A apreciação e utilidade da poesia


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Pedro Sette Câmara

Por que gostar de um poema?

T. S. Eliot disse em algum de seus ensaios que “só é possível ensinar literatura a quem já tem um gosto formado”, mas não me lembro de ele ter explicado o que seria isso. Como se trata, porém, de algo que antecederia o ensino, só posso imaginar que seria algo como um “gosto com autoconsciência”, isto é, uma capacidade de o sujeito dizer para si mesmo quais são as razões que o levam a gostar de certas obras e a desgostar de outras. E a relação com todas as obras de arte é marcada por uma mistura de fatores objetivos e subjetivos, cada grupo ocupando mais espaço aqui ou ali. Minha relação com a obra poética do próprio Eliot, por exemplo, é marcada muito mais por fatores objetivos: admiro muito sua técnica, sua capacidade de extrair ritmos inusitados (Preludes, todo o Old Possum’s book of practical cats), de emular vozes (The journey of the Magi), mas raramente sou tocado por um de seus poemas. Para falar a verdade, acho que apenas La figlia che piange me emociona diretamente, sem uma intermediação pesada do trabalho intelectual.

Por outro lado, há poetas de que gosto por fatores subjetivos. Estes fatores subjetivos podem, por sua própria natureza, ser muito mais variados do que os objetivos. Isto é, assim como podemos gostar de uma música cafona só porque ela recorda um momento agradável da nossa vida amorosa, podemos gostar de um poeta só porque ele nos disse algo do jeito que precisávamos ouvir, ou porque ele nos lembra de um bom período da vida (minha adolescência for marcada pela leitura de Bandeira; eu sempre gostarei dele, porque me sinto adolescente de novo quando leio certos poemas seus).

Entre os fatores subjetivos, quero destacar um: a semelhança de natureza entre a persona artística do poeta e a pessoa do leitor. Este é o caso em o leitor percebe no poeta um semelhante, um irmão (sem hipocrisia), um guia; é o caso em que o leitor percebe: “se eu fosse um grande poeta, seria como este grande poeta aqui”, e não consigo imaginar um leitor de poesia que nunca tenha pensado isto. Normalmente, esta relação se estabelece através das idéias que o poeta expressa: um poema que descreve perfeitamente uma situação da vida do leitor, um verso que corresponde a uma experiência constante do leitor, e também um modo de expressar os conteúdos que é o correspondente poético de um modo de agir, isto é, que corresponde em palavras àquilo que o leitor ou o poeta fariam se fossem homens de ação mais do que de reflexão. Por exemplo, os poemas de Bandeira e Drummond sobre o amor sugerem alguém que, diante da decepção, se resigna e vai para o seu quarto chorar (ou “refletir sobre a condição do homem comum”); já os poemas de Yeats sobre o amor sugerem alguém que, diante da decepção, aceita o soco mas busca um ideal ainda mais alto, ainda que esta busca seja só intelectual.

Então a poesia não tem utilidade?

Quem acha que a poesia não tem utilidade, ou que é um fim em si mesma, também deve achar que o ser humano não tem alma. Ler um livro de poemas pode se parecer, desde fora, com não fazer nada; e, se você não é aluno ou professor de literatura, talvez a leitura não tenha nenhum efeito benéfico tangível sobre a sua carreira.

Mas isso não quer dizer que a poesia não atenda a uma série de finalidades, mesmo para o leitor comum, a primeira das quais é a necessidade de entretenimento. Você não leria os dez cantos de Os Lusíadas se eles fossem chatos — embora, é claro, haja trechos chatos. Alguns poemas podem ser obscuros; isso não os torna chatos, porque jogos mentais podem ser divertidos. Diversão não é só beber e rebolar; e a diversão é uma finalidade, uma necessidade da alma que pode ser satisfeita de maneiras tão diversas quanto as sensibilidades.

A poesia também pode ter uma finalidade didática. No mesmo exemplo, aprendemos muito da história de Portugal com o relato de Vasco da Gama nos Cantos III a V. E como é bom poder recordar esta história usando fórmulas interessantes como “aconteceu da mísera e mesquinha / que depois de ser morta foi rainha” em vez de lutar contra um livro didático escrito numa linguagem vazia que se esquece tão logo se termina a leitura. A poesia é uma arte da linguagem, e quem quer que já tenha tido que ler algo mal escrito do início ao fim sabe o valor que tem a capacidade de se prender a atenção. E a finalidade didática por parte do artista é, muitas vezes, perfeitamente consciente e intencional; afinal, se os leitores podem dizer que aprenderam algo com uma obra de arte, por que o autor não poderia dizer que pretendeu ensinar? Não esqueçamos, aliás, que revelar, mostrar e apontar são modalidades de ensinar — e que ensinar não precisa ser a suposta inculcação de verdades com aspas.

Apenas estas duas finalidades por si, entreter e ensinar, já são exemplo suficiente de que a poesia pode ser perfeitamente útil — mas útil para a alma. Ler poesia não aumenta seu conforto material, nem economiza tempo; mas ajuda a descansar, serve de bálsamo para o espírito, produz motivações importantes, cria disposições para aprender certas coisas e até mesmo as ensina.

A segunda parte do texto foi escrita para a revista Outros Baratos, do sebo Baratos da Ribeiro, distribuída na FLIP de 2006 e também no próprio sebo.

Pedro Sette Câmara estuda grego clássico na UFRJ, trabalho para editoras, clientes particulares e algumas agências internacionais. Também faz tradução simultânea e dá aulas de tradução literária. Escreve em seu site e para O indivíduo.

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