O avesso da crítica


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Zingarah

Sou uma leitora ávida, dessas que fazem da leitura um trabalho, uma terapia e um santo remédio para qualquer coisa. Leio com assiduidade e preciso ter sempre muito material à mão, pois o consumo é grande. Em virtude de minha voracidade literária, e também da facilidade com que atualmente podem ser encontrados informações e textos on-line, há tempos passei aos pantanosos terrenos da metalinguagem, para descobrir os frutos da famigerada crítica literária.

O espírito crítico é parte integrante do espírito humano, na mesma razão em que o stricto está para o lato. Dessa forma, inseparável da própria humanidade enquanto atributo filosófico, por que deveria ficar de fora do circuito comercial do fazer literário?A literatura hoje expande-se a olhos (jamais) vistos. A velocidade e a instantaneidade são as pedras de toque da era da informação, facilitando o acesso de uma enorme massa de leitores a outra enorme massa de escritores, vetores esses que nunca estiveram antes em rota de aproximação. O produto dessa facilitação quantitativa é variado, multinumérico e caótico. A adoção de formatos inovadores (como os decantados blogs) permite a interação entre escritores e leitores praticamente em tempo real, a formação de verdadeiros pólos disseminadores de informação cultural e a agremiação de pessoas em torno de objetivos intelectuais comuns.

Por outro lado, os detentores do status quo da cena cultural tradicional, não vêem com bons olhos toda essa disseminação de conteúdos, sob a perene alegação de que esses conteúdos são de discutível ou baixa qualidade, não tendo potencial para provocar uma transposição de hábitos culturais sociologicamente significante.

Ora, ora.

Como leitora de textos críticos de diversas procedências, tenho observado o quanto basta para concordar e discordar de algumas conclusões genéricas a que se tem chegado como produto final do processo de avaliação a que os críticos se propõem. A crítica tradicional, dita e considerada de alto padrão pelos veículos centrais da mídia, permanece adejando em torno dos mesmos elementos que vêm sendo analisados, resenhados e criticados desde a época do dilúvio bíblico. Os responsáveis por esse processo lêem as mesmas obras que seus antecessores, requentam as resenhas desses últimos para confrontar com as suas próprias, e parecem seguir numa linha de tempo que foge ao curso principal da realidade. É claro que não se deve retirar o valor de uma crítica ou resenha bem feita, ainda que ela seja a milésima a versar sobre a impenetrabilidade e os elementos subterrâneos da obra proustiana, mas, por outro lado, não se pode olvidar a evolução do processo cultural, ainda que nessa maré sejam arrojados muitos detritos sobre as areias.

Concordo com a observação de que a disponibilização de ferramentas de publicação on-line produziu e produz muitos textos com inegáveis defeitos formais, e mesmo com vícios lógicos. Mas concordo ainda mais com essa mesma disponibilização, pela sua característica democratizadora de distribuição rápida e eficiente de conteúdos culturais. Fechar os olhos à realidade fazendo cara de nojo não vai ajudar a consolidar as instituições culturais do país. É apenas uma demonstração de pedantismo acadêmico, empolado e démodé. Apoiar o que de novo vem surgindo entre as páginas virtuais é investir no futuro, ainda que seja necessário um trabalho hercúleo para separar o joio do trigo.

Zingarah é advogada e escritora em São Paulo. Escreve na área jurídica e, sob o pseudônimo Zingarah, desenvolve diversas atividades literárias, incluindo seu blog pessoal. Participa da Revista Literária Paralelo 30 atua ainda como parecerista no mercado editorial.

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