D.F. - Uma fábula possível

Gustavo Rios

Brasília pegava fogo. E, entre as chamas, algumas pessoas corriam desesperadas, na tentativa de salvar jóias, dólares e serviçais. Somente os melhores serviçais eram salvos. Os outros morriam queimados, pois que utilidade teriam se não sabiam cozinhar, passar ou lavar?

Quando o fogo finalmente cessou, …



Raiva!

Cássia Sousa

Estava em casa, deitado na cama. De bruços. Com o olhar um tanto vago, fixo na parede branca, perdido em pensamentos. Não qualquer tipo de pensamento. Detalhes minuciosos de cada lembrança miserável que um ser poderia possuir explodiam intensamente, sem parar um instante sequer, cada …



Paleta

Carlos Eduardo Bonini

Encanta-me a terra vermelha, esta que entra estabanada pelo salão em dias sem festa — primeira dança dos ventos do verão. Banca memórias, as mais puras e as que apertam o peito, e impõe um lençol colorido sobre a cidade sem curvas e …



Um caminho

Carlos Amaral

Ele caminhava: mãos no bolso, cabelo ao vento, cheio de uma liberdade tão plena que chegava a oprimir (porque a liberdade pode ser tormenta para quem não a conquista com luta, suor e sangue). Caminhava, passos lentos, reflexivos como ele todo. Caminhava e era …



Mortimer

Caio Marinho

Todo ano, Mortimer tentava acertar quando ia morrer. Escrevia a data num pedaço de papel, dobrava-o ao meio e colocava-o numa gaveta. Gostava de pensar que ainda tinha sempre o dia seguinte para viver, então nunca o escrevia no papel. Também a data escrita …



Lençol de girassóis

Briza Mulatinho

Acordou de madrugada, com o barulho de chuva na janela. Uma chuva fininha e passageira. Ficou ali parada, olhando os carros que passavam apressados, mesmo já tão tarde. E percebeu que o mesmo pensamento que a acompanhava antes de deitar continuava lhe fazendo companhia. Só …



Poeta transgressor

André Canevalle Rezende

Ele vinha rabiscando rapidamente páginas e páginas de caderno. Deixava versos magníficos por onde passava seu lápis, como pegadas de vida em solo maldito. Está quase concluída sua obra. É a mais bela obra jamais escrita em versos por mão humana. Trata, justamente, da mão humana, a …



Sensacionismo em John Banville

Rodrigo Gurgel

Quando comecei a ler O mar, de John Banville, minha primeira reação foi negativa, pois me deparei com um narrador em primeira pessoa, semelhante ao de outra obra de Banville, O livro das provas, que eu havia lido fazia poucas semanas. Encontrar, em um curto espaço de tempo, …



Celebração do afeto

Mariana Ianelli

Não olhamos duas vezes para o mesmo céu quando nele desponta uma nuvem chamada Marco Lucchesi. Única e multiforme, esta onda, que é imagem do presente, e que por sua própria volubilidade permanece, paira sobre a areia do deserto, tão silenciosa quanto sonora sob …



A apreciação e utilidade da poesia

Pedro Sette Câmara

Por que gostar de um poema?

T. S. Eliot disse em algum de seus ensaios que “só é possível ensinar literatura a quem já tem um gosto formado”, mas não me lembro de ele ter explicado o que seria isso. Como …



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