Lendo Bartleby e companhia, notas sobre literatura
Marco Polli
Bartleby e companhia
Já faz tempo que venho rastreando o amplo espectro da síndrome de Bartleby na literatura, já faz tempo que estudo a doença, o mal endêmico das letras contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada que faz com que certos criadores, mesmo tendo consciência literária muito exigente (ou talvez precisamente por isso), nunca cheguem a escrever; ou então escrevam um ou dois livros e depois renunciem à escrita; ou, ainda, após retomarem sem problemas uma obra em andamento, fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre.
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Embora não tenha a complexidade de O mal de Montano e ser às vezes anedótico demais, Bartleby e Co. é um outro livro instigante de Vila-Matas. Nessa obra, o narrador se concentra em casos como o de Juan Rulfo, que escreveu Chão em chamas e o clássico Pedro Páramo, mas que deixou a carreira literária após lançá-los. Entre as repostas que ele dava para os interpeladores, estava a ‘morte do Tio Celerino’, um contador contumaz de histórias sobre as quais Rulfo dizia ter se baseado para escrever.
Bartleby e Co. também fala de autores como Kafka e Beckett que, apesar de terem escrito com freqüência, podem ser identificados por essa “pulsão negativa”, e aqui chega-se a um ponto sensível. Podemos facilmente verificar na modernidade literária um impulso por novos caminhos narrativos, mas também para a não-comunicação, o que se reflete em textos justamente sobre a incapacidade de narrar, ou ainda, em textos próximos do incompreensível. A literatura moderna carrega em si uma forte carga de autoconsciência e de ambição e, dessa forma, cria muitas vezes um peso grande demais para o leitor e para o próprio escritor. Entretanto, é bom lembrar, foi esse mesmo nível de exigência que ajudou a trazer tantos livros excelentes no século XX.
A certa altura, o narrador/protagonista de Bartleby e Co. pergunta a uma desconhecida que está numa banca de livros: “E a senhora, por que não escreve?” A resposta: “O senhor está brincando comigo. E então, diga-me: por que eu deveria escrever?” É irônico ler esta obra de Vila-Matas, sobre escritores que se resignam ao silêncio literário, numa época em que parece haver uma explosão na quantidade de livros e novos autores.Talvez tenha havido uma mudança de estado de espírito, de um pessimismo e sensação de incapacidade, para um otimismo, não no tom do material, mas sobre o valor de se fazer algo neste momento, mesmo que não supere o Ulisses de Joyce. Fica a questão sobre o que ficará dessa massa de autores e sobre a capacidade dos críticos e leitores em absorver toda essa produção.
Devo confessar que não tenho grande simpatia pela onda de “ficção sobre livros”, uma tendência literária que me parece também autofágica. Porém, é difícil não ser simpático ao texto de Vila-Matas. A grande qualidade desse autor parece ser, primeiramente, a sua qualidade como leitor. Ele é claramente obcecado por livros e escritores, mas, ao contrário de outros, consegue usar isso de modo criativo em suas digressões. Não sendo feito de referências passivas e frias, Bartleby e Co. é simultaneamente uma boa homenagem à literatura e ao silêncio.
As palavras presentes
Muitos anos depois, Beckett diria que até as palavras nos abandonam e com isto tudo está dito.
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Esta referência a Beckett me fez pensar sobre o impacto da leitura de um ótimo livro: a sensação de que as palavras não faltaram ao autor e, como conseqüência, não faltaram a nós.
Muitos leitores, ao elogiarem um texto, dizem que o autor “conseguiu descrever aquilo que sinto, mas que eu não conseguia pôr em palavras”. Não gosto dessa descrição, grandes textos não são meros espelhos verbais de situações prévias. Por exemplo, seria certamente presunçoso da minha parte dizer que Proust estava apenas “me verbalizando” ao escrever Em busca do tempo perdido. Textos de alto nível chegam a regiões que não foram realmente vistas ou percebidas — pelo menos não por aquele ângulo — e, de algum modo, ainda conseguem se relacionar com a subjetividade do leitor. Assim, as palavras ali dão a impressão de serem generosas e amplas, fazendo o nosso mundo se alargar ou se intensificar, mesmo que o dia seguinte mantenha a sua rotina.
O caso Raduan
O que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever?
Raduan: Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei.
(…)
Em que medida e por que seu compromisso com o rigor o aproxima ou distancia dos escritores ditos construtivistas?
Raduan: Nunca pensei em expor qualquer teoria a respeito do meu minguado trabalho, nem vejo sentido nisso. Ou esse trabalho fala por ele mesmo, sem o socorro de qualquer suporte teórico ou expositivo, ou deve ser descartado.
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Raduan Nassar não chega a ser citado em Bartleby e companhia de Vila-Matas, mas ele segue como o mais discutido ‘caso Bartleby’ da nossa literatura. Nos anos 70, Raduan publicou alguns contos esparsos e nada menos que Lavoura arcaica e Um copo de cólera, para depois entrar em um profundo silêncio literário. A sua obra não parou de ser valorizada e ganhou adaptações para o cinema, mas ele nunca voltou à carreira de escritor. (A única exceção refere-se a um pequeno texto de 1996, incluído na coletânea Menina a caminho).
Há alguns anos, eu pude ver Raduan Nassar na sua participação na Semana de Letras do IEL, Unicamp. Era evidente o descompasso entre platéia e Raduan: nós ali abobados por estarmos na frente de um Grande Escritor e ele totalmente descompromissado, tanto em relação ao verniz acadêmico quanto à tietagem. Podia-se ver nele algo como “pode até ser que sejam bons livros, mas isso não tem nada de mais”. Mesmo com esse descompasso, foi uma boa conversa, já que Raduan exibe aquela “timidez carismática” e a sua relativização da literatura foi literariamente estimulante.
Pelas entrevistas que li e por esse breve contato ao vivo, a minha impressão sugere que Raduan é um caso atípico de Bartleby. Seu silêncio literário aparentemente não se origina das tensões internas da modernidade literária, não veio de um drama autoral frente ao um desafio, Raduan apenas se encaminhou para fora. A estranheza vem do nosso olhar, acostumados que estamos a descrições de “literatura como destino”, ”relação orgânica texto-autor” e a escritores que lançam livros a cada dois ou três anos sem ter o que mostrar. O ‘caso Raduan’ é um problema para nós, não para o próprio.
A apreciação positiva que a obra de Raduan adquiriu é invejável, e a maioria dos escritores se apegaria a ela com unhas, dentes, pernas e mãos. Qualquer comparação é constrangedora: quando Raduan Nassar quis escrever, ele esteve entre os melhores do país. Quando quis ir embora, foi sem pedir desculpas, como alguém que pudesse largar um vício grave de um dia para o outro.
O futuro da literatura
Disponho-me, então, a passear pelo labirinto do Não, pelas trilhas da mais perturbadora e atraente tendência das literaturas contemporâneas: tendência em que se encontra o único caminho que permanece aberto à autêntica criação literária; que se pergunta o que é e onde está a escrita e que vagueia ao redor de sua impossibilidade e que diz a verdade sobre o estado, de prognóstico grave — mas sumamente estimulante — da literatura deste fim de milênio.
Apenas da pulsão negativa, apenas do labirinto do Não pode surgir a escrita por vir. Mas como será essa literatura? Perguntou-me há pouco, com certa malícia, um colega do escritório.
— Não sei — disse-lhe. — Se soubesse, eu mesmo a faria.
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Pensar no futuro da literatura é um exercício extremo de abstração. A melhor resposta talvez seja mesmo “se soubesse, eu mesmo a faria”. Só sabe dessa literatura quem de fato a escrever.
Certamente Vila-Matas não se refere ao simples futuro cronológico. Livros não faltarão à frente, está-se falando sim do “Futuro”, aquele que mostrará uma escrita literária renovada. A modernidade aproximou a literatura da idéia de progresso, há uma confiança (e uma exigência) sobre o suceder de inovações. O radicalmente novo deverá vir, e é só nele que vale a pena trabalhar.
Tal noção coloca um desafio nada trivial aos escritores contemporâneos, tendo em vista os numerosos e radicais experimentos narrativos já feitos no século XX. Como escrevi em outro lugar, exigir de todo autor uma inovação literária estrutural é como exigir que todo físico seja um Einstein. Por vezes, essa exigência leva a um comportamento esquizofrênico, com escritores esfregando na cara do leitor “truques” e “ousadias” que são na verdade coisas antigas, que remontam, por exemplo, a Nerval, Cervantes e Sterne. Mas é um comportamento compreensível, pois, se eles não se apresentarem como novos e ousados, vão lhes dizer que nem deveriam ter escrito algo.
Se uma vidente me dissesse que leu o futuro e que lá não existe nenhum livro inovador em relação aos atuais, dissesse que a narrativa se desenvolveu por outros meios que o não o literário, a minha preferência seria desacreditá-la, tapar os ouvidos. Ao ler ficção contemporânea, procuro valorizar nuances e estilos pessoais sem que sejam necessariamente revolucionários, porém a hipótese de que não haverá mais uma surpresa radical parece-me, ainda assim, assustadora. É doloroso questionar pressupostos básicos: suspender a crença nas inovações a vir mudaria completamente o modo de encarar a literatura, arrasaria estruturas e departamentos acadêmicos, poderia abalar as bolsas de valores. Prefiro ser tradicional e ainda me fiar no novo. Obviamente, não tenho a menor idéia do que ele será, se eu soubesse, eu mesmo o faria.
Referências
[1] Página 10 de Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas. Tradução de Maria Carolina Araújo e Josely Vianna Batista, Cosac Naify, 2004.
[2] Página 188 de Bartleby e companhia.
[3] Páginas 24 e 31 da entrevista com Raduan Nassar no Cadernos de Literatura, IMS, 1996.
[4] Página 11 de Bartleby e companhia.
Marco Polli. Nascido em 1973, criado no interior de São Paulo. Formou-se em Engenharia Química, mas ainda persegue fielmente a prosa literária. Mantém uma página sobre cinema e um blog.




