Textos estéticos de Charles Baudelaire
Diego Barreto Ivo
Gostaria de chamar-lhes a atenção para um Baudelaire que poucos conhecem. Trata-se do Baudelaire ensaísta e esteta, que demonstra tanta força quanto o poeta. Destacarei, aqui, dois textos sobre arte plástica que falam tanto de pintura quanto de poesia. O pintor da vida moderna e Salão de 1859.
O que me interessa, por agora, é menos sua inteligente visão de pintura do que o que ele fala de si enquanto artista. Como todos devem saber, Baudelaire se propunha a ser um dândi: seus textos e sua filosofia se fundamentam muito nesse conceito defendido e exposto ao longo de toda a sua obra, seja a poesia, a prosa ou mesmo os diários.
O dândi baudelairiano é, na verdade, uma defesa apaixonada do homem artificial, o homem artístico, aquele que vai contra uma visão que era muito comum à sua época e ainda apreciada hoje. Trata-se de um verdadeiro ataque ao romantismo que propõe a Natureza como provedora do bem e do belo e a civilização como aquilo que amaldiçoa. Não sei se na época já havia um movimento forte contra essa inocência de transferir à civilização a responsabilidade pelas maldades humanas, essa vontade de colocar a civilização como aquilo que corrompe o homem que, sem ela, seria inevitavelmente bom. Já em O pintor, ele adianta um dos textos mais famosos de Freud, “O mal-estar da civilização”, que propõe essa essência maldosa como a do homem e transfere à civilização a responsabilidade das rédeas postas nessa essência animal e aniquiladora.
Baudelaire, aborrecido com os artistas de sua época — sobretudo com os pintores, que queriam apenas representar fielmente a Natureza — diz: “Os artistas que querem exprimir a natureza, mas não os sentimentos que ela inspira, submetem-se a uma estranha operação que consiste em matar dentro deles o homem pensante e sensível, e, infelizmente, acredite que, para muitos, essa operação nada tem de estranho nem doloroso”.
Mas os problemas desses artistas não se limitam exclusivamente à questão da Natureza: “Descrédito da imaginação, desprezo pelo elevado, amor (não, essa palavra é bela demais), prática exclusiva do ofício, a meu juízo são estas, quanto ao artista, as razões principais de sua degradação”. O que, enfim, ele critica é a pretensão de se viver o universo onde o homem está ausente — e sabemos, no entanto, que a arte é justamente a contaminação do homem. Arte é aquilo que é técnico, oposto ao sincero e ao verdadeiro, é o artificializado.
Embora esses textos tenham como ponto de fuga a pintura, ao poeta se tornou inevitável falar de poesia. É o que vemos aqui, embora neste trecho não se refira propriamente a poemas: “Na verdade, esta é uma bela ocasião para estabelecer uma teoria racional e histórica do belo, em oposição à teoria do belo único e absoluto; para mostrar que o belo inevitavelmente sempre tem uma dupla dimensão, embora a impressão que produza seja uma, pois a dificuldade em discernir os elementos variáveis do belo na unidade da impressão não diminui em nada a necessidade da variedade em sua composição. O belo é constituído por um elemento eterno, invariável, cuja quantidade é excessivamente difícil de determinar, e por um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, sucessiva ou combinadamente, a época, a moda, a moral, a paixão. Sem esse segundo elemento, que é como o invólucro aprazível, palpitante, aperitivo do divino manjar, o primeiro elemento seria indigerível, inapreciável, não adaptado e não apropriado à natureza humana. Desafio qualquer pessoa a descobrir qualquer exemplo de beleza que não contenha esses dois elementos.” (O grifo é meu.) Essa defesa do Belo, se conhecermos o Baudelaire poeta, veremos que é incessantemente patente em sua poesia.
Ao publicar As flores do mal, Baudelaire viria a ser acusado pela crítica de ser imoral (“embora fizesse versos impecáveis”, diziam) e vê-las sendo proibidas. Entretanto, pela geração imediatamente posterior, foi reconhecido como o grande poeta que hoje o conhecemos. Rimbaud chegou a chamá-lo de “deus”. A obra de Rimbaud, que buscou e chegou ao “desconhecido” — onde só havia o belo — seria chamada de “hermética”, deve muito ao caminho que abrira Baudelaire.
Até antes de Baudelaire, em maior ou menor grau, o belo ainda era atrelado a uma moral do puro, e o bizarro raramente podia ter beleza, por ser necessariamente feio. Alguns seguidores de Baudelaire (que bem poderiam receber a alcunha de “criança mimada”, que o poeta deu aos pintores sem imaginação e técnica, apesar pretensiosíssimos) viram que o horroroso era louvado pelo poeta e, sem critério, passou a repeti-lo. Todavia, essas crianças mimadas não fizeram nada além de transferir a categoria de “sujo” para a de “puro”, movimento inócuo e bem longe da poesia baudelariana, que tentavam imitar. Foram vulgares, e ainda são. São como os imitadores de Guimarães Rosa: pensam que descrevendo sua terra fazem literatura, mas esquecem que em Rosa a paisagem reflete a psicologia dos personagens.
Em momento nenhum de sua obra, ele interferiu muito nas categorias de “sujo” e “puro” (exceção à religiosidade), apenas consentiu ao horroroso ser matéria do belo. Esta expansão, na verdade, é uma anulação do belo como pertencente exclusivo a alguma classe de valores, senão a classe do “belo”. Esse projeto de anulação possibilitaria a ele dizer: “O nada embeleza aquilo que é”. Vejo, nesse nada, que em outros momentos é chamado de vazio, uma espécie de suspensão das categorias morais e naturais, uma suspensão da realidade até um plano do belo. Outra importante novidade na poesia de Baudelaire é a inserção na poesia do mundo baixo, o mundo dos homens comuns — o que o fez ser conhecido como flâneur.
É nesse caminho de elevação essencial do belo que, em O pintor da vida moderna, ele faz uma defesa apaixonada da maquiagem, como mais um artifício contra o natural, que é vulgar, e alerta ao risco de que uma maquiagem excessiva facilmente se tornar vulgar. Esse dândi, o homem esteta, quer também na mulher não aquilo que é animal, mas o que de artificial lhe dá graça. Sendo a favor dos adornos simples, logo no capítulo seguinte ele critica as cortesãs que acompanhavam homens de mau gosto a bulevares e cafés, e lá fumavam charutos maiores que sua “boquinha” — ele exibe essa cena como grotesca (o que confirma, pois, que ele não achava o vulgar bom, como já falei acima).
Espero que, assim, eu tenha conseguido convidar-lhes à leitura dessas obras estéticas. Encontrá-las é um pouco difícil, entretanto. Por sorte, tenho A prosa e poesia de Charles Baudelaire, da editora Nova Aguilar, cujo preço normal não é lá muito convidativo. Aos que gostam muito de Baudelaire, e duvido que algum apreciador de poesia não goste, vale a pena guardar uns trocados e comprar em alguma feira de livros. Caso a urgência de lê-lo tenha sido comprovada, compre-se agora ou que se vá à biblioteca mais próxima.
Diego Barreto Ivo, natural de Salvador-BA, já morou em várias cidades do sul de Minas. Iniciou o curso de Letras na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), em Mariana, onde cursou apenas um período. É graduando em Letras pela USP e poeta. Prepara-se para seu primeiro livro de poemas. Escreve em seu blog, que faz parte do coletivo Breviário.




