Poesia cíclica e outros poemas
Fernanda Passos
Poesia cíclica*
Sou caule de raízes profundas que tocam o umbigo do mundo e se liquidificam
Tronco robusto na superfície irregular
Cresci torta como as árvores do cerrado
Os galhos de meu corpo, dimensões imensuráveis
Em suas pontas, olhos que vêem o mundo sob ângulos diferentes
Por isso sou múltipla como as …
Chá para as borboletas e outros poemas
Bárbara Lia
Chá para as borboletas
Janela — espelho meu.
Fragrância de almíscar selvagem
me violenta.
Menino com aura violeta.
Jovem com juba desgrenhada.
Velocidade lenta.
Garganta do poço este túnel
cinza, onde trafego dias.
Penso na infância, sombra
dos eucaliptos, recanto secreto
onde eu servia chá às borboletas.
***
Desdêmona
Olhou-me como nuvem
a sugar os vapores
da minha alma.
Por que ele é meu deus
guardei-o …
A liberdade é roxa
Samantha Abreu
Quando resolveu se separar dele, tinha decidido nunca mais arrumar homem meloso, que a tratasse bem demais. Não gostava de ninguém “no seu pé” e queria conhecer de perto a tão falada independência feminina.
Ficou meses fugindo enquanto ele a seguia, implorando para que ela voltasse pra casa e …
Tatuagem interna
Márcia do Valle
Olhou seus lábios entreabertos e deu um beijo. Um monólogo em forma de beijo na boca que dormia. Pegou sua bolsa e foi embora sem fazer barulho. Não queria que ele acordasse e acabasse com o encantamento. Quebrasse a harmonia do dia como uma gota de molho …
Quando apagamos amigos
Diego Viana
Um dia, seremos nós. Fomos à estação de Montparnasse para nos despedir de André e ajudá-lo com a bagagem. Ele tinha um trem a tomar, com destino a Lisboa, de onde partirá seu vôo rumo ao Brasil. Bufando e fazendo piada, vencemos as escadarias e a lotação do …
Anticrônica
Amilcar Bettega
O lirismo e a cena do cotidiano: Início de primavera, uma luz coada pela bruma matinal desliza por entre os galhos das árvores e revela verdes regenerados nas folhas gordas de seiva; é domingo, nem todas as padarias estão abertas, apesar da necessidade do pão nosso de cada …
Confluência de rios
Isabella Kantek
A calçada era larga e ela caminhava com a brisa fresca. As árvores frondosas formavam um caminho de sombra e silêncio. Ela não precisava ter passado por aquela rua, mas sentiu-se atraída. Ela podia ter feito um caminho menor, entretanto o que tinha que acontecer era corrente forte. …
Sobre o que não é novidade e só piora
Renata Miloni
Ainda não posso me afirmar como uma boa leitora porque não dedico ao ato de ler atenção, tempo, disciplina e entrega que sei ser bem capaz de ter. Mas não por isso deixo de observar os leitores que se manifestam em blogs e outros sites, e aqueles com …
Os desvarios de David Toscana
Gregório Dantas
Em entrevista concedida a André Miranda, e publicada no Globo recentemente, David Toscana reiterou a importância de Dom Quixote para sua literatura. E fez uma declaração interessante sobre certo gosto pela verdade muito em voga na ficção contemporânea:
A arte tem que ser delirante, imaginativa, selvagem, sublime. E oxalá …
Coetzee, Nooteboom e o “ilusionismo realista”
Felipe Charbel
Em 2003, J. M. Coetzee publicou Elizabeth Costello, coletânea revista de alguns contos protagonizados pela escritora australiana fictícia que dá nome ao livro. No conto de abertura, Palestra 1, Elizabeth, para muitos uma espécie de alter ego de Coetzee, viaja aos Estados Unidos para receber um prêmio literário …