As musas confusas de Patrícia Portela


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Aida Cardoso

“Patrícia Portela cresceu em Lisboa, Macau, Utrecht, Helsínquia. Trabalha em teatro, dança e cinema. Quase sempre nos bastidores. Vive entre Paço de Arcos e Utrecht.” Esta é a biografia da autora de Odília ou a história das musas confusas do cérebro que podemos encontrar no próprio livro. Estas frases breves, nas quais parece caber a vida de Patrícia Portela, na verdade, não podiam ser um melhor ponto de partida para a leitura que nos espera. Não há referência a datas, como seria de esperar encontrar num texto biográfico. Há, pelo contrário, uma justaposição de espaços e de tempos e é essa confluência que nos apresenta a autora e que serve, também, julgo, de introdução ao que iremos encontrar da ficha técnica em diante.

Terceiro livro publicado de Patrícia Portela, Odília ou a história das musas confusas do cérebro esquiva-se a qualquer tentativa de arrumação em géneros. No entanto, julgo que mais importante do que tentar encaixar a narrativa em determinado género é tentar perceber o que é, afinal, uma musa confusa. A autora esclarece o leitor sobre esta questão:

As musas confusas…
As musas confusas são todas odílias.
São exactamente o mesmo que as outras musas mas exactamente ao contrário. Em vez de andarem a inspirar procuram constantemente alguém que as inspire.
Quando se cansam de esperar que a inspiração lhes apareça, partem à procura. Deixam sempre rasto por onde passam, transformando as cidades e os caminhos em labirintos minotáuricos (…).
Todas têm dois olhos negros, cada um por diferentes razões. São todas gémeas e cheiram todas muito mal, o que é natural pois usam sempre o mesmo vestido, mas felizmente nos quadros, nos livros e nos filmes não se nota muito.
Todas as musas confusas se fazem acompanhar de musas penélopes que são fiéis e eficientes companheiras, todas com um desgosto amoroso por causa de um homem que teima em chegar tarde a casa. (p. 46)

É, pois, a história de Odília que vamos acompanhar. Uma musa confusa que, na verdade, é um mosaico onde cabem diferentes pessoas que fazem parte da vida de Patrícia Portela, como explica a autora no fim do livro. Do mesmo modo, também a amiga de Odília, Penélope, é uma personagem construída com base em várias pessoas reais que emprestam parte de si a esta ficção.

Quanto à narrativa, acompanhada das ilustrações da própria autora, ela é exactamente o que encontramos representado nas primeiras imagens que antecedem a história de Odília — um novelo. Um novelo que se estende para fora do texto e que, assim, desafia a fronteira entre obra e livro, entre ideia e objecto.

Justamente pela sobreposição de imagem e palavra que abarca o objecto que serve de suporte físico à história desta musa confusa, parece que, mais do que uma simples história, estamos perante uma narrativa encenada servindo a capa de cortina ao que iremos assistir. Aliás, facilmente associamos a própria linguagem de Patrícia Portela ao teatro, área a que a autora dedica o seu trabalho há já vários anos.

Texto e livro são, portanto, uma unidade que não é estanque, que não encontra limites nas margens da literatura, mas antes a invade, através da inclusão no processo criativo de estratégias que visam incorporar o exterior. Neste ponto, não podem passar despercebidas as notas de autor, de tradutor e de editor que Patrícia Portela cria como parte integrante da narrativa. Do mesmo modo, não podemos esquecer as pretensas linhas de leitura pelas quais a autora guia o leitor e que mais não são do que formas de chamar a atenção para a maleabilidade do objecto escrito, das possibilidades que oferece e que extravasam a sequência ditada no momento da criação. É o que acontece, por exemplo, quando chegamos ao capítulo IV, onde encontramos uma nota do editor fictícia explicando que o capítulo “podia ter sido lido logo a seguir ao Capítulo III. Mas não teria sido aconselhável.” (p. 56)

Odília ou a história das musas confusas do cérebro é também um emaranhado de ideias, de apontamentos pessoais e sempre algo encriptados de que Patrícia Portela mistura os fios numa composição que oferece tantos sentidos que acaba por ocultar o sentido original, sendo o seu carácter lacónico um convite a interpretações únicas e pessoais.

Por outro lado, uma das marcas deste texto é sem dúvida o facto de ser uma narrativa em que tempo e espaço se esbatem (mais uma vez, também aqui se anulam fronteiras) e que claramente se compraz na volubilidade do passado e do presente, que ao invés de nos servirem de guias, reforçam o poder demiúrgico do narrador (que aqui se confunde intrinsecamente com a figura da autora, por ser tão evidente o carácter pessoal das páginas que lemos). As questões quotidianas do nosso tempo invadem a Grécia Antiga e a sua mitologia, ou será o contrário? Será que essa mitologia tem uma origem, mas o seu poder metafórico não é datado? Será o seu uso meramente instrumental?

No meio de tal novelo (o sonho de Odília) a estabilidade reside na repetição que baliza a narrativa.

Algumas coisas acontecem porque nós queremos que elas aconteçam, outras não. Por exemplo, cair não é uma coisa que se quer que aconteça, mas cair e conhecer alguém pode ser. Cai-se porque se quer e porque não se quer, mas cair é igual, acontece sempre. E acontecer sempre é uma segurança, mesmo quando não fazemos qualquer ideia do que se passa, connosco ou à nossa volta, estamos sempre a acontecer, e isso parece-me bem, parece-me estável. E decidirmos deixar de acontecer não é nada fácil porque há imensa coisa que tem de se desfazer para se deixar de acontecer: deixar de respirar, deixar de comer, deixar de dormir, deixar de ouvir, deixar de ver, deixar de falar, deixar de conhecer, deixar de gostar, deixar de começar, deixar de pensar, deixar de convidar, deixar de acabar. Deixar não é nada fácil, é como acontecer, por vezes deixa-se porque se quer, por vezes é sem querer, mas deixa-se… Umas vezes faz pena, outras não, outras nem se dá por isso e só muito mais tarde é que percebemos que deixámos… É como falar, nem sempre se diz o que se quer, nem tudo o que se quer falar é exactamente aquilo que se diz ou que se quer dizer, nem sempre tudo o que se está a dizer é exactamente aquilo sobre o que queremos falar… É como cair. Cair não é uma coisa que se quer que aconteça, mas cair e conhecer alguém pode ser. Cai-se porque se quer e porque não se quer, mas cair é igual, acontece sempre. (…) (pp. 9-10)

Esta repetição textual poderia deitar por terra a ideia de infinitude, mas a circularidade da história e da memória garante que assim não seja, nunca vemos o fim do novelo porque o seu fio, tal como a colcha de Penélope, deve ser enrolado e desmanchado ad aeternum, ele prolonga-se para além das páginas do livro.

Referências

Odília ou a história das musas confusas do cérebro (Editorial Caminho, Lisboa, 2007), de Patrícia Portela, com ilustrações da autora. Sem edição brasileira.

O livro está disponível na Fnac (Portugal).

Aida Cardoso nasceu em Lisboa, em 1983. É licenciada em Estudos Portugueses e frequentou o curso pós-graduado de Especialização para Técnicos Editoriais. Actualmente, trabalha num projecto de investigação linguística e é revisora. É também a autora do blogue Olho da Letra, dedicado aos livros e à leitura.

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