Deságua
Briza Mulatinho
Foi como na vez em que me queimei. Segurei a assadeira quente e fiquei com o cabo dela desenhado na mão. Por 30 ou 40 segundos não me mexi, pensando no que fazer pra aliviar a dor. Aí, ele apareceu e eu comecei a chorar, compulsivamente. Depois a …
Do sangue
Carlos Eduardo Bonini
— Morte aos ricos!
E partiu a despedaçar cada uma das obras da praça. Uma música do demônio ou um filme de doentes, as pessoas se dispõem agora a acreditar que o menino adquiriu comportamento torto e carece de correção.
— Uma sova resolve.
— Tira o dinheiro, Ivete, quero …
Crise ficcionológica
João Barreto
A mentira profissionalizada que alimenta boa parte do mercado mundial de entretenimento pode entrar em colapso. Essa é a verdadeira crise dos EUA. Aquela coisa de crise do crédito é bobagem. A crise econômica tem sua origem legítima é na falta de estabilidade que o setor ficcionológico inspira.
É …
Sobre macacos imortais e literatura barata
Bruno Cardoso
Dizem que se colocarmos um primata imortal diante de uma máquina de escrever inquebrável e deixarmos que o animal bata aleatoriamente nas teclas, um dia, provavelmente num futuro bem distante, o letrado macaco terá escrito todas as obras de Shakespeare, todos os poemas de Rimbaud e todas …
Busca e outros poemas
Walter Ramos
Busca
Amanheceste, sol-a-pino, ante a Vulgata,
lavraste no vão das costelas, alma e alento,
com um canto oculto sob o nó da garganta
mudo, pensante, tal cantar no intento.
Numa mão, certa caneta vestida de prata
a ouvir muitos silvos que imitam o vento.
Sagrações vindas de uma imaginária mata
que gotejam, vivas, dentro do pensamento.
E …
Onde está o morto?
Walmor Santos
Das histórias que vivi como detetive particular ou das que enfrentei em minha atribulada vivência nenhuma foi tão estranha e inverossímil e ao mesmo tempo de tão fácil solução quanto esta. Se fosse criá-la como história, o absurdo a faria incrível. Você, leitor atento e desconfiado, responda-me: Quantos …
De roubos, furtos e moral
Urariano Mota
Eu também já fui ladrão, confesso.
Eu e um amigo, a quem chamarei de Hermann, trabalhávamos em um banco privado. Começávamos o expediente às 7 da manhã, quando não mais cedo, e terminávamos, melhor dizendo, por volta das 20 horas fazíamos um breve intervalo para o outro dia. …
Do lado de fora
Raimundo Neto
Arrumar todas as panelas é seu desajuste. Cada panela, um destino de comidas. No fim da noite, os pés empurravam o sono, perambulava arrebatada pela cozinha. Cadeiras pra lá, mesa pra cá, e os sonhos mantidos distantes.
Prostrava-se, em segundos perdidos, no tempo que não a prendia, resto de …
Dissecação
Marco A. Domingues
Li, certa vez, que para que se escrever era preciso, primeiro, conhecer profundamente a natureza humana, entretanto, que natureza seria esta? Onde ela está, como posso entendê-la?
Infelizmente não faço a mínima idéia. Conheci centenas de pessoas, morei com mais de meia centena delas e, posso dizer, …
Sylvia
Marco A. Domingues
A primeira coisa que ela vê quando acorda são suas pernas grossas e brancas. Ela procura por sinais de gangrena, pela perna podre, quase caindo, que há pouco era tão real e palpável, porém tudo não passou de um pesadelo. Reflexo de culpa por ter feito …