituras seguiram este ritmo até meus vinte anos, se não mais. Cada livro era um diálogo com o autor. O que talvez explique minha decepção com muitos dos autores que li: eles não tinham nada a me dizer. Hoje em dia não busco mais o diálogo, ao menos não em sua forma mais rasteira. Sei que há pessoas que dialogam em silêncio. Mas, na adolescência, ter nos livros um interlocutor foi algo importante. E acredito que seja isso o que buscam as pessoas que vêem a literatura de forma pragmática: um diálogo com a obra de um ser humano que, por ser escritor, elas consideram um sábio. Um doce e comum engano.

Ora, mas se a literatura não tem nenhum fim, por que é que leio? Esta perguntaé tão poderosa que, há semanas, tem me paralisado. Porque as hipóteses não são nada alentadoras. Quem propõe a leitura de toda literatura, alta ou baixa ou média, como diversão, se vê num beco sem saída estético. Afinal, como entender Faulkner ou Joyce ou mesmo a Ilíana e a Odisséia como diversão equiparável a uma volta numa montanha-russa? Há um componente de negação aí que não vou parar para analisar, até porque sou apenas um freudiano amador, ocupado demais com meu próprio vaso quebrado.

Já entender a literatura apenas como arte no sentido técnico, isto é, um texto inserido numa cultura, com linguagem e temas próprios, composições de personagens, estruturas e escolhas lexicais, entender a literatura como uma “obra de carpintaria”, para usar uma expressão ao gosto do mais racional dos nossos escritores, Autran Dourado, me parece a coisa mais triste do mundo. É como o homem que, em frente a um Caravaggio, diz: é somente tela, tinta e moldura.

O fato é que, quando viramos a última página de um bom livro ou mesmo de um livro ruim que nos pareceu bom em determinado momento, ocorre uma transformação. Negar este efeito é negar a necessidade do ser humano de se comunicar. Este efeito se dá em diferentes níveis, de pessoa para pessoa. É o que faz da literatura algo tão especial: a experiência é, por mais que as pessoas tenham se esforçado para homogeneizar interpretações, individual e intransferível. E mesmo que este efeito seja nulo, a própria nulidade é um efeito.

4.
Então é possível dizer que a leitura tem uma função pragmática na nossa vida? Sim, os livros servem para alguma coisa. Só alguém muito cretino é capaz de passar por Hamlet sem extrair da peça algo de útil, nem que seja um minuto de reflexão a respeito dos conselhos de Polônio a seu filho. Acho que a grande questão talvez seja o nível de reflexão que os livros propõem (quando propõem). Na maioria das vezes, a alta literatura não faz perguntas de entendimento fácil. O próprio “ser ou não ser” de Halmet é um bom exemplo do enigma para o qual o autor não dá respostas ou pistas.

Mas acho que o segredo para entender a busca do leitor por uma literatura mais, digamos, pragmática está na busca por valores. E aqui não quero soar dogmático, mas me parece que a falta de valores estabelecidos numa sociedade que colocou a religião em xeque faz com que as pessoas busquem estes mesmos valores em outras fontes. A literatura é uma delas. Possivelmente não é a melhor fonte. Embora haja, nesta busca de caráter antropocêntrico, certa impressão de grandeza.

Quando as mulheres do meio-oeste americano, guiadas por Oprah Winfrey, lêem Tolstói em busca de reflexões que tornem seu casamento mais vívido e seguro, no final das contas elas estão participando de uma espécie de terapia de grupo, na qual uma obra-prima da literatura universal faz as vezes de catalisador. É, em outras palavras, o martelo que quebra o vaso lascado. Dá-se início, então, a um efeito-cascata: cada livro posterior serve como cola para os pedacinhos espalhados pelo chão.

Não quero dizer, com isso, que haja uma função determinada na literatura. Livros escritos para causar esta ou aquela sensação no leitor, ou para “despertar a consciência do leitor” para este ou aquele problema geralmente não passam de livros ruins. Muito ruins. O paradoxo, aqui, está instalado: não há uma função na literatura, mas a literatura exerce, sim, algo efeito em quem o lê. Como é possível algo assim?

Acho que a resposta está nas intenções. Ao contrário de um livro de auto-ajuda, a literatura não procura dar respostas, embora acabe fornecendo muitos dados extras que levem o leitor preparado a encontrá-las. Daí o incômodo que nos causa a visão da literatura como algo meramente pragmático, como uma fonte de reflexões rasteiras a respeito de questões cotidianas. Ao conferir este caráter a obras-primas como Ana Karenina, o que se faz é reduzir um livro com múltiplas leituras a um livro com um norte só. Lemos para fazer perguntas, disse Kafka. O problema é quando os outros acabam fazendo as perguntas por nós.

5.
No Brasil, tenho a impressão de que a visão da literatura como uma atividade pragmática tem atingido picos intoleráveis. Se por um lado falta ao país uma Oprah Winfrey que estimule a leitura dos clássicos (mesmo que pretenda transformar tudo em auto-ajuda), por outro a literatura é percebida, desde muito cedo, como um caminho para se alcançar algo mensurável: uma nota.

Na escola, lê-se para tirar dez na prova da professorinha de literatura. Depois, lê-se para passar no vestibular e alcançar a tão sonhada vaga na faculdade de engenharia mecânica, onde o leitor terá, finalmente, a impressão de que jamais precisará ler um livro novamente.

Impressão falsa, é claro, porque assim que ele arranjar um emprego vai se sentir compelido a ler para impressionar seus chefes ou mesmo para entender as relações dentro do escritório ou oficina. Uma vez estabelecido, talvez leia para entender o tédio que toma conta de sua vida. E, na busca de uma mudança qualquer, não dúvido que acabe por ler livros como Como Proust pode mudar sua vida.

Não condeno o leitor, contudo. A idéia de que Proust pode mudar a vida de alguém é legítima. Triste é constatar que, para buscar Proust, o leitor precisa de alguém que lhe afirme categoricamente: este livro vai mudar sua vida.

Paulo Polzonoff Jr nasceu em Curitiba, em 1977. É autor dos livros O cabotino (Candide), Manuel Bandeira: a vida inteira que poderia ter sido — e foi (Relume Dumará) e A face oculta de Nova York (Globo). Escreve em site.

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