Notas do desassossego


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Ronald Robson

Deus é o existirmos e isto ser tudo.
Fernando Pessoa

1

Um momento grave, em toda e qualquer cultura, é atingido quando se principia a mais falar o que seja arte que propriamente realizá-la. Não sem porquê, se precisássemos situá-lo nesses termos, o Brasil seria um dos postos avançados do Ocidente em matéria de teoria literária — e qualquer inteligência menor percebe que sua literatura contemporânea contém tudo para que seja capaz de se manter à altura desses estudos: à altura do nada —, o que torna pouco dúbia a evidência de que está se passando algo de profundamente equivocado não na cabeça dos que se supõe intelectuais, pois estes há década já não sabem sequer onde ficam suas cabeças, quanto mais se têm elas um defeito qualquer, mas no seio da intuição de nossos artistas, na vitalidade inqualificável que a arte tem de portar para que o elo entre artista, obra, público e vida não se desmanche.

Talvez o leitor, só com o parágrafo acima, já esteja aborrecido com esta conversa de direitista reclamão. É fato que já não é de hoje que a teoria se sobrepõe à literatura: já tivemos os concretistas. Igualmente verdadeiro é que a cabeça dos intelectuais mais jovens ganhou substanciosa massa: eis aí a revista Dicta&Contradicta como prova. Verdade segura também é que o Brasil não acordou ontem com péssimos escritores: Sérgio Sant’anna não é jovem, Bernardo Carvalho não é jovem, Manoel de Barros não é jovem. Os mais pequerruchos (Marçal Aquino, o filhinho do Sant’anna, Marcelo Mirisola, Joca Reiners Terron) só respondem pelo contributo ingênuo que deram ao rebaixamento de nossa cultura: bater em um de seus livros tem a graça de prender uma abelha sob um copo descartável. Agora vejamos o que há de realmente novo na atualização de tudo isso, porém em escala que, por infelicidade, extrapola as letras de nosso país.

Por graça de Deus e pelo humano susto que tomamos, subitamente, após cansar de insistir em um erro que, além de erro, é ainda bem brega, o mundo letrado começou a notar que a metalinguagem, quando deixa de ser um recurso e passa a ser um fim, é um harakiri cometido de forma refinadíssima e ainda com o bônus do assentimento: o escritor se esmera em criar um mecanismo genial para nele sacrificar o próprio talento, ou imolar a sua falta. Algo tão absurdo quanto imaginar um homem que passa por todas as provações das savanas africanas apenas para achar um pedaço de pau sagrado com o qual arrebentará a própria cabeça. Isto me parece tão óbvio — imagino que o leitor já tenha o resto do raciocínio em mente — que nem merece desenvolvimento. Pense em Kafka escrevendo todos os seus livros apenas para dizer de maneira engraçadinha que ele sabia que estava dizendo um nada — é isso.

O que me preocupa, por outro lado, é que a tomada de consciência dessa erro (e mais todos os outros do tipo) não passou por um exame mais profundo do que de fato e primordialmente levou a desvios dessa natureza: desvios capazes de reformar toda a noção que temos do que seja — e de que função desempenha — a formação intelectual para um indivíduo. Eu não hesitaria em concordar, mais uma vez e sempre, com o célebre e nunca exaustivamente lembrado dito de Cícero: o objetivo de toda filosofia (que, para efeito deste argumento, pode ser permutada pela palavra “cultura”) permanece sendo o de nos preparar para a morte. Ou seja: saber como lidar com a dor, com o belo, com o grotesco, com a felicidade, com tudo aquilo que temos e um dia fatalmente não teremos mais. Temos de estar preparados, senão tudo correrá emparelhado a nós e jamais nos encarará de frente — e infelicidade mais terrível não pode nos atingir. Todo romance e toda poesia respondem a problemas bem definidos que seus autores experimentaram. São questões inteiramente suas que, porventura, podem vir a dar nome a uma carência que nem suspeitávamos ter.

Isso posto, agora perguntemos: quais as reais preocupações dos escritores de hoje? Em quê podem eles nos auxiliar a viver melhor? A fim de dar uma resposta apenas vaga, por hora, partirei de uma questão bem delineada e bastante concreta.

2

Ocorre-me que, atualmente, grande parte dos escritores tentam solucionar a velha e irredutível perplexidade do homem que é, ao mesmo tempo, chamado a ir ao trabalho e a ler um livro de uma forma grotescamente ridícula. Suas respostas passam por um tratamento leviano da literatura que remete, ao mesmo tempo, a um tratamento leviano da existência: a ficcionalização da vida e seu complemento bastardo — o realismo da ficção. Se leio um romance como Jardins de Kensington (Conrad, 2007), de Rodrigo Frésan, ou O Mal de Montano (Cosac&Naify, 2006), de Enrique Vila-Matas, vejo que a literatura passou a ser parte de um instrumental completamente empenhado na confecção de uma grande piada negra. Se eu me pergunto o que fazer com o medo da morte, esses livros não me dizem nada. Se eu me pergunto o que fazer para tolerar a obrigação de trocar a leveza hipnótica de meu corpo, ao acordar, pela algaravia do ônibus que me levará ao trabalho, idem. Esse tipo de literatura já foi bem melhor realizada fora do campo da ficção. Fernando Pessoa encheu seu Livro do Desassossego (Cia. das Letras, 2008) de reflexões primas dessas, todavia com uma acuidade incomparável e com um tal poder de ressonância em nossas vidas que chega a incomodar:

Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra.

(Alguém poderia dizer que os livros não servem apenas para resolver nossos problemas “práticos”. Ou que seu principal fim é nos dar prazer. Quanto a esta última possível refutação, devo informar que, a mim, o prazer não está apartado de todos os demais movimentos morais da alma: uma pessoa inteligente jamais sentiria prazer — conscientemente — através de algo que, de uma forma ou de outra, não esteja lhe enriquecendo.)

3

Mais que uma entre tantas outras pretensas definições do que seja Deus ou o estado de divindade, a frase de Pessoa que epigrafa este artigo — que, apesar de também colhida no Livro, é de natureza bem diversa — nos convoca a pensar o que seja o “existirmos e isto ser tudo”. Existir, somente existir, é um dos dados do conformismo que mais comumente encontro entre os lançamentos expostos nas livrarias. Se transponho o sentido do que diz Pessoa da vida humana em geral para uma expressão específica da vida humana (a literatura), esbarro com um “escrevermos e isto ser tudo” e o seu conseqüente “lermos e isto ser tudo”. A retórica moderna — você também pode chamá-la de pós-moderna, hipermoderna, líquida ou o que bem quiser — possibilitou que intelectuais que não tinham absolutamente nada a dizer posassem de filósofos sérios ou até mesmo filósofos refinados. Você não deve procurar o que Deleuze diz no que ele efetivamente está dizendo, mas sim no processo da linguagem que ele utiliza a fim de não limitar os sentidos de sua mensagem à apreensão “rigidamente iluminista”.

Não sem motivo, hoje temos um exército de “artistas” preocupados com a tal da processualidade. Podemos chamar esta de uma arte performaticamente retórica. Vemos pessoas que acham mais importante escrever um livro a oito mãos do que propriamente escrever um bom livro. Temos também esta tendência estranhíssima, a dos coletivos, cujos integrantes (dizer-se escritor ou pintor é uma heresia) estão muito empenhados em negar o conceito de autoria e em deixar no centro da experiência estética apenas a “obra”. Isso tudo, para ser até benevolente, não passa de uma grande palhaçada, uma empulhação sem tamanho que já ultrapassou todos os estágios a que pode ascender uma farsa. Essa gente não está preocupada em fazer arte — está preocupada em mostrar que qualquer bocó pode fazer um troço muito cool. No entanto, não deixam de nos ensinar algo, apesar de ser essa uma contribuição involuntária: nos mostram que os bocós, em matéria de arte como em qualquer outra, só são capazes de produzir imbecilidades.

Pergunto-me, a partir de constatações como essas, que tipo de sensibilidade se forma com o “escrevermos e isto ser tudo”, com a — vá lá — estética do jogo, da farsa, da ludibriação algo inteligente que jamais aspira a se situar no que um perenialista poderia chamar de “harmonia” (aquela perseguida pelas “ciências tradicionais”, próxima do que Ortega y Gasset chamar de compreensão “cósmica” do momento). Nenhuma de minhas respostas se permite menos que ser acompanhada de um enfático palavrão.

4

Aos poucos, comecei a perceber que a arrogância está para a inteligência assim como a vaidade está para uma mulher bonita — é perdoável, dependendo de qual inteligência esteja em questão, dependendo de que beleza se está tratando. Afinal, é sempre gostoso ser chamado de arrogante, mesmo porque, em geral, é o caso de alguma besta estar lhe prestando o favor de chamá-lo à consciência, no centro da qual surge a pergunta inescapável: “Seria minha inteligência capaz de tornar elegante a minha arrogância?” Eu estaria mentindo caso dissesse que alguma vez respondi que sim, embora seja maior mentira ainda afirmar que, muito humano e macho que sou, não perco uma chance de encarar a questão. Obviamente, não é nada disso. É natural que todos nós fujamos dela.

O mais diabólico dos problemas é que a modernidade, tal como creio que nenhuma pessoa sensata pode deixar de perceber, se constitui precisamente nisto: uma ninfeta feia, além de mal vestida, e que, não bastando isso, ainda quer que toleremos sua arrogância. Essa é uma sensação bastante imediata, algo que sinto ao simplesmente abrir a porta e caminhar pela rua. O máximo de que necessito é um René Guénon para me esclarecer o que levou o mundo a ser dessa forma, motivando-me esse sentimento. Não aceito, aliás, a refutação de que o que estou dizendo não faz mais sentido por não estarmos mais na modernidade, e, sim, em um estágio posterior. Abro qualquer bom livro de história moderna e vejo que as piores cabeças das décadas de 1910 e 1920 possuíam os mesmos cacoetes das piores cabeças das décadas de 1980 e 1990.

Neste ponto, convido o leitor a acompanhar calmamente, para efeito de desfecho do raciocínio aqui desenvolvido, o que disse Bruno Tolentino na última aula que sua saúde lhe permitiu dar (a transcrição está publicada no primeiro número da Dicta&Contradicta – IFE, 2008; seu título é Do Enigma ao Mistério):

O mundo moderno quer criar uma espécie de antídoto para essa ameaça que é Deus e a Beleza, e o resultado não poderá ser outro que não a feiúra e a negação de absolutamente tudo. Vamos então conceber nosso mundo horroroso para podermos dar-nos ao luxo de acreditar que temos uma defesa, um escafandro contra aquela súbita surpresa, aquele temor e tremor de acordar diante daquilo que realmente somos. E então passaremos o tempo empilhando latas no supermercado e tentando fazer disto arte.

O que seria a “súbita surpresa”? Como resposta esquiva, apenas relembro o que disse Tolentino em outro trecho da aula: “a vida ou é metafísica, ou não é nada”.

5

Por meio da literatura contemporânea — e falo em especial direcionado para a tal da “literatura brasileira contemporânea” —, logramos possuir uma casa de bonecos repleta de anti-heróis infantilizados. Realmente nos empenhamos com esforço invejável em descobrir por que não prestamos, por que somos fracos, por que valemos o que vale um boi. Enquanto um liberal com inclinações conservadoras, é-me impossível crer que o ser humano já tenha existido de um modo absolutamente distinto do que hoje lhe é próprio. Há coisas — e jamais poderemos negar isso — que nunca mudaram nem mudarão. E eu não acredito que a vida, se proposta dessa maneira, possa de fato valer alguma coisa. Não acho que as coisas foram, sejam ou serão assim.

Pois bem: o que posso dizer a título de precária conclusão, ao mesmo tempo que passo um laço em torno a esses aspectos nefastos, aparentemente desconexos, de nossa vida cultural e, em especial, a literária? Serei rápido e simples.

Se a arte vai mal, é por erros como o que expus rapidamente neste artigo — e quero deixá-lo bem claro: confusões como a troca da espiritualização da vida pela sua ficcionalização. É pôr a farsa no lugar do sublime. Há pouco tempo, li, realmente não lembro onde, o comentário de que o Brasil, embora tenha tantos católicos, possui uma literatura com pouquíssimas obras com uma aspiração que se possa chamar de “metafísica”. É uma constatação arrasadora em sua obviedade. Por isso, intimamente, sempre faço um pedido aos escritores mais jovens: se estão descontentes com o que a realidade lhes oferece (e isso sempre ocorrerá), se querem tanto viver e escrever “de verdade”, “com o sangue” etc., não a problematizem por meio de um teatrinho de bonecos ex nihil nem por meio da leviandade que se compraz em construir algumas imagens que não são mais que exercícios interessantes para a imaginação. Convido-os a tocarem o nervo da língua enquanto se empenham em manter suas almas suficientemente abertas para que percebam que ou a vida é levada a sério e confrontada com o que de melhor podemos criar sem culpa nem auto-policiamento estético, ou teremos de nos contentar em vivê-la como se fosse uma piada sem graça que contamos infinitas vezes. Eu, de minha parte, já cansei de ouvi-la.

Ronald Robson nasceu em 1988, em São Luís-MA, cidade onde ainda reside. Escritor e jornalista, é colaborador do Rascunho e repórter de O Imparcial.  Também participa do Rumos Jornalismo Cultural e escreve regularmente em seu blog pessoal.

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